Rui Rio: "O PSD não é um partido de direita"

Líder do PSD fechou convenção do MEL reafirmando o posicionamento do partido ao centro e a disponibilidade para compromissos com o PS em matérias estruturais.

A primeira palavra foi um "cumprimento muito especial a Pedro Passos Coelho", à segunda Rui Rio fez questão de deixar claro que não estava ali a sua família política. "Não dizia ali congresso das direitas, porque se dissesse não poderia entrar, teria provavelmente sido barrado logo à entrada", afirmou o líder social-democrata, antes de reafirmar que o PSD "não é um partido de direita". É certo que a frase não é uma novidade no discurso do líder do maior partido da oposição, mas Rio fez questão de a reafirmar logo no início da intervenção que ontem encerrou a Convenção do Movimento Europa e Liberdade (MEL). Dois dias de trabalhos em que o próprio Rio foi particularmente visado por críticas, acusado de centrismo e proximidade ao PS.

Ontem, Rio não se limitou a dizer que o PSD não é de direita. Fez questão de recordar que "quando nasceu, em 1974, não só era de centro, como era marcadamente de centro-esquerda" e, em abono desta afirmação, até citou o fundador Francisco Pinto Balsemão. "Se isto fosse o congresso das direitas eu não conseguia entrar", reforçou ainda, dizendo estar numa "conferência marcadamente mais à direita" do que o seu próprio partido.

Esclarecida a posição centrista do PSD, Rio disse estar na Convenção do MEL para responder à pergunta "que caminho Portugal deve seguir". E se a primeira abordagem foi económica - apontando o "brutal endividamento externo" e "brutal endividamento público" como os principais estrangulamentos da economia portuguesa - rapidamente o líder social-democrata voltou a entrar em colisão com o que se ouviu nos dois dias de trabalho da Convenção do MEL. Rio defendeu "acordos políticos alargados" - logo, envolvendo PSD e PS - em matérias como a reforma da Segurança Social, uma política de natalidade sustentada ou uma política de valorização do interior. E lembrou que sempre se disponibilizou para compromissos que ponham no terreno as reformas estruturais de que o país precisa - uma disponibilidade que o PS não aproveita.

Rui Rio tem uma explicação para isso. "O PS não quer reformar nada, é a corporização do sistema", apontou o presidente social-democrata, numa frase que provocou burburinho na sala, como quem pergunta porque insiste Rio nos compromissos com os socialistas. O próprio acabaria por dar essa resposta - "O PS e o secretário-geral do PS não aproveitam esta oportunidade para rasgar novos horizontes ao país", mas "é nossa obrigação tudo fazer" para avançar nessas reformas.

Pelo caminho Rio voltou a apontar baterias à justiça, referindo que o "sistema de justiça está pior do que há 30 anos" e que se "o sistema não está capaz de se autorreformar, e já provou que não está", então devem ser os políticos a fazê-lo.

Paulo Portas também esteve ontem na convenção, apontando a "gritaria" que corrói a democracia. "A democracia está, em certo sentido, transformada numa gritaria, onde não há nem longo prazo nem passado, é tudo um instante. Uma indignação e uma emoção, apenas a última antes da próxima", afirmou o antigo líder centrista, que abriu o segundo dia de trabalhos da convenção. Na intervenção, de cerca de 40 minutos, Portas salientou que desta forma será difícil "garantir condições de bom governo".

"Hoje em dia governa-se para os likes [gostos], não se governa para o sentido comum e para o interesse geral. Hoje em dia governa-se dependente da gritaria nas redes, isso prejudica a capacidade de convivência de uma democracia e perverte o essencial da convicção democrática", criticou o antigo governante, apontando que este "é essencialmente um fenómeno americano e um fenómeno europeu". Para Portas, "as organizações das vanguardas nas redes sociais no plano estritamente político, levam ao triunfo das opções mais extremas e à rarefação da moderação, porque ninguém tem likes por ser moderado e ninguém é aplaudido por procurar um compromisso"."Eu não sei onde é que isto nos levará, mas certamente não à democracia representativa como nós a conhecemos", alertou.

André Ventura aproveitou o palco para criticar Rui Rio, a quem acusou de não ter "conseguido fazer o seu papel de oposição à direita".

Com Passos a assistir à intervenção (saiu apressadamente mal terminou), André Ventura desvalorizou a polémica se a direita clássica deve ou não falar com a "nova direita", considerando que tal será inevitável. "Rui Rio não tem conseguido fazer o seu papel de oposição à direita e não haverá possibilidade nenhuma de governos à direita sem o Chega", disse. Para Ventura "a culpa de a direita não estar no poder é da direita".

Quanto ao outro lado do espetro político, o líder do Chega disse que "à esquerda mais hipócrita da Europa não se dá bombons, dá-se pancada política".

Com Lusa

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