Tirar brasões da Praça do Império é demagogia. "Vão demolir os Jerónimos?"

O sociólogo rejeita tendências que "reescrevem a História" e revelam uma tendência crescente que tem o risco de transformar a sociedade em algo feito "de autómatos, sem identidade nem direitos individuais".

Sociólogo, escritor e antigo ministro de Mário Soares, tem um olhar crítico sobre a política nacional e a gestão da pandemia. Figura incontornável da opinião pública em Portugal, António Barreto lembra que a democracia é de todos, mesmo dos que não acreditam nela. Lamenta que se queira "destruir as coisas da história que fazem parte da nossa identidade" e por isso se juntou ao movimento contra a retirada dos brasões da Praça do Império, em frente ao Mosteiro dos Jerónimos.

Leia aqui a primeira parte desta entrevista a António Barreto

É um dos signatários do abaixo-assinado contra a remoção dos brasões relativos às ex-províncias ultramarinas, na Praça do Império, em Belém. Há tempos criticou-se tanto o Museu das Descobertas que ele parece ter ficado pelo caminho... Esta é uma tendência que tem vindo a crescer?
Infelizmente, é. Eu raramente assino petições e já assinei três sobre o Jardim da Praça do Império. O que está em causa é não destruir aquele jardim, o que significa também pôr termo a esta espécie de vaga que se estabelece de reescrever a História. E de a refazer com aproveitamento de pessoas de hoje e não da memória. Naquela zona, posso dar imensas mostras de demagogia... Por que não se faz demolir o Padrão dos Descobrimentos? Porque é mais pesado? E a Torre de Belém está claramente a pedir que se lhe dê destino, umas persianas modernistas ou futuristas.

E os Jerónimos.
Os Jerónimos, sim, que conheço muito bem, são um manancial de esculturas de baixo-relevo colonialistas, esclavagistas, de conquista - estão cheios de sinais que levariam qualquer espírito cumpridor e zeloso a destruí-los pura e simplesmente ou a cobri-los de betão. E a Cordoaria - onde se faziam cordas para os barcos portugueses - está mesmo a pedir. Toda a região podia apanhar um enorme safanão!

E o Museu das Descobertas...
Esse caso é inacreditável. Foi uma promessa programática e eleitoral do presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, está escrita. E desapareceu, foi abolida. Eu sou favorável há 40 anos de um Museu dos Descobrimentos e defendi-o justamente na Cordoaria, que é uma casa lindíssima e que evoca a atividade marítima portuguesa. Infelizmente, isto veio para ficar. Toda esta conversa em Portugal hoje sobre o racismo, o perdão, a restituição do que os portugueses terão saqueado no mundo. Há este universo de abdicação da História, da sua negação, quando devia haver era um enorme esforço de fazer cada vez mais História e mais rigorosa.
É verdade que durante 100 anos se falava da escravatura como uma vantagem, com orgulho, e é verdade que a escravatura não merece o menor orgulho. Mas aconteceu. Quer-se estudar mais, estude-se: como se fez, quem colaborou, a Igreja, os poderosos, os ricos, os comerciantes internacionais... faça-se História. Mas não se destrua as coisas da História que fazem parte da nossa identidade. Fazê-lo é procurar sociedades feitas de homens e mulheres iguais, de autómatos sem história nem reconhecimento, identidade ou direitos individuais. O triunfo do coletivismo totalitário não pode acontecer.

Leia aqui a segunda parte desta entrevista a António Barreto

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