Rio e Rangel a jogarem os trunfos para se posicionarem como candidatos a primeiro-ministro

A campanha dos dois candidatos à liderança do PSD já começou. Rui Rio ainda não esteve no terreno desde o Conselho Nacional que ditou novas datas para as diretas e congresso. Mas Paulo Rangel anda pela Madeira e já a defender propostas concretas para as regiões.

As eleições no PSD vão decorrer num tempo excecional para os dois candidatos já anunciados, Rui Rio e Paulo Rangel. Um deles será eleito presidente do partido a dois meses, sem tirar nem pôr, das eleições legislativas antecipadas. E é neste cenário que arrancam para a campanha interna. Cada um deles a falar para os sociais-democratas, mas já a jogar os trunfos que os posicionem aos olhos dos militantes como candidatos a primeiro-ministro. O que se sair melhor nesta empreitada, ganhará as diretas de 27 de dezembro.

"Há uma perceção muito clara da diferença que é eleger um candidato a liderar a oposição e do que é eleger um candidato a primeiro-ministro", afirma ao DN um dirigente social-democrata. Este admite que o perfil de Rui Rio e de Paulo Rangel é tão diferente - o primeiro mais pragmático e virado para a gestão, o segundo mais tribuno e mais retórico -, que os militantes vão ter de os interpretar. "No que diz respeito à estratégia política alternativa ao governo, depois de eleito o líder, não há muitas alternativas no curto espaço de tempo que medeia até à legislativas", argumenta a mesma fonte.

Do Conselho Nacional, que ditou as novas datas das eleições diretas para 27 de novembro e o congresso de 17 a 19 de dezembro, seria suposto que os dois candidatos à liderança aproveitassem ao minutos as três escassas semanas para convencerem as bases de que têm essas tais qualidades que os podem levar a conquistar o poder aos socialistas e a António Costa.

Mas ontem não havia nota de que Rui Rio já estivesse na estrada, nem foi possível saber qual a sua agenda de campanha interna.

Alguns dos seus apoiantes dizem que tem a vantagem de ter andado mês e meio em campanha por todas as estruturas do PSD a propósito das eleições autárquicas, que deram ao partido um resultado melhor do que o esperado pelos seus opositores.

E argumentam que o recandidato à liderança tem o "conhecimento dos dossiers" e propostas concretas para fazer ao partido e ao país, com grande ênfase para a parte económica e os grandes temas que têm preenchido a agenda mediática, como a TAP ou o Novo Banco. "É provável que nos debates entre Rui Rio e Paulo Rangel isso se venha a perceber, que o presidente do partido tem um conhecimento mais sólido sobre os problemas do país".

Um dos trunfos que Rui Rio tem para apresentar também é precisamente a melhoria de votação do partido - uma inversão de tendência, como lhe chamou - nas eleições autárquicas e que permitiu recuperar câmaras como a de Lisboa, Coimbra e Portalegre.

Agenda virada para o país

A verdade é que Paulo Rangel não perdeu tempo desde que assumiu oficialmente que ia entrar na corrida à liderança. Depois de apresentar a candidatura em Lisboa, esteve na Bolsa do Porto, numa ação que juntou dirigentes partidários, militantes e simpatizantes, cerca de 600. Já rumou a Évora e a Sernancelhe, em Viseu. Ontem esteve na Madeira, na quinta-feira andará por Coimbra e no sábado estará em Portalegre. "São ações com militantes, mas a agenda será toda virada também para o problema do país", garante ao DN um fonte da sua candidatura.

A mesma fonte dá o exemplo do encontro em Évora com militantes. "Não houve uma pergunta sobre o partido, os militantes querem saber da resposta aos problemas reais que os afetam".

E a prova que está a adequar o discurso aos locais escolhidos para a campanha é a sua visita de ontem à Madeira. Na região autónoma - em que tem o antigo e influente líder regional Alberto João Jardim a fazer contravapor, já que apoia Rui Rio - foi defender o que os madeirenses gostam de ouvir. No caso, que a Lei das Finanças Regionais devia ser "mais flexível" e contemplar "um pouco mais de espaço de respiração fiscal para as autonomias".

"Se há matéria na qual nós podemos fazer alguma evolução progressiva das autonomias, e isto vale tanto para a Madeira como para os Açores, é na matéria fiscal", afirmou Paulo Rangel. Para o eurodeputado, "há matérias nas quais não é muito fácil esticar as competências, mas há outras nas quais é possível ser muito mais flexível".

"E eu acho que uma das formas que nós temos justamente para falar numa autonomia progressiva é vir a Lei das Finanças Regionais a contemplar um pouco mais de espaço de respiração fiscal para as autonomias", considerou.

O candidato à liderança dos sociais-democratas falava aos jornalistas após uma reunião com o presidente do Governo Regional (coligação PSD/CDS-PP), Miguel Albuquerque, na sua residência oficial.

Paulo Rangel destacou alguns dos pontos abordados no encontro com o chefe do executivo regional, entre os quais problemas relacionados com a TAP e com os fundos europeus. Na questão da TAP, o social-democrata salientou que o "Estado português está a gastar só com a TAP mais do que gastou no apoio a todas as empresas durante a pandemia".

Questionado sobre se privatizaria de novo a companhia caso seja primeiro-ministro, Rangel não quis responder diretamente, mas garantiu: "Não teria cometido o erro que cometeu este Governo, primeiro revertendo a privatização e depois no próprio plano de recuperação".

"Porque, neste momento, até agora nós já metemos mais de três mil e duzentos milhões de euros na TAP e os resultados são estes. Porto Santo não tem ligações, as ligações entre Funchal e Lisboa são caríssimas, as ligações com outras cidades do país praticamente nem existem também", sustentou.

Também sobre a questão do ferry entre a Madeira e o continente, o candidato à liderança do PSD criticou o Governo por não garantir o regresso da ligação, mas escusou-se a assumir um compromisso caso seja eleito.

"Nós estamos a ver sistematicamente falhas de compromissos que já foram assumidos, nós não estamos a falar agora daquilo que se pretende para o futuro", afirmou.

Paulo Rangel realçou "outra questão muito importante que é a questão dos fundos europeus, onde a Madeira tem sido bastante prejudicada".

Apontando que as verbas previstas para a Madeira no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) ficaram "claramente atrás daquilo que seria expectável para as regiões ultraperiféricas", o eurodeputado defendeu que os fundos de coesão poderiam corrigir esses "défices" e criticou o facto de não existir "nada feito sobre essa matéria".

O candidato à liderança do PSD sublinhou ainda os custos que a Madeira tem com a PSP e com as Forças Armadas, "funções que não competem à região".

"Ou aumentamos os meios e, portanto, as transferências são transferências [do Estado] que cobrem este tipo de custos ou então damos maior amplitude à autonomia, designadamente na área fiscal", defendeu.

No final da reunião, Albuquerque insistiu que não apoia, enquanto líder do partido na região, nenhum candidato, para "evitar a fragmentação e divisão interna dentro do PSD/Madeira)". Questionado sobre se ficou satisfeito com as propostas de Paulo Rangel, o presidente do Governo Regional respondeu que "qualquer pessoa que quer governar Portugal tem a clarividência e o bom senso de perceber que são questões de justiça e questões elementares".

P&R

Radiografia das diretas

Os militantes do PSD podem regularizar as quotas até dia 17 de novembro e só esses podem votar nos candidatos à liderança.

Além do óbvio, ser militante do partido, quem quiser disputar a liderança do PSD tem de recolher 1500 assinaturas de militantes do PSD. No último Conselho Nacional ainda foi alvitrada a hipótese por parte de Rui Rio de baixar essa fasquia para as 500 assinaturas, o que permitiria mais facilmente que surgissem outros candidatos, como o terceiro que é falado, Nuno Miguel Henriques, ex-candidato do PSD à Câmara de Alenquer. A proposta não chegou a ser votada. Os candidatos à liderança têm de entregar as assinaturas até dia 22 de novembro, cinco dias antes da ida às urnas.

Desde quando é que se realizam diretas no partido?

Quem instituiu as eleições diretas no PSD foi Marques Mendes, então líder do partido. As primeiras eleições internas com o voto de todos os militantes com quotas em dia foi a 5 de maio de 2006, nas quais Mendes foi reeleito com 91% dos votos. Antes, os presidentes do partido eram eleitos em congresso, o que tornava as reuniões magnas do PSD muito vivas e emocionantes.

Quando são realizadas as eleições e onde é que se pode votar?

Estas eleições diretas estiveram marcadas numa primeira fase para 4 de dezembro, dia em que se assinala a morte de Francisco Sá Carneiro. A crise política e a dissolução do Parlamento aceleraram o calendário político e no Conselho Nacional de sábado do PSD, em Aveiro, foi aprovada nova data, 27 de novembro. Os militantes podem votar nas estruturas locais do partido, nas concelhias.

Quem pode votar nas diretas?

Só podem votar os militantes com quotas em dia. Rui Rio ainda tentou que fosse dada aos que não pagaram as contribuições para o PSD até há dois anos, mas a proposta foi chumbada em Conselho Nacional.

Quando é que fecham os cadernos eleitorais?

Os militantes têm até dia 17 de novembro para regularizar as quotas no partido. Só nessa altura se saberá qual será o universo eleitoral das diretas. Rui Rio alterou o processo de pagamento das contribuições para o partido, eliminado, por exemplo, as transferências bancárias, que permitiam pagar por "atacado" as quotas de vários militantes. Passou apenas a ser permitido o pagamento por multibanco ou cheque do próprio.

Quem é que organiza e fiscaliza o processo eleitoral no partido?

O processo eleitoral das diretas é organizado pela Secretaria Geral do partido, neste momento liderada por José Silvano, e pela Mesa do Congresso, que é presidida por Paulo Mota Pinto. No dia da eleição, as mesas nas concelhias têm, à semelhança do que acontece nas eleições no país, representantes das candidaturas para controlar os votos em urna. Ao Conselho de Jurisdição Nacional, que é presidido por Paulo Colaço, caberá fiscalizar as impugnações, se existirem.

Porque é que se tem de esperar pelo congresso para ser formalizada a eleição do líder?

Apesar dos congressos já não serem eletivos, são o momento mais alto da vida do partido. Isto porque é nesta reunião magna que o líder é legitimado e onde são eleitos todos os órgãos nacionais do PSD. No congresso agora marcado para 17,18 e 19 de dezembro, em Lisboa, vão ser eleitos pelos 750 delegados o Conselho Nacional, a Comissão Política Nacional, a Comissão Permanente Nacional, o Conselho de Jurisdição Nacional, e a Comissão Nacional de Auditoria Financeira.

Quem são as direções de campanhas dos candidatos?

Nestas diretas, os candidatos no terreno já escolheram as suas equipas. Rui Rio escolheu Salvador Malheiro, vice-presidente do partido e líder da distrital de Aveiro, como diretor de campanha. Mas nesta estrutura conta ainda com Vítor Moreira, da secção do PSD de Vila Nova de Famalicão, o deputado Hugo Carvalho e João Montenegro, que foi assessor de Pedro Passos Coelho. Já Paulo Rangel colocou no comando da sua campanha Pedro Esteves, que é seu assessor em Bruxelas, o deputado Emídio Guerreiro, o ex-presidente do PSD/Setúbal Bruno Vitorino e o líder do PSD/Coimbra, Paulo Leitão.

Quem são os principais apoiantes já conhecidos de Rio e Rangel?

Paulo Rangel anunciou, entre outros, os apoios de seis líderes de distritais: Pedro Alves (Viseu), João Moura (Santarém) e Luís Santos (Castelo Branco) juntam-se a Alberto Machado (Porto), Paulo Leitão (Coimbra) e Gonçalo Henrique (Beja). E de vários presidentes de câmara como Bragança, Santa Maria da Feira, Vila Nova de Famalicão, Esposende e Póvoa de Varzim. Rui Rio conta com o apoio de Alberto João Jardim, o antigo líder do PSD/Madeira, e dos presidentes das distritais do PSD de Viana do Castelo, Bragança e Vila Real, além de contar com a dos dirigentes nacionais do partido.

Ambos disputaram eleições internas. Quando e com que resultado?

Esta já é a terceira eleição direta a que Rui Rio se sujeita. Nas primeiras diretas, em 2018, conseguiu 54,3% dos votos e derrotou Pedro Santana Lopes. Em 2020, num segunda volta contra Luís Montenegro consegue ser reeleito com 53% dos votos. Já para Paulo Rangel esta é a segunda vez que se sujeita ao veredicto dos militantes, a primeira foi em 2010, em que conseguiu 34,4% dos votos, e em que foi derrotado por Pedro Passos Coelho.

O líder eleito fica mandatado por quanto tempo?

O mandato do líder é sempre de dois anos. P.S.

paulasa@dn.pt

Mais Notícias

Outras Notícias GMG