Rio promete reformismo na continuidade: "Não vamos fazer nenhuma revolução"

Relegitimado e com mais força interna que nunca, Rui Rio encerrou o 39.º Congresso do PSD falando ao país - e já num claro tom de campanha eleitoral. Num discurso sem novidades, tranquilizou quem não quer nem pede ruturas.

Rui Rio encerrou este domingo, no Europarque, em Santa Maria da Feira, o 39.º Congresso Nacional do PSD, prometendo que, na governação, evitará seguir aquela que foi uma das principais marcas de António Costa e da geringonça: a de tomar conta do poder para virar do avesso as medidas tomadas pela anterior governação.

O presidente reeleito do PSD prometeu, na verdade, uma espécie de reformismo na continuidade. A ideia sintetizou-se numa frase chave: "Não vamos, por isso, fazer nenhuma revolução nem vamos destruir tudo o que os outros fizeram. Queremos apenas, de forma sensata, mas corajosa e realista, desenvolver o nosso país e voltar a trazer a esperança aos portugueses."

"Defendo que sempre que o entendimento é possível, ele é, obviamente, preferível à discórdia e à mera tática partidária de curto prazo."

Traduziu-se, também, na ideia de que o diálogo do PSD com os outros partidos - com o PS à cabeça, claro - é algo a permanentemente valorizar como prioritário: "Como tenho vindo a dizer, encaro como muito relevante, senão mesmo como decisivo para o futuro de Portugal, o diálogo entre partidos políticos." E isto por oposição a uma "a visão clubística que trata adversários políticos quase como inimigos", porque se "existimos todos para servir Portugal, apenas nos distinguimos na forma de o fazer". "Defendo que sempre que o entendimento é possível, ele é, obviamente, preferível à discórdia e à mera tática partidária de curto prazo", insistiu, considerando ainda que "inventar diferenças para lá das que realmente existem é um exercício inútil para quem coloca os interesses do país à frente dos do seu próprio partido".

E se o diálogo interpartidário é prioritário, também o é o diálogo social, com o qual se comprometeu, afirmando-o de "máximo relevo": "Ser-se social-democrata é também fomentar o diálogo entre as diversas forças sociais, procurando, sempre que possível, a via do consenso na construção de um país mais justo e mais desenvolvido."

Ora à esquerda ora à direita

Professores, SNS, TAP, apoios sociais, autoridade do Estado. No tal movimento umas vezes para a esquerda e outras para a direita que já tinha prometido no discurso com que abriu o conclave laranja, foram estes os principais temas de governação na intervenção final de Rui Rio.

Quanto aos professores, por exemplo, falou à esquerda, prometendo-lhes uma "atenção especial" de um futuro governo PSD, porque "não é compreensível que a uma profissão tão decisiva para a formação das novas gerações, ou seja, para o futuro do país, não sejam conferidas a dignidade e as condições de trabalho que merece".

"Não é racional manter apoios sociais a quem os usa para se furtar ao trabalho."

Ressalvou, no entanto, neste aspeto, que "considerá-los todos [os professores] como iguais é, neste como em todos os demais setores da nossa sociedade, não só desvalorizar o mérito e a competência, como ignorar um elemento absolutamente decisivo para o sucesso, que é o brio profissional". E deixou bem claro que a prioridade será dada à educação para a infância, quase só faltando prometer creches gratuitas para todos, como por exemplo o PCP tem exigido: "Temos de lançar bem cedo os pilares do futuro; desde o berço ao jardim-escola, da creche ao pré-escolar. É necessário um aumento da oferta, especialmente nas áreas metropolitanas, bem como um claro apoio às famílias, de forma a proporcionar a todas as crianças as melhores oportunidades."

Mas se na questão dos professores falou à esquerda, já na dos apoios sociais encostou-se à direita, defendendo ideias muito próximas daquelas que têm sido bandeira do Chega (e os representantes do PS presentes na sessão final do congresso salientaram isso mesmo), prometendo uma limpeza para quem só deles beneficia para não ter de trabalhar. "Não é aceitável um país com a sua classe média sufocada em impostos e em que o seu salário de referência pouco se distingue do mínimo em vigor. Assim como também não é racional manter apoios sociais a quem os usa para se furtar ao trabalho e, dessa forma, condicionar a própria expansão empresarial que, cada vez mais, se lamenta da falta de mão-de-obra disponível.

"Sem rigor, sem respeito pela lei e sem disciplina não há democracia; há sim uma via para a anarquia."

Também na questão da autoridade do Estado, associando-as às da segurança interna, falou à direita, dizendo que "a democracia não pode ser símbolo de facilitismo, e muito menos é ela incompatível com estes valores estruturantes da nossa sociedade". Isto é: "Sem rigor, sem respeito pela lei e sem disciplina não há democracia; há sim uma via para a anarquia."

Quanto ao SNS, prometeu que o PSD não vai "deixá-lo à sua sorte" e voltou, mais uma vez, a criticar a dissociação promovida pela "esquerda radical" entre Estado e privados; "Falta planeamento, os hospitais têm fraca autonomia, o governo destruiu as parcerias público-privadas - mesmo as que se revelavam vantajosas - e o serviço público é cada vez menos atrativo para os profissionais de saúde".

Já sobre a TAP expôs as suas críticas de sempre - mas sem garantir nenhuma solução sua alternativa, antes enfatizando que a situação atual aponta para um beco sem saída: "É má a solução de fechar a TAP, depois das avultadas verbas que lá foram enterradas. É má a solução de a manter, porque ainda falta lá meter muito mais dinheiro. E será má a situação do nosso país, se a Comissão Europeia vier a reprovar o plano do governo."

Maioria relativa no CN

A eleição do Conselho Nacional (CN) do PSD - o "parlamento" do partido, escolhido por método proporcional - revelou, mais uma vez, que Rio não tem a maioria absoluta dos eleitos, mas conta, ao mesmo tempo, com uma oposição fragmentada em várias listas (e a isto tudo soma-se uma multidão de inerentes, que não têm obrigatoriamente vinculação a qualquer uma das fações constituídas).

A lista de Rui Rio e outras três que lhe foram afetas somaram 33 eleitos (num total de 70). Já nos dirigentes assumidamente da oposição interna, Miguel Pinto Luz revelou-se o mais forte. Tendo sido, na verdade, a única das principais figuras da oposição interna que, no palanque, não recuou nas críticas a Rio (ao contrário do que fizeram Rangel, Moedas ou Luís Montenegro), Pinto Luz encabeçou a segunda lista mais votada, com 14 eleitos (mais três do que a lista afeta a Montenegro). Não faltaram, como habitualmente, listas concorrentes: onze, ao todo.

joao.p.henriques@dn.pt

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