Tensão UE-Venezuela cai nos braços da presidência portuguesa

Com ordem de expulsão, embaixadora da UE, a portuguesa Isabel Brilhante Pedrosa, deixou Caracas. Santos Silva diz que desfecho contribui para "maior isolamento" do país.

A embaixadora da União Europeia (UE) na Venezuela, a portuguesa Isabel Brilhante Pedrosa, deixou ontem Caracas, depois de ter sido declarada persona non grata pelas autoridades venezuelanas. Um gesto que teve, entretanto, idêntica resposta da UE, que deu também ordem de expulsão à representante venezuelana em Bruxelas. Claudia Salerno não deverá, no entanto, deixar o espaço europeu, dado que é também embaixadora na Bélgica e no Luxemburgo.

Ontem, aos microfones da TSF, e numa altura em que Portugal assume a presidência da União Europeia, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, lamentou a decisão do regime de Nicolas Maduro, garantindo que a "Europa quer ser parceira e não adversária da Venezuela" - um parceiro que "pode contribuir para soluções pacíficas".

Falando no mesmo dia em que presidiu, em Bruxelas, ao primeiro debate sobre a proposta de revisão da política comercial da União Europeia, Augusto Santos Silva defendeu que a decisão venezuelana de expulsar a embaixadora europeia só contribui para um "maior isolamento internacional" do país. "Nós temos todo o interesse em manter relações diplomáticas com a Venezuela, não queremos interferir nos assuntos internos", garantiu. "Agora, a Venezuela vive uma crise humana, social e económica gravíssima, cuja origem está num impasse político que, do nosso ponto de vista, deveria ser ultrapassado como se ultrapassam os impactos políticos em democracias: com eleições em todos possam concorrer e que possam decorrer de forma livre, transparente e justa", acrescentou Santos Silva, em entrevista ao jornalista Fernando Alves.

Esta não é a primeira vez que Isabel Brilhante Pedrosa é declarada persona non grata na Venezuela. Em junho de 2020 a representante da União Europeia já tinha recebido ordem de expulsão, na altura diretamente do presidente Nicolas Maduro. Mas a decisão, tomada na sequência das sanções decretadas pela UE a 11 funcionários do governo de Caracas, acabou por ser revertida. Desta vez o processo começou na Assembleia Nacional, depois de a UE ter estendido as sanções a mais 19 pessoas.

Recorde-se que a UE não reconhece o resultado das legislativas de dezembro de 2020, boicotadas por grande parte da oposição venezuelana e que contou com uma participação eleitoral de 31%. Eleições que devolveram a Assembleia Nacional aos partidos chavistas, depois de as eleições anteriores (em 2015) terem dado a maioria à oposição a Nicolas Maduro.

Um "momento interessante"

Que consequências tem e como se resolve este impasse diplomático? O embaixador Francisco Seixas da Costa sublinha que as relações externas da União Europeia configuram um modelo diferente relativamente às relações diplomáticas entre dois países - e os países da UE, Portugal incluído, "mantém as suas relações normais, ou tão normais quanto possível, com a Venezuela"."É um gesto desagradável para a imagem da União Europeia, localmente, mas é uma tensão de natureza conjuntural e não significa que as relações não se mantenham", diz o embaixador, acrescentando que o "tempo é o melhor conselheiro para este tipo de situações" - aliás, com "muita tradição" nas relações internacionais.

E pode esta tensão, mesmo que conjuntural, contaminar as relações bilaterais com Portugal, que assegura nesta altura a Presidência da União Europeia? E, recorde-se, tem uma numerosa comunidade residente na Venezuela? "Pelo contrário", responde Francisco Seixas da Costa, falando antes no que pode ser um "momento interessante". "Nestas situações tenta-se explorar as portas que ficam abertas" e isso, neste caso, serão os "países que têm uma relação mais próxima ou, pelo menos, que têm um potencial de relação mais próximo", sublinha o diplomata. Para Seixas da Costa, "num momento em que a política externa da UE está num momento de crise com a Venezuela, a circunstância de estar no exercício da presidência um país com uma relação particular com o país... diria que isso dá algum relevo específico à posição portuguesa e até, muito provavelmente, uma capacidade de diálogo maior a Lisboa, que pode ser útil a Bruxelas".

Quem é Isabel Brilhante Pedrosa?

Quem é a diplomata que foi expulsa da Venezuela? Nascida em agosto de 1964, em Leiria, Isabel Brilhante Pedrosa licenciou-se em Direito pela Universidade Católica. Entrou para o Ministério dos Negócios Estrangeiros em 1991, esteve na Direção-Geral dos Assuntos Europeus e, em 1995, foi destacada para a embaixada portuguesa em Maputo. Foi encarregada de negócios na embaixada portuguesa em Tripoli, na Líbia, em 2013/2014 - com o país em clima de guerra civil. E foi depois embaixadora portuguesa na Namíbia, entre 2016 e 2017. Nesse mesmo ano, através do Serviço Europeu de Ação Externa, foi nomeada chefe da delegações diplomática da UE. Seixas da Costa chegou a trabalhar com Isabel Brilhante Pedrosa, guardando da diplomata "muito boa impressão", de "uma pessoa muito preparada" e a memória de uma "benfiquista ferrenha".

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