Sócrates acusa Cavaco de ser "patrono" do atual governo

Em entrevista à RTP, o ex-primeiro-ministro considerou que está na altura de o atual governo parar de escavar o buraco. "Parem com esta loucura", disse José Sócrates, que acusou Cavaco Silva de ter feito parte da oposição.

José Sócrates, que pôs fim a um jejum que se prolongava desde que saiu do governo, em 2011, acusou o presidente da República de falta de parcialidade. "A crise política foi, de certa forma, despoletada pelo senhor presidente da república", acusou, dizendo ainda que não lhe reconhece autoridade moral para dar lições de lealdade institucional.

O antigo primeiro-ministro garantiu que não vai voltar à vida política ativa. "Afastei-me porque achei que era o comportamento mais decente, desejei as maiores felicidades ao governo e remeti-me a um silêncio, que achei que poderia contribuir para que conduzissem política sem constrangimento. Não tenho nenhum plano para regressar à vida política ativa", disse, acrescentando que o comentário político que vai fazer na RTP acontece porque "este é o tempo para tomar a palavra". Realçou ainda que se trata de uma colaboração pro bono.

Nesta entrevista, José Sócrates assumiu alguns erros, nomeadamente ter formado um governo minoritário. "Assumo todas as responsabilidades da minha governação, não aquelas que me querem imputar", disse. "É um embuste que se diga que foi a ação do anterior governo que levou ao pedido de ajuda externa", acrescentou.

Nesta entrevista a palavra "narrativa" terá sido uma das mais utilizadas pelo antigo chefe de governo.

LEIA AQUI A ENTREVISTA AO MINUTO:

22h33 - já a finalizar, José Sócrates quis falar acerca da sua vida privada, para criticar um jornal em particular. Diz que quando saiu do governo cumpriu um sonho antigo: "Achei que era o momento de cumprir um ano sabático, viver no estrangeiro, e estudar e recuperar ligação com a família e os filhos. E foi isso que fiz". "Reparei, ao longo destes dois anos, que um jornal fez uma campanha ignóbil contra mim", afirma, referindo o título "Correio da Manhã" e negando que tivesse uma vida de luxo ou qualquer comportamento de duvidar. "Tenho uma conta bancária há mais de 25 anos, nunca tive ações, off shores ou sequer uma conta a prazo. A primeira coisa que fiz quando saí da vida política foi pedir um empréstimo para ir para Paris".

22h31 - "Um dos problemas deste governo é ter matado qualquer expetativa", defende José Sócrates, lembrando que o criticavam de estar a vender ilusões quando puxava pela confiança e agora estão a fazer o mesmo.

22h29. Questionado se este governo tem condições para governar, responde: "Este governo tem um problema de comando político, de direção política, e tem um desgaste. Não vejo condições para que desenvolva aquilo que é necessário para sair desta situação". Caso o Tribunal Constitucional venha a chumbar o orçamento afirma que "diz tudo de um governo se a sua principal lei for duas vezes inconstitucional. Seria gravíssimo".

22h28. Quanto à nacionalização do BPN acha que agora não se pode discutir o que foi feito. "Na altura, perante a informação que tínhamos, achei que era a melhor solução"

22h26 - "Este governo só tem feito austeridade. Porque é que a dívida pública sobe? A austeridade provocou descida das receitas fiscais", diz, admitindo que cometeu "muitos erros". "O mais visível - e é mais fácil falar dele agora - é que eu nunca deveria ter formado um governo minoritário (...) Se soubesse que ia haver uma crise da dívida soberana, nunca tinha criado um governo minoritário."

22h20 - Questionado se teve crescimento à custa da despesa pública, José Sócrates diz: "Não reconheço isso" e demarca-se de acusações de que teve uma política despesista. Acerca das PPP's e dos 10 mil milhões de euros que alegadamente ficaram por pagar nesta legislatura diz: "Vai aí uma história muito mal contada". "Existem 22 PPP's rodoviárias, lancei oito", lembra. "Os encargos futuros com PPP's que deixei são menores do que aqueles que recebi".

22h12 - "É muito fácil falar da crise", defende José Sócrates, quando questionado acerca dos aumentos na função pública em 2009. "Ninguém adivinhou esta crise", diz, lembrando que a oposição não contestou, nomeadamente Manuela Ferreira Leite, que era líder do PSD. "Entre 2005 e 2008 fizemos uma governação que foi responsável por crescimento económico. Esta conversa de que houve uma década perdida destina-se a esconder aqueles anos em que houve crescimento", defende.

22h08 - Sócrates atira números (da dívida pública ou da despesa pública) ao longo dos anos, para dizer que no seu governo o país não estava numa situação tão difícil. E volta a criticar Paulo Ferreira, dizendo que "os números atrapalham a narrativa" do jornalista.

22h03 - Acerca da estratégia para o futuro, Sócrates defende que "em primeiro lugar, o país tem urgente necessidade de parar com austeridade". Depois, o ex-primeiro-ministro diz que "o governo se meteu num buraco e a ideia que tem para sair é continuar a escavar. Parem de escavar. Não é com mais austeridade que vão conseguir. Parem com esta loucura", diz em tom de apelo. "Será que não conseguimos aprender nada com a experiência?", questiona. "Se continuarmos a cavar não cumprimos", defende.

21h56 - Questionado acerca da imagem que tem do país, diz: "As consequências da crise política estão à vista". "Há outro embuste na narrativa: dizerem que o que estão a aplicar é o memorando assinado pelo anterior governo. É desculpa de mau pagador de quem não quer assumir as suas responsabilidades", defende, dizendo que o atual governo nunca aplicou o memorando inicial, devido às alterações que vêm sendo aplicadas após cada avaliação da troika. "Isso não aconteceu na Irlanda", diz, defendendo que o atual governo mudou o memorando "por sua própria iniciativa". O memorando não tinha o corte do 13.º mês ou do subsídio de férias ou aumento do IVA da restauração para taxa máxima ou aumento brutal de impostos, afirma. O ex-governante acusa depois o jornalista Paulo Ferreira de estar a fazer a defesa do governo. "Quando se muda de forma tão significativa, o memorando nada tem a ver com o anterior", conclui.

21h54 - O ex-governante diz que "tomou consciência da necessidade de pedir ajuda externa num almoço, numa conversa com responsáveis internacionais. Questionado se não teria sido com Mário Soares, Sócrates insurge-se contra os "detalhes". "Reconheci que a minha luta tinha chegado ao fim", lembra.

21h50 - "Olho para trás e digo que lamentavelmente muitas das instituições baixaram os braços enquanto eu continuava a lutar para não pedir ajuda externa", afirma. Sócrates admite que cometeu erros, mas salienta que continuou a lutar para que não houvesse resgate. "Muita gente estava equivocada sobre o pedido de ajuda externa. A oposição fez mais do que chumbar o PEC, dizia que não havia problema em governar com FMI. Eu sabia bem as consequências que isso teria".

21h36 - Quanto às críticas do presidente Cavaco Silva, que o acusou de falta de deslealdade institucional, José Sócrates diz que acha "extraordinário" esse comportamento. E acrescenta: "Não reconheço ao senhor presidente da República autoridade moral para dar lições de lealdade institucional". E acrescenta: "O problema do senhor presidente da república é que sempre usou dois pesos e duas medidas ao tratar com este e o anterior governo". "Na minha altura, achava que havia limites para os sacrifícios", defende, acusando Cavaco Silva de se ter assumido como um opositor ao Governo. "O senhor presidente da república, se queria intervir, promover, evitar uma crise política, teve tempo para o fazer. Mas o senhor presidente da república, não teve interesse nisso. O discurso foi de oposição ao governo, fez de tudo para provocar uma crise política. A crise política foi, de certa forma, despoletada pelo senhor presidente da república", defende. Depois, mostra estranheza por haver pessoas que não percebem porque é que o presidente "não faz nada". "Esteve na origem desta solução política, é um patrono desta nova solução política. Está vinculado a esta solução política, e isso vê-se facilmente na duplicidade de critérios com o anterior e este governo".

21h32 - O ex-primeiro-ministro desmente que não tenha tentado envolver o PSD na resolução do problema (aquando do chumbo do PEC 4, em 2011, que levou ao pedido de ajuda externa). Apresentámos o orçamento e discutimo-lo com o PSD e fizemos exatamente o mesmo com o PEC 4", afirma, defendendo que "o PSD não quis aprovar o PEC 4". "O apoio do BCE, da Comissão Europeia eram fundamentais para o PEC 4 e estavam garantidos", diz. "Assumo as responsabilidades que tenho, os outros que assumam as responsabilidades que têm".

21h26 - "Não aceito que responsabilizem a ação do governo socialista pela crise internacional", diz. "Nega responsabilidades?", perguntam-lhe. "A nossa gestão da crise teve as suas consequências", admite. "Foi a crise que levou à dívida e ao défice. Não o contrário", defende. "Assumo todas as responsabilidades da minha governação, não aquelas que me querem imputar". "É um embuste que se diga que foi a ação do anterior governo que levou ao pedido de ajuda externa", acrescenta.

21h22 - O ex-primeiro-ministro fala daquilo que considera "embustes". Em primeiro lugar, "a ideia que em 2011 os problemas eram resultantes apenas do governo. Espero que os últimos dois anos tenham contribuído para esclarecer isto. Este governo, ao negar que havia essa dimensão da crise internacional e uma crise sistémica em toda a Europa, tem agora grandes dificuldades em explicar os problemas aos portugueses", defende. Pescanova, Embrael, Portucel, Ikea são exemplos que dá do que fez para atrair investimento estrangeiro para Portugal.

21h18 - Sócrates afirma: "A direita nunca foi capaz de combater comigo de forma democrática". E acrescenta: "A direita acha que não tenho direito à palavra e que me comporto de forma desajustada quando aceito um convite da RTP". Depois, nega as insinuações de que se teria feito de convidado junto da TV pública e realçou que se trata de uma colaboração pro bono, informação imediatamente confirmada pelo diretor da RTP, Paulo Ferreira, que o entrevista.

21h15 - "Faço isto por mim próprio porque não estou bem comigo próprio remetendo-me ao silêncio e sendo alvo de críticas", disse, desresponsabilizando o PS da missão de o defender. "Compreendo a atitude do PS. Entrou num novo ciclo, elegeu um novo líder", afirmou. "O que é normal é que os líderes olhem para o futuro. O PS tentou encontrar as respostas que foram dadas aos problemas dos portugueses. Essa atitude, que acho nobre, deixou que a narrativa dos meus adversários estivesse sozinha em campo".

21h13 - Sócrates diz-se "perplexo" por ver críticas por fazer comentário político vindas de políticos "que há uns anos estavam contra a asfixia democrática" e lembra que existem atualmente quatro ex-líderes do PSD com programas na TV.

20h10 - "Não tenho nenhum plano para regressar à vida política ativa. Afastei-me porque achei que era o comportamento mais decente, desejei as maiores felicidades ao governo e remeti-me a um silêncio, que achei que poderia contribuir para que conduzissem a sua política sem constrangimento. Não tenho nenhum plano para regressar à vida política ativa".

21h07 - Inicia-se a entrevista. Sócrates diz que regressa à vida política com comentário político porque "este é o tempo para tomar a palavra". Por duas razões: "Já lá vão dois anos desde a crise política de 2011, havendo elementos para fazer análise mais distanciada. Por outro lado, era o momento de falar porque não aceito ser confrontado com todas as acusações dos adversários. Era uma narrativa sem contraditório. Chegou a hora de dar o meu ponto de vista"

20h55 - O ex-primeiro-ministro José Sócrates entra no estúdio, onde será entrevistado por Vítor Gonçalves e Paulo Ferreira, diretor de Informação da RTP. Curiosamente, o ex-primeiro-ministro processou o jornalista, em abril de 2009, quando este ainda estava no jornal "Público".

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