Rangel quer enfrentar Costa e diz ter "condições para vencer legislativas"

Paulo Rangel anuncia a sua candidatura à liderança do PSD e lança farpas à direção de Rui Rio que, disse, "fomentou o espírito de fação ou de tribo". Promete unir o partido, ter condições para ganhar as legislativas e quer Costa como adversário.

Um dia após o Conselho Nacional do PSD em que anunciou que iria ser candidato, Paulo Rangel torna pública a sua candidatura nesta sexta-feira. O também eurodeputado afirma que a sua primeira tarefa será "congregar, juntar e unir" o partido. E garante: "Tenho condições para vencer legislativas".

"Nos últimos anos, o PSD não foi capaz de promover o diálogo, o consenso e a cooperação interna. Ao invés, por vezes, parece ter fomentado o espírito de fação ou tribo, de separação cortante entre eles e o nós, quase que realizando a máxima 'quem não é por nós, é contra nós", disse, numa clara crítica à direção de Rui Rio.

Garante que a sua candidatura é já "um espaço de unidade, de diálogo e diversidade", que congrega um partido plural, que "vai do centro, centro-esquerda até ao limite intransponível da direita moderada". Na fase de perguntas dos jornalistas, rejeitou entendimentos com o partido de André Ventura, o Chega, porque considera fora do tal arco da direita moderada. Rui Rio chegou a admitir que poderia existir diálogo entre o PSD e o Chega caso este partido se "moderasse".

"Nos últimos anos, o PSD não foi capaz de promover o diálogo, o consenso e a cooperação interna. Ao invés, por vezes, parece ter fomentado o espírito de fação ou tribo , de separação cortante entre eles e o nós, quase que realizando a máxima 'quem não é por nós, é contra nós."

Paulo Rangel garante também que se vai bater por uma "oposição responsável", lembrando que foi um crítico de como o PSD fez e está a fazer oposição nestes últimos dois anos.

"Julgo que a política sistemática de acordos com o PS e o governo de Costa - que excecionalmente poderiam aceitar-se - tenha contribuído para clarificar as alternativas e as escolhas que estão à disposição dos eleitores".

"Não defendo uma oposição sistemática, ruidosa, trauliteira (...) mas não pode ser ambígua, não pode ser frouxa, não pode ser quase silenciosa".

E dá exemplos do que se passou esta na última semana com o caos na saúde dos hospitais de de Setúbal aos de Leiria, vila Franca de Xira ou Porto. "Diante de situação tão grave, que voz do PSD se ouviu no espaço público?". Ou das ordens profissionais e da "ocupação tentacular que o governo de costa quer fazer de todas as entidades autónomas". "Porquê a abstenção?" - questionou o candidato à liderança do PSD.

Defende os debates quinzenais no Parlamento com o primeiro-ministro e que o líder do PSD acordou com o PS passar para de três em três meses. "Sei bem quão importantes foram os debates quinzenais em 2008-2009 para retirar a maioria absoluta ao PS de José Sócrates nas eleições de 2009". A promessa é então de retomar a discussão quinzenal com o primeiro-ministro no Parlamento.

Paulo Rangel diz que o terceiro eixo da sua candidatura é o da construção de uma "alternativa galvanizadora, mobilizadora, que possa atrair aos cidadãos e os cidadãos para a causa política". E afirma o PSD na sua "vocação maioritária, com perfil liderante".

O eurodeputado diz que o PSD não pode estar à espera da desistência de António Costa, líder do PS que "desafia" a liderar as listas do partido às legislativas de 2023.

Já na fase de respostas aos jornalistas, Rangel apela a que, em caso de crise política e marcação de eleições antecipadas, o Presidente da República "respeite os calendários internos" dos partidos. E assumiu que se for eleito líder do PSD renunciará ao mandato no Parlamento Europeu, para o qual foi eleito em maio de 2019.

"Espírito de missão"

A primeira vitória de Paulo Rangel aconteceu no Conselho Nacional de quinta-feira à noite quando conseguiu ver aprovada a data das eleições internas para 4 de dezembro contra a proposta de adiamento feita por Rui Rio. Uma vitória de 70 votos contra 40.

E foi neste embalo que esta sexta-feira diz estar convencido que com "espírito de missão", "persuadido de que tenho as melhores condições para unir o PSD, para promover o seu crescimento, realizando "a sua tradicional vocação maioritária e para vencer as eleições legislativas de 2023, com uma solução de governo estável".

Rangel traçou ainda o perfil da sociedade portuguesa, com a qual não se conforma. "Por muito que nos custe, Portugal é ainda uma sociedade aristocrática, tipicamente elitista, com grande resistência à mobilidade e à ascensão social, com elevados níveis de reprodução e ampliação das elites, das elites de todo o tipo: económicas, sociais, culturais".

"Estou persuadido de que tenho as melhores condições para unir o PSD, para promover o seu crescimento , realizando "a sua tradicional vocação maioritária e para vencer as eleições legislativas de 2023, com uma solução de governo estável."

Num longo discurso, afirma ainda que Portugal, pela batuta de governos socialistas, parou desde 2000. "Foram - são mesmo - duas décadas perdidas, em que os portugueses vivem em 2021 como viviam em 200 ou 2001 ou até pior. Duas décadas em que todos os países europeus que são nossos concorrentes diretos - em especial os países de Leste - deram saltos económicos gigantescos, tendo-nos já ultrapassado ou estando em vias de nos ultrapassar".

Rio "fragilizado"

O Conselho Nacional de quinta-feira foi uma chibatada para a atual direção laranja. Fontes do PSD admitem que "Rui Rio saiu muito fragilizado da reunião", depois de ter visto, inesperadamente, chumbada a sua proposta de adiamento das diretas e por uma margem tão grande.

O líder social-democrata não esperava mesmo este resultado, garantem as mesmas fontes ao DN. E o próprio até não escondeu isso mesmo. Admitiu que ficou] "bastante preocupado" com a votação do Conselho Nacional e diz mesmo que nunca viu "na história do partido, o PSD correr um risco desta dimensão". É, argumenta, uma "situação de completa fragilidade".

Rio manteve o tabu sobre a sua recandidatura, ironizando que ainda está a fazer a equação se tem 2,4 ou 3,2, ou mesmo "fazer um x1 e x2 e depois tirar a média". "Logo se vê", atirou.

"É um parâmetro da equação" para avaliar uma recandidatura, disse Rio a dar a entender que a derrota no principal órgão do partido, onde estão representadas todas as estruturas, fá-lo-á pensar sobre a aceitação interna que tem neste momento.

Quem esteve no CN, que decorreu num clima muito tenso, diz que a ironia não mora nestes dias na São Caetano à Lapa, sede do PSD. O líder social-democrata tem de medir se corre o risco de ir às diretas de 4 de dezembro com esta tendência do partido pró-Rangel ou se atira a toalha ao chão e não vai a uma terceiro round das eleições internas. Neste momento ninguém aposta qual será a decisão de Rio.

Rangel soma apoios

Pouco tempo depois de assumir a candidatura, um conjunto de militantes do PSD, alguns destacados, tornaram público um comunicado de apoio ao candidato, que dizem ser a figura capaz de construir uma verdadeira alternativa ao governo.

"Considerando o aparente conformismo à atual governação, o PSD tem a
obrigação de mudar o paradigma de fazer oposição e de ter a ambição de
recuperar a esperança perdida dos Portugueses, recolocando Portugal na rota
do desenvolvimento", afirmam os subscritores, a maioria do norte. Entre os quais Alberto Machado, líder da distrital do PSD Porto, o deputado Cancela Moura, António Silva Tiago, presidente da Câmara da Maia e presidente da concelhia PSD Maia, José Luís Gaspar, presidente da Câmara de Amarante e líder da concelhia. A que se somam vários presidentes daquelas estruturas.

"Mais do que nunca, é preciso unir o partido para enfrentar o próximo ciclo
eleitoral, entendendo os subscritores que o companheiro Paulo Rangel tem o
perfil certo para essa missão. A sua experiência política, nacional e europeia, a sua visão e modernidade, a sua conhecida assertividade e a forma como está na vida pública, são algumas das qualidades que o partido necessita para crescer e vencer as legislativas. Paulo Rangel é o único companheiro capaz de galvanizar, não só o partido, mas também os Portugueses, que se revêm numa social-democracia moderna", dizem.

paulasa@dn.pt

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