Números dão confiança ao Governo para prosseguir plano de desconfinamento

Com Portugal na zona verde da "matriz de risco", o Executivo tem razões para manter em movimento o plano de desconfinamento, passando-se na próxima segunda-feira para a segunda fase. Todos os indicadores estão dentro dos níveis de segurança.

O Conselho de Ministros reúne esta quinta-feira para decidir se o país passa ou não, segunda-feira, 5 de abril, para a segunda fase do plano de desconfinamento cujo conteúdo o primeiro-ministro anunciou em 11 de março.

O que está em causa são mais decisões sobre escolas (retomar agora o ensino presencial do 5º ao 9º ano) e a reabertura das esplanadas, nomeadamente. Mas também a reabertura dos museus e também de feiras e mercados (aqui por decisão das câmaras).

Ao anunciar o plano de desconfinamento, o primeiro-ministro revelou também que o Governo se passaria a guiar por um novo índice a que chamou "matriz de risco".

O índice combina o R(t) - Índice de Transmissão, ou seja, quantas pessoas são contagiadas por um infetado - e a incidência pandémica (casos de infeção por cem mil habitantes). Ambos os valores estão dentro dos níveis de segurança, embora o R(t), atualmente de 0,94, esteja perto dos valores limite (1).

Já a incidência pandémica está em 65,3 (valor nacional), ou seja, a cerca de metade do valor tido como limite de segurança (120). Dito de outra forma: na "Matriz de Risco" Portugal está na zona verde. E isso deverá ter por consequência a decisão de prosseguir o plano de desconfinamento. A pressão sobre o SNS também desceu radicalmente, bem como o número de mortos diários, já dentro dos valores do verão passado, após o primeiro desconfinamento.

Ao mesmo tempo, o Governo tenta, ao acelerar o plano de vacinação, nomeadamente associando-o à progressiva reabertura das escolas - o que tem sido também uma das exigências do Presidente da República ("vacinar mais e mais depressa", afirmou, na sua última mensagem ao país). Um inquérito conduzido pela FNE (Federação Nacional de Educação) concluiu que a maioria dos professores do pré-escolar e 1º ciclo, que retomaram há duas semanas o ensino presencial, sentem-se seguros na escola, apesar de muitos admitirem que as regras para conter a covid-19 nem sempre são cumpridas pelos alunos.

O que falta saber é se o mesmo sentirão os professores dos próximos ciclos educativos a reabrir. Para criar essa confiança, o Governo desencadeou no fim de semana passado uma grande operação de vacinação de professores.

Segundo números divulgados pelo coordenador da task force da vacinação, vice-almirante Gouveia e Melo, mais de 60 mil professores foram vacinados. De um grupo inicial de cerca de 78,7 mil utentes ligados ao setor da Educação, foram excluídos aqueles que já tinham sido vacinados noutros contextos, as grávidas e os que já tinham contraído covid-19.

No total, foram administradas durante o fim de semana 60 334 vacinas contra o vírus SARS-CoV-2, 46 182 das quais no sábado e as restantes 14152 no domingo. Ontem, falando perante deputados na comissão de Saúde, Gouveia e Melo acrescentou, face a outros setores da população: "Previmos fechar (completar a vacinação) a 100% as ERPI [estabelecimentos residenciais para idosos], os mais de 80 anos e [o grupo] dos 50 até aos 80 anos com comorbilidades tipo 1 até dia 11 de abril. Naturalmente, poderão ficar pequenas bolsas que não conseguimos contactar, mas a grande maioria desta comunidade, que tem a ver com salvar vidas, estará fechada até 11 de abril."

Ao anunciar que em 1 de Abril o Governo avaliaria a aplicação do plano de desconfinamento, para decidir se prosseguia ou se "puxava o travão de mão" (como o PM gosta de dizer), a ministra da Presidência, Mariana Vieira da Silva, valorizava os números do R(t): "O percurso mostra que temos condições para continuar o plano de desconfinamento, mas também mostra que nos temos aproximado de forma significativa do Rt igual a 1 e que, portanto, precisamos de ter cautela na continuação do plano de desconfinamento."

Mas acrescentava: "Há zonas verdes para lá do 1, quando as incidências estão muito baixas, e há zonas verdes acima de 120, quando o R(t) é menor do que 1. Isso permite visualizar que com incidências muito baixas - e nós temos neste momento menos de 70 casos por 100 mil habitantes - temos mais margem de viver com pequenas alterações ao Rt do que se tivéssemos incidências grandes."

Nessa altura (26 de março), a governante reconhecia que se a situação epidemiológica do país resvalasse para a "zona amarela", haveria necessidade de "repensar o plano" de desconfinamento, com base nos indicadores e na sua localização no território nacional.

"Pode significar uma travagem total ou parcial, conforme os indicadores e a sua localização no território. Dissemos sempre que pode haver medidas locais ou regionais. É preciso ver que a evolução é positiva, mas também sabemos que, ao aproximarmo-nos do momento em que os casos começam a crescer, temos de ficar alerta", dizia.

Concluindo: "Para poder garantir que todas as crianças vão às escolas, para garantir que as lojas abram dia 5, para poder garantir que as esplanadas podem abrir a partir do dia 5 e que na quinzena seguinte possam abrir também os restaurantes e as atividades culturais. Para isso precisamos de nos manter nesta zona verde, precisamos de nos manter em segurança, precisamos de cumprir as regras até lá."

Para já, não está marcada nenhuma reunião do Infarmed - as reuniões onde o Presidente da República, o primeiro-ministro e a ministra da Saúde conversam com epidemiologistas e discutem como se combater a pandemia.

Falando ontem à Lusa, o virologista Pedro Simas sublinhava que os grupos de risco ainda não tem cobertura a 90% ou 100% da vacinação e isso pode fazer inverter rapidamente os atuais números da pandemia em Portugal, que são de decréscimo.

"Enquanto não se tiver uma cobertura vacinal dos grupos de risco de 90% a 100%, há sempre o perigo de haver vagas que possam causar internamentos e morte, porque a maior parte dos países europeus ainda não tem imunidade populacional e isso quer dizer que o vírus pode ter propagação pandémica e causar vagas", afirmou. De acordo com este investigador do Instituto de Medicina Molecular, uma nova vaga em Portugal não teria, "em princípio", o mesmo impacto, devido ao processo de vacinação contra a covid-19 em curso.

Porém, "o vírus está disseminado por todo o lado e as vagas nos diferentes países refletem as medidas de mitigação e os estatutos de imunidade populacional que têm, pura e simplesmente". E "não são ventos que progridam de Este para Oeste ou de Oeste para Este. A partir do momento em que o mundo inteiro é pandémico, a dinâmica da disseminação do vírus em cada país não está dependente do vizinho, mas sim do comportamento de cada país em termos de medidas de mitigação e programa de vacinação".

Os diferentes ritmos da pandemia evidenciam, sobretudo, o posicionamento de países como Portugal, Espanha e Reino Unido a aliviarem neste momento as suas restrições, enquanto Itália, Alemanha e França, por exemplo, surgem em contraciclo, com o receio de uma terceira vaga.

Já o especialista em Saúde Internacional Tiago Correia salientou que "estamos a enfrentar o começo de uma terceira vaga na Europa e, portanto, isso significa que se nada se fizer, ela chegará a Portugal". Mas um eventual aumento "será com um ritmo mais lento por quatro motivos: vacinação, imunidade natural, resposta política e o clima."

joao.p.henriques@dn.pt

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