Marcelo: "Já estava com saudades de África e de voltar a São Tomé e Príncipe"

Um dia para matar saudades das cores e dos cheiros da ilha, passado entre muito protocolo, elogios à cooperação portuguesa e desejos de uma nova fase de relações económicas entre os dois países.

O Presidente confessou, ao final da manhã na varanda da chancelaria da embaixada portuguesa em São Tomé, com um oceano azul como cenário, que já estava "com saudades de África" e, sobretudo, de regressar a estas ilhas em cima do equador.

Marcelo relembrou umas semanas aqui passadas, em 1988, numa altura em que veio para ensinar, mas acabou preso na ilha devido à instabilidade que deu início ao fim do sistema de partido único em São Tomé. Com o aeroporto fechado, Marcelo foi forçado a ficar "mais umas semanas", bem para lá do final do curso para altos quadros da administração pública em que participou. "Foi uma delícia para mim", confessou, lamentado que não sabe se, desta vez, vai ter "tempo para matar as saudades com um mergulho".

O momento era de conversa sobre cooperação. Marcelo falava ao sol enquanto no interior da chancelaria esperava um grupo de cooperantes portugueses em São Tomé. Tinha ficado para trás o ponto mais animado da viagem, até aqui. Uma praça cheia de gente - grupos locais de dança e teatro - esperava o Presidente português à saída de uma audiência demorada com o primeiro-ministro. Conduzido por Patrice Trovoada - ambos a escorrer suor sob um sol quente -, Marcelo fez o que sempre faz. Não houve grupo ou recanto da praça, ou mesmo boa parte das pessoas que aguardavam a passagem da comitiva do lado de fora das baias, que não tenha tido direito a beijos, abraços, uma ou outra selfie, no fundo, uns segundos de atenção presidencial.

O dia foi institucional, mas com diversas fugas ao protocolo e ao programa. Marcelo a ser Marcelo, como à saída do Palácio Presidencial, quando foi visitar uma igreja, fazer uma foto de grupo nas escadarias e assistir a uma encenação do auto de Floripes - a recreação de uma história medieval portuguesa, um teatro de rua que terá chegado à ilha do Príncipe no séc. XIX. E também aí Marcelo decidiu ser Marcelo e quando a peça terminou foi cumprimentar os atores. Um aperto de mão e uma palmada no ombro para os personagens masculinos e dois beijinhos para as senhoras - duas bruxas e uma noiva. Os dois beijos na noiva levantaram um coro de gargalhadas na comitiva são-tomense e no público que se tinha juntado numa roda. O Presidente não tinha dado por um pormenor: o auto de Floripes é representado, exclusivamente, por homens.

Na varanda da chancelaria, em ambiente muito mais controlado, Marcelo demorou-se em elogios à atividade das ONG portuguesas em São Tomé. "O campo de atividade é muito impressionante e muito positivo". Sob o chapéu do Instituto Marquês de Valle Flôr, uma das primeiras instituições do género a chegar ao arquipélago, têm-se multiplicado as ONG e as áreas de aposta. "Cobrem hoje a educação, com programas em todos os níveis de ensino; a solidariedade social; a saúde, onde há projetos com mais de uma década que têm sido renovados e alargados, mas estão a chegar a novas áreas, como o ambiente, o diálogo intergeracional ou a igualdade de género. Isto é: tudo o que tem a ver com aquilo que é desenvolvimento humano".

Apontando para a sala onde esperavam os cooperantes, o Presidente traçou um perfil. "Há uma idade média muito baixa, gente muito jovem, com experiências muito diferentes. Parte fica por aqui, outros vão indo e vindo, e este é um trunfo essencial no nosso relacionamento". É uma das marcas da relação entre os dois Estados, diz Marcelo, sublinhando que há mais: "o pilar Estado no domínio das funções de soberania e a que se soma a atividade empresarial, que vai passar a um novo patamar com uma parceria global".

Foi precisamente sobre essa parceria global que o Presidente falou mais adiante no dia, no Centro Cultural Português, perante uma plateia de empresários dos dois países e, de novo, cara a cara com o Primeiro-ministro são-tomense. Era o novo patamar nas relações entre os dois países de que Marcelo não se cansava de falar desde que chegou. "Onde havia a iniciativa dos empresários, passa a haver além disso, um acordo de enquadramento global, de definição de prioridades, de definição de formas de financiamento, de definição de métodos e calendários". Um acordo que enquadra parcerias viradas para o mundo das empresas e dos negócios, prevendo maior atividades em áreas como o mar, a energia ou as infraestruturas.

Regressamos por momentos à varanda da chancelaria, aquela que tem um mar imenso como horizonte. Foi aí que Marcelo se demorou a falar de um país jovem: "em São Tomé, 65% da população é jovem. É radicalmente inverso à sociedade portuguesa. É futuro e é futuro que precisa de saúde, de educação, de permanente inovação e formação profissional", que precisa de ajuda e cooperação. As ONG, afirma o Presidente, são o veículo ideal, até porque são um exemplo "de transparência, de honestidade e dedicação".

Questionado sobre se essa cooperação não tem andado a marcar passo, Marcelo lembrou que a crise que marcou Portugal não deixou que esse esforço fosse tão longe quanto seria desejável e lançou daqui do equador uma homenagem ao governo de Passos "porque alguns dos acordos foram celebrados já no começo da saída da crise, em 2015". Augusto Santos Silva estava ali ao lado e era a pessoa certa a quem pedir uma avaliação da cooperação entre Portugal e São Tomé. Teria o primeiro-ministro Patrice Trovoada razão quando disse há dias numa entrevista que a cooperação portuguesa "não está ao nível mais desejável"? O chefe da diplomacia portuguesa foi seco na resposta: "O programa estratégico de cooperação com São Tomé foi assinado em 2016, para o quinquénio que decorre até 2020. Significa um investimento da nossa parte na ordem dos 58 milhões de euros, o que representa aliás um dos maiores investimentos portugueses em cooperação, designadamente se fizermos o cálculo per capita". E relembrou o muito que Portugal já fez: "Na educação, sem a cooperação portuguesa, o sistema de ensino básico e secundário em São Tomé não seria tão bom quanto é; na saúde, onde para além do programa Saúde para Todos e da telemedicina, há um programa de evacuação para doentes que garante a assistência médica e hospitalar em Portugal a são-tomenses; nas áreas da soberania e nas infraestruturas".

Augusto Santos Silva insiste na letra do acordo firmado em 2016, que diz que é para cumprir. Quanto ao outro lamento de Patrice Trovoada, sobre um atraso na linha de crédito de 10 milhões para empresas são-tomenses, o ministro dos negócios estrangeiros afirma que não há qualquer atraso e que está a ser negociada uma de duas soluções: um empréstimo Estado a Estado ou uma nova linha de crédito. "Tudo está a correr bem na cooperação entre Portugal e São Tomé", concluiu.

Num outro palco, na intervenção perante empresários e com Patrice Trovoada na plateia, Marcelo colocou uma afetuosa pedra sobre o assunto: "valeu a pena, senhor Primeiro-ministro, de quando em vez cada um de nós ter à sua maneira um ou outro momento de angústia existencial, ou pelo menos de acicate antecipatório, quanto mais não seja para poder dizer que teve razão histórica, mesmo quando aquilo que estava por fazer estava já pensado e previsto. De todo o modo, não interessa. Se isso for bom para São Tomé, tanto melhor, porque é bom para a nossa relação fraterna".

Uma relação já com mapa traçado rumo a um futuro mais intenso e de cooperação reforçada. Marcelo aproveitou para fazer o anúncio: "venho agora eu e virá muito em breve o senhor primeiro-ministro". Augusto Santos Silva confirmou o plano, mas não lhe colou uma data certa, limitando-se a dizer que António Costa virá a São Tomé "nos próximos meses, sempre antes da cimeira da CPLP".

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