Rio e Rangel mantêm jogo fechado. O tempo é de contar espingardas

Conselho Nacional do partido vai reunir na quinta-feira da próxima semana para marcar datas das diretas e do congresso. Oposição interna recusa calendários apressados

Rui Rio esteve quarta-feira reunido durante cerca de seis horas reunido com os estruturas distritais e regionais do partido e no fim ninguém ficou a a perceber se será ou não recandidato à liderança.

Segundo participantes na reunião, a reunião prolongou-se por várias horas porque todos os participantes intervieram, num longo diagnóstico distrito a distrito, e das duas regiões autónomas, sobre os resultados autárquicos: apostas ganhas, apostas perdidas, contas gerais aos ganhos do partido.

O PSD acabou as autárquicas mantendo-se como a segunda maior força autárquica, como já era em 2017, mas agora com 113 presidências de câmara (em 2017 tinha tido 98). A diferença para os socialista é agora de 35 presidências, quando há quatro anos era de 60. E registaram-se avanços importantes a ter em conta nas próximas legislativas, nomeadamente no voto urbano, como o provou a inesperada vitória de Carlos Moedas em Lisboa.

Enganou-se redondamente na reunião das distritais com Rio quem estivesse à espera de ver o líder do partido dar pistas sobre o seu futuro no partido. Rio continua sem revelar se será recandidato ou não. Um seu vice-presidente, David Justino, já disse que não espera outra coisa que não a recandidatura. Contudo, um outro vice, Nuno Morais Sarmento, avançou precisamente o contrário. "Não tenho por certa a recandidatura de Rui Rio", disse, há dias, num programa na SIC. "Rui Rio, ao contrário da contabilidade que normalmente se faz de ganhos e perdas, está a esta hora a pensar se tem utilidade para o país o seu exercício nestes dois anos", acrescentou.

Na reunião de quarta-feira, o presidente do PSD continuou sem dar sinais nenhuns, nem para um lado nem para o outro. Aparentemente, a direção conta já como certa com a candidatura de Paulo Rangel, quer Rio avance quer não avance. Foi o mesmo David Justino quem o disse há dias: "Não vale a pena a gente estar aqui com meias-tintas. Paulo Rangel é candidato há muito tempo."

A candidatura do eurodeputado - que, como Rio, se mantém também em estado de tabu - já é dada como certa por muitos dos principais dirigentes da oposição interna. Ela conquistou um importante incentivo quando se soube que terá o apoio de Luís Montenegro e de Miguel Pinto Luz, os dois adversários que Rio venceu nas diretas de janeiro de 2020 (e nessa altura o presidente do partido ainda contava com o apoio de Rangel).

Na primeira volta dessas eleições, Rio obteve 49% dos votos. Uma percentagem porém inferior à que resultou da soma entre a obtida pelo segundo classificado, Luís Montenegro (41,42%) e pelo terceiro classificado, Miguel Pinto Luz (9,55%). Rio e Montenegro passaram então à segunda volta e Rio venceu com 53% contra 47%.

Tendo portanto em conta os resultados dessa primeira volta, Rangel estará neste momento em vantagem, sendo que, além do mais, terá já conquistado os seus próprios votos, alguns deles conquistados no "eleitorado" interno do presidente do PSD, nomeadamente na importante distrital do Porto (são ambos de lá).

O próximo momento definidor do "estado da arte" em termos de contagem de espingardas será a reunião do Conselho Nacional marcada para quinta-feira da próxima semana, dia 14. Antecipa-se uma reunião à antiga, quente e disputada. Na agenda está a marcação da datas para as eleições diretas e, semanas depois, do congresso.

A direção do partido não tem aberto o jogo quanto a datas. Fala em dezembro ou janeiro. Mas para a oposição interna, uma marcação de datas já a mata cavalos significará que Rio conta a seu favor com um partido atualmente muito anémico nos níveis de militância ativa (ou seja, com baixo número de militantes com quotas pagas, sendo esses exclusivamente os que têm direito a votar).

Fazer as listas de deputados

Caso Rio se recandidate, antecipa-se portanto um processo eleitoral interno com o partido totalmente bipolarizado entre o presidente e Rangel. O debate tenderá até a tornar-se feio porque nestas alturas, quando combate para dentro, Rio não hesita em usar todo o tipo de argumentos.

Outro facto marcará a disputa. Estas serão as últimas diretas no PSD antes das próximas eleições legislativas. Dito de outra forma: serão a próxima direção e o próximo líder a conduzir o processo de elaboração das listas de candidatos a deputados. As ofertas que cada dirigente receber neste capítulo de uma ou da outra parte tenderão a ser decisivas na opção de voto.

joao.p.henriques@dn.pt

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