Soares dos Santos fala "com rei na barriga", diz PCP

O secretário-geral do PCP considerou hoje a entrevista do empresário Soares dos Santos ilustrativa do desejo do "capital" de "recuperar as parcelas de domínio" perdidas na Constituição pós Revolução e de conseguir uma aliança PSD/PS.

Num discurso proferido no final do almoço de Natal organizado, no parque de campismo do Entroncamento, pela direção regional de Santarém do PCP, Jerónimo de Sousa insurgiu-se contra a intenção do Governo de aprovar uma proposta de lei que visa "facilitar os despedimentos de forma inconstitucional", considerando a entrevista concedida hoje pelo ex-presidente do conselho de administração da Jerónimo Martins ilustrativa das intenções do "capital" em relação à Constituição.

O Diário de Notícias publica hoje uma entrevista a Alexandre Soares dos Santos, onde este diz que não se cala "enquanto não vir um acordo entre o PS e o PSD a dez anos".

"Tem um mérito a entrevista de hoje do segundo senhor mais rico de Portugal, que, arrotando milhões de euros, falando com o rei na barriga, vem dizer que é preciso é que o Estado deixe de se meter onde não deve", afirmou o líder comunista, realçando que foi esse mesmo Estado que "deu ajudas preciosas" à Jerónimo Martins, graças às políticas que favoreceram lucros à grande distribuição "assentes na ruína de milhares de pequenos comerciantes".

Referindo ainda os "lucros fabulosos" que resultaram da privatização da Galp, "empresa que sempre deu lucro e que foi entregue pelo Estado ao senhor Soares dos Santos", Jerónimo de Sousa lamentou que quem pôs o dinheiro "ao fresco na Holanda" venha agora, "com ar patriota, dizer que o Estado tem que se retirar de tudo".

O líder comunista considerou que "o mérito da entrevista" foi mostrar que Soares dos Santos "não vai desistir enquanto não vir PS e PSD fazerem um acordo por dez anos".

Sublinhando que a alternância governativa em que o país tem vivido, em que "ora governa o PS ora governa o PSD", está hoje "queimada perante o povo", Jerónimo de Sousa afirmou que a ideia de "juntar os dois" só não vingou ainda "porque cada um defende os seus interesses partidários".

O secretário-geral do PCP acusou o PS de estar numa posição de "quanto pior melhor" ao defender que o atual executivo governe até 2015 à espera que o "poder lhe caia no regaço".

"Cá estaremos para ver", afirmou, reafirmando a determinação do PCP de fazer "toda a luta possível para derrotar o Governo" e conseguir a convocação de eleições antecipadas.

Jerónimo de Sousa colocou entre as medidas que se inserem no ataque à Constituição, as que visam facilitar os despedimentos e liquidar a contratação coletiva.

Para o líder comunista, as reações que se seguiram à declaração, durante a última visita da 'troika', de que o FMI defende um abaixamento dos salários no setor privado escondem a intenção de simplificar os despedimentos, transformando o patrão em "juiz em causa própria".

"E se conseguissem o alargamento dos conceitos para despedimentos conseguiriam impor baixos salários e conseguiriam, caso o direito da contratação coletiva seja liquidado, recuperar facilmente o que parece ser uma vitória, a de que o Governo está contra o corte dos salários", afirmou.

Jerónimo de Sousa prometeu um dezembro de "muitas lutas", porque "os problemas são muitos e as ameaças são reais", num partido que "está a crescer" e que resiste a "projetos sinistros de retrocesso civilizacional", que têm a ver com a independência e soberania de Portugal.

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