Rio acredita que ganhará câmaras emblemáticas mas espera desafio de Rangel

Líder do PSD sinalizou que com um resultado fraquinho não se recandidata à liderança, mas quem o apoia diz que a expectativa é conquistar algumas câmaras emblemáticas e ir até 2023. E mesmo assim acham que Rangel avança.

"Quem está a dar a volta ao país e a tentar potenciar o resultado do PSD como está, é tudo menos quem vai abandonar o barco ou atirar com a toalha ao chão". Estas palavras são de um dirigente do PSD próximo de Rui Rio e espelham já a análise sobre a fasquia que o líder do partido estabeleceu para as eleições autárquicas do próximo domingo de forma a recandidatar-se à liderança. Ou seja, mesmo depois de sinalizar que pode sair, a interpretação é que Rio tudo faz para ficar e que, neste momento, está convencido que é possível obter um resultado no próximo sábado capaz de o levar até às legislativas de 2023.

Em entrevista à Rádio Renascença, Rio estabeleceu a métrica que o fará não se recandidatar à presidência social-democrata em janeiro, altura de novas diretas. "É fazer igual ou pior ou muito pouquinho melhor", disse em comparação com o resultado obtido em 2017.

Nas últimas eleições autárquicas, o PSD ficou a 61 câmaras do PS - obteve 91 (algumas em coligação com o CDS) e o PS conseguiu 159.

"Se a diferença entre o zero e o 1 for praticamente nenhuma, se o resultado de 2021 for idêntico ao de 2017 que eu disse que foi mau, o que é que vou fazer? Dada a importância que atribuo às eleições autárquicas de 2021 para a implantação do partido e para uma nova dinâmica no que concerne à oposição nacional, tenho de exigir a mim mesmo ser coerente. E ser coerente é dizer que se 2017 foi mau, se fizer igual, fiz mal", disse o líder do PSD.

Ora, entre os seus opositores, mas também nos mais próximos as contas começaram a ser feitas. No núcleo duro de Rio há a convicção que está ao alcance conquistar "câmaras emblemáticas", como Portalegre, Coimbra, Funchal e Viana do Castelo e "juntar mais umas 10" a nível nacional, entre as quais Aguiar da Beira, Meda e Figueira de Castelo Rodrigo, no distrito da Guarda, algumas nos Açores (onde o governo é agora de coligação e liderado pelo PSD). "Se tudo correr bem podemos, no final, conseguir mais 20 câmaras", afirma em tom prospetivo uma fonte próxima de Rio.

Em 2017, o PSD afundou-se nos centros urbanos, em particular em Lisboa, com a candidatura de Teresa Leal Coelho, que conseguiu pouco mais de 11% contra os quase 21% de Assunção Cristas, que foi cabeça de lista pelo CDS.

Agora com a candidatura de Carlos Moedas, em coligação com o CDS/MPT/PPM e Aliança, Rio aposta num resultado superior contra Fernando Medina. "Está taco a taco com Fernando Medina e pode haver uma concentração de votos no Carlos Moedas porque é mesmo a única alternativa", assegurou na entrevista à RR.

"Na noite eleitoral, vai ver que vai haver grandes surpresas. Há câmaras onde pensava que o PSD está muito bem e vai ganhar quase de certeza e não ganha e vai haver câmaras onde pode dizer 'o PSD ali não tem grandes hipóteses' e pumba! e ganhou. Todos os anos foi assim porque é que este ano havia de ser diferente? Vai haver surpresas para todos nós, até porque são 308 realidades diferentes", afirmou ainda Rio.

A saída de Costa?

Mas há mais dois fatores que as mesmas fontes apontam ao DN para Rio dar tudo por tudo. A primeira é o horizonte de 2023 potencialmente sem António Costa na liderança do PS. "Com a indefinição sobre a recandidatura de Costa quem estiver em funções no PSD daqui a dois anos poderá ter mais possibilidades de conquistar o poder e governar o país", sublinha a mesma fonte.

A outra razão é interna. Rio considera uma "espécie de traição" o facto de Paulo Rangel se ter posicionado, deixando essa porta aberta, como potencial candidato à liderança do partido. Não só com a entrevista que deu recentemente como, segundo as fontes ouvidas pelo DN, por ter já gente no terreno a arregimentar apoios para uma candidatura. Citam o atual presidente da distrital do Porto do PSD, Alberto Machado , que dizem já andar a fazer contactos entre os militantes para o caso da candidatura de Rangel avançar e, se o resultado das autárquicas for desfavorável a Rio, "ter já no dia 16 e 27 pessoas de peso com ele".

Dos apoiantes de Rangel ainda não há certezas sobre a decisão do eurodeputado, mas admitem que "está mais disponível" e que, com a entrevista em que se assumiu como homossexual, "desarmadilhou" os que andavam a tentar condicioná-lo na sua decisão. "Não há qualquer dúvida, agora é autárquicas, autárquicas, autárquicas e não há mais nada, nem se fala sobre mais nada", é tudo quanto o atual eurodeputado social-democrata diz sobre o assunto.

Para já, garantem as fontes que lhe são próximas, "Paulo Rangel está a aceitar apenas os convites das secções que o convidam para participar na campanha". Hoje estará em Odivelas a convite da secção num jantar comício de apoio ao candidato social-democrata à câmara local, Marco Pina, e irá cruzar-se com outro putativo candidato à presidência do partido, Miguel Pinto Luz, que é mandatário do candidato.

Admitem, no entanto, que poderá existir alguma convergência entre os dois - Rangel e Pinto Luz - caso o primeiro acabe mesmo ir a jogo sozinho contra Rui Rio. Nesse caso, Miguel Pinto Luz, que já foi a votos nas últimas diretas e obteve cerca de 9% dos votos na primeira volta, poderá apoiar a candidatura do eurodeputado e ficar a número dois.

Mas no caso de se perfilaram mais candidatos e outros dois são tidos no partido como muito prováveis, Luís Montenegro e Jorge Moreira da Silva, o também vice-presidente da Câmara de Cascais e antigo líder da distrital de Lisboa do PSD voltaria a ir a jogo em nome próprio, reservando o seu espaço para o futuro no partido.

A incógnita Passos

E o futuro ou que se adivinha dele é mesmo uma condicionante para todos os que desejam avançar para uma candidatura à liderança do PSD. Isto porque todos já estão convencidos que Pedro Passos Coelho deverá voltar ao ringue político no pós 2023, terminado o atual ciclo político.

As próximas diretas de janeiro seriam pois o momento certo para Rangel e dois passistas avançarem, no caso Luís Montenegro e Jorge Moreira da Silva.

Montenegro tem-se mantido o mais discreto possível e, desde as que perdeu para Rio, não tem feito oposição aberta ao líder do partido. Mas fontes sociais-democratas garantem ao DN que tem andado muito ativo também pelas secções do partido, como ilustre militante, que já líder parlamentar e deu o corpo às balas em eleições internas.

Jorge Moreira da Silva tem feito um percurso muito diferente, mas também ele a apontar para uma eventual candidatura. O antigo ministro do Ambiente de Passos Coelho, fundou a Plataforma para o Crescimento Sustentável e é diretor para a Cooperação e Desenvolvimento da OCDE, em Paris, e lançou este mês o livro "Direito ao Futuro", em que encheu uma sala da Gulbenkian de personalidades gradas do partido e do governo PSD/CDS. Passos, claro, mas também Paulo Portas, Leonor Beleza, Cavaco Silva, Marco António Costa, a Ângelo Correia, Maria Luís Albuquerque, Luís Marques Mendes, Teresa Morais, Rui Machete e Paulo Macedo. E são muitos os que entendem que está a fazer um percurso consolidado para avançar mesmo com uma candidatura, com o apoio de muitas das figuras ligadas ao passismo.

paulasa@dn.pt

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