No PAN a mensagem é mais importante do que os dirigentes

André Silva decidiu abandonar a liderança do partido. Mas os politólogos dizem que o "risco" para o futuro do ​​​​​​​PAN é pequeno, se evoluir para uma mensagem clara e ecologista.

O líder do Partido Pessoas-Animais-Natureza preanunciou a sua saída dos cargos dirigentes e a renúncia ao mandato de deputado. Será que o PAN poderá ser penalizado eleitoralmente por André Silva deixar de ter visibilidade? A resposta dos politólogos é clara: o "risco " é muito pequeno porque, como diz António Costa Pinto, "o PAN é um partido de causas, em que a mensagem é mais importante do que a personalização dos seus dirigentes".

O investigador do Instituto de Ciências Sociais lembra que o PAN começou por se afirmar nas eleições legislativas de 2015, com a eleição de um deputado, no caso o próprio André Silva, sem que os seus dirigentes fossem conhecidos da opinião pública. Embora reconheça que muitas das figuras ligadas a esta força política já integravam redes associativas importantes.

"Mas o crescimento eleitoral do PAN remete mais para as suas causas do que propriamente para o indicador de notoriedade dos seus dirigentes", reforça.

António Costa Pinto realça ainda nesta possível resistência do partido ao desgaste de uma mudança de liderança o facto de o PAN se posicionar fora da escala esquerda/direita. O partido impôs-se, afirma, na defesa dos direitos dos animais e na sua dimensão ambientalista.

A chegada ao Parlamento em 2015 teve "esse bónus" de dar visibilidade nacional a André Silva, ainda que o partido "tenha feito um esforço para apresentar outros dirigentes. O que foi notório quando, já após as legislativas de 2019 - em que a bancada do partido cresceu para os quatro deputados - se deu uma cisão interna e a deputada Cristina Ferreira bateu com a porta ao PAN e ficou como independente, ou deputada não inscrita, em junho do ano passado. Mesmo sobre esta cisão, o politólogo diz ser "normal" numa fase de institucionalização dos partidos existirem crises internas.

"Se a pergunta é se o PAN vai sofrer com a saída do seu principal dirigente, diria que vai depender do reforço da mensagem ecologista e de defesa dos animais", frisa.

José Adelino Maltez partilha da mesma visão que Costa Pinto, mas é ainda mais enfático a dizer que a vida do PAN está muito facilitada pela sua própria natureza. E a palavra certa é mesmo essa: "natureza".

"O PAN vai ter de escolher o caminho pós-André Silva, porque é o mais seguro dos pequenos partidos", diz o professor catedrático do Instituto de Ciências Sociais e Políticas.

Na sua opinião, "com André Silva houve uma bebedeira de sucesso, mas o estilo era um excesso de engenharia verbal e que não refletia o modelo de alguns partidos verdes da Europa, por exemplo como na Alemanha". É por isso que entende que o partido tenderá a evoluir para um discurso mais verde. "Agora não há dúvida que veio para ficar, já que este tipo de partidos têm tido um sucesso enorme e vão ser muito importantes no pós-pandemia", diz ainda José Adelino Maltez.

O politólogo sublinha ainda a importância estratégica do PAN. "É um partido que quer ser de charneira porque basta que haja o desequilíbrio de um ou dois deputados" na geometria parlamentar para que possa assumir um papel determinante no apoio a um governo e obrigue mesmo a impor certas políticas na governação.

É esse o papel que já está a procurar desempenhar nos Açores, caso os desentendimentos no Chega nos Açores comprometam o apoio ao governo de coligação PSD-CDS-PPM.

Paternidade e renuncia

André Silva anunciou no Facebook que vai deixar a liderança do PAN e o lugar de deputado, com efeitos a partir do próximo congresso, em junho. Porta-voz nacional do partido desde outubro de 2014, André Silva quer agora "apanhar o comboio da paternidade", lembrando que é um defensor da limitação de mandatos até a nível partidário.

"Volvidos vários anos de intenso trabalho e de uma magnífica experiência cívica e pessoal, decidi não me recandidatar aos órgãos nacionais do partido", escreveu numa carta aos militantes.

André Silva, que era porta-voz do partido desde outubro de 2014, disse também que vai renunciar ao mandato de deputado "com efeito na data de realização do nosso congresso no mês de junho, cumprindo assim meia legislatura e fechando um ciclo pessoal e da vida do partido".

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