Ventura envenenado? Líder dá gás a publicação de página não oficial

Página de Facebook que alegava ser do Chega de Vila Real era afinal de militantes, garante a direção do partido. Distrital pondera apresentar queixa às "autoridades" contra os autores.

André Ventura deu gás no Twitter à polémica sobre a eventualidade de o poderem envenenar durante o processo de vacinação contra a covid-19 e que deu origem a várias notícias na comunicação social. Mas, afinal, a página de Facebook na origem da polémica, alegadamente do Chega de Vila Real, é apenas de militantes e não é a oficial, garantiu em comunicado a direção do partido. A página foi entretanto apagada.

"O Chega vem, desta forma, desmentir categoricamente que a página de Facebook da distrital de Vila Real que está a ser noticiada pela imprensa seja gerida por dirigentes do partido", disse em comunicado a direção de André Ventura sobre aquela página polémica. Afinal a página oficial do partido é a gerida por José Manuel Dias, presidente da distrital de Vila Real, mas que na verdade apenas tem uma publicação, datada de 29 de setembro de 2020.

O presidente da distrital de Vila Real do Chega afirmou ao DN que está a "ponderar", em conjunto com a direção nacional, fazer queixa "às autoridades" contra os autores da página. "Nunca tivemos afinidade com aquela publicação", assegura José Dias, mas não confirma ou desmente que fosse feita por pessoas ligadas ao Chega.

Na tal página de militantes, como admitiu a direção do Chega - que era muito ativa e desencadeou várias reações, incluindo do líder do PSD, Rui Rio, que a comentou ironicamente no Twitter- escrevia-se sobre o facto de Ventura (infetado com covid-19) não ter tomado a vacina: "Não o podemos criticar. Duvidam de que se o André chegasse ao centro de vacinação cheio de funcionários do governo socialista do António Costa não iam tentar injetar-lhe veneno mal percebessem que era ele? Todo o cuidado é pouco e recomendo aos militantes do Chega que não se identifiquem como tal quando vão tomar a vacina. Incomodamos muita gente e vão fazer de tudo para nos parar. Tomem cautela."

Horas antes de desmentir o carácter oficial da página do Chega de Vila Real, André Ventura aproveitava a onda de notícias sobre o assunto para ele próprio se associar à ideia de que a sua vida poderá estar em risco. Também no Twitter escrevia: "Se eu acho e estou convencido de que o governo português ficaria feliz em silenciar-me? Naturalmente! Se existem neste mundo forças que de bom grado me eliminariam, física e politicamente? Sem dúvida! A luta contra a corrupção e o compadrio tem os seus custos!"

Esta publicação de Ventura foi usada pelos autores da página não oficial de Vila Real para tentar calar as críticas que os próprios militantes do Chega fizeram às considerações sobre o potencial envenenamento do líder. Num segundo post a justificar o primeiro e a dizer que foi mal interpretado, usaram o de André Ventura como comentário: "Para os que dizem que a nossa publicação é estúpida."

No Twitter, André Ventura colocou novamente reticências à vacinação. "Milhões de pessoas por toda a a Europa, muitas delas profissionais de saúde, decidiram ainda não tomar a vacina. Milhões de cidadãos plenos querem saber mais e estar perfeitamente conscientes do que estão a fazer, eu sou mais um. Isto é algum crime?"

"Dolo eventual"

As considerações de Ventura sobre "o governo português" ficar "feliz" em silenciá-lo e as "forças que de bom grado" o eliminariam "física e politicamente" podem enquadrar-se, diz José Adelino Maltez, no chamado "dolo eventual", porque "claramente instigam" as teorias da conspiração que proliferam no partido e podem redundar em "violência". O politólogo, que até já tinha elogiado a capacidade mobilizadora de Ventura, manifesta-se agora chocado com o "mau exemplo" de "colagem" do líder do partido a publicações como as que foram feitas na página não oficial do tal "Chega de Vila Real".

E as palavras sobre as vacinas também são censuradas por Adelino Maltez, que elogia o "prestígio" da Direção-Geral da Saúde e do SNS que, diz, devem ser os únicos a ter uma palavra sobre esta matéria. "Há uma reserva de competência que tem de ser respeitada", frisa.

paulasa@dn.pt

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