Mulheres. "Somos mais perspicazes, há uma maior ponderação, mais tolerância"

O que dizem as autarcas das únicas sete câmaras onde existe uma maioria de mulheres? Exceções num país que tem 29% de vereadoras e 10,4% de presidentes de município.

E afinal, há ou não diferenças na gestão? Célia Marques, que lidera uma câmara com maioria feminina no executivo (três mulheres, dois homens), afirma que "atingimos os mesmos objetivos, mas com outros instrumentos, outros percursos. Julgo que somos mais perspicazes, percebemos os 'contornos' da situação. Há uma maior ponderação, mais tolerância... Sinto que somos mais compreensivas".

A presidente da Câmara de Alvaiázere diz já ter sentido em algumas ocasiões algum embaraço masculino. "Senti em alguns momentos que a minha presença constrangia os comportamentos de outras pessoas." Constrangia? "Sim [risos], nos círculos masculinos. Imagine ser convidada, por exemplo, para uma adega... Era visível alguma perturbação, um retrair nos comportamentos. Tento da língua e nos modos? "Sim, isso. Mas, como sempre, fiz questão de estar presente, e essas coisas foram sendo ultrapassadas."

A autarca diz que o seu caso "foi um acaso": "Fui desafiada para vereadora em 2009, aceitei e estive seis anos. Em 2015, a meio do mandato, o presidente que estava saiu e houve essa oportunidade. Mas confesso que tive um momento de hesitação, por questões familiares. Em 2017, como já estava nas funções de presidente, o partido não colocou a possibilidade de ser outra pessoa." Acredita que "em meios mais pequenos ainda existe essa barreira a transpor, pois ainda não é socialmente aceite que seja uma mulher a liderar".

Carlos Esteves Carvalho, que lidera há 12 anos a autarquia de Penedono (é um dos presidentes impedido pela lei de limitação de mandatos de ser recandidato), assegura que sempre "teve mulheres nas listas, e até nas juntas de freguesia", por acreditar que "são mais clarividentes e ponderadas".

"Só posso enaltecer a intuição e a capacidade de resolver os problemas. As mulheres são seres mais completos que nós, homens. O que digo não vem de nenhum estudo, é uma opinião muito pessoal. Há um sentido prático, uma eficácia, um pragmatismo que... olhe, talvez seja da natureza, da constituição genética. Há uma sensibilidade que nós, homens, não temos."

O autarca sabe que "nestes meios mais pequenos ainda existe a ideia de olhar a mulher como incapaz para a vida política" - "é uma coisa cultural machista" - e acredita que as mulheres só "lá chegam se houver espaço, mais oportunidades". É que "as mudanças não brotam do nada".

Cidália Ferreira, socialista, presidente da Câmara da Marinha Grande (aqui são cinco as mulheres e dois os homens), diz que as diferenças são evidentes. "Durante este mandato percebeu-se uma capacidade de resiliência muito grande. Não desistimos de tentar resolver os problemas, não ficaram adiados. Nas questões de fundo, por exemplo, conseguimos atrair a sensibilidade de vários organismos e estabelecer protocolos nas áreas da saúde, justiça e educação."

A autarca, que diz perceber um "viver feminino com mais intensidade, mais sensibilidade", admite não ser fácil encontrar "mulheres com disponibilidade para a causa pública da política", apesar de este ano "não ter havido a dificuldade habitual".

"Mas tem sido muito difícil, porque quase sempre as questões de âmbito familiar e profissional são entraves. E também o tempo que é preciso, o tempo que as funções políticas ocupam. É que praticamente não temos fins de semana. Eu, por exemplo, nestes quatro anos praticamente não tive dias de férias", afirma.

"As mulheres são seres mais completos do que nós, homens. Há uma sensibilidade que nós não temos", diz Carlos Esteves Carvalho, presidente da câmara de Penedono.

Cidália Ferreira alerta para um problema que diz estar a atrasar a renovação nas autarquias. "Começa a ser complicado ter gente jovem. Que empresa espera quatro ou oito anos por um funcionário que assume funções políticas numa autarquia? Quem está na política - não é o meu caso, que sou professora reformada - precisa de ter um segundo emprego. Alguém arrisca, principalmente se estiver no privado por conta de outrem? Quem está na função pública tem o regresso garantido, quem não está não tem essa segurança. Deveria haver uma condição de função pública."

Sérgio Oliveira, 26 anos, jurista, presidente socialista na Câmara de Constância, partilha da leitura de Célia Ferreira. "É cada vez mais difícil, no país, fazer listas para as autarquias. O descrédito da política, a exposição pública que tanto abrange homens como mulheres, às vezes mais desagradável com as mulheres, afasta as pessoas. E repare que se for para as juntas de freguesia é pior. A maior parte não está a tempo inteiro, nem sequer a metade do tempo. É quase voluntariado. As pessoas fazem contas às horas e ao tempo dispensado e percebem que recebem qualquer coisa como 50 cêntimos à hora!"

Para o autarca, a questão das mulheres ainda é um problema. "O escrutínio na rua, a vida familiar e doméstica, a disponibilidade que é preciso ter... Acho que o principal está na disponibilidade. As pessoas não querem meter-se na política, mais ainda se forem jovens. Querem é trabalhar na área para a qual estudaram, evoluir na carreira. Não podemos negar que existe um grande problema."

E as vantagens de ter uma maioria de mulheres (aqui são três as mulheres e dois os homens)? "Talvez o maior cuidado, são mais atenciosas, pormenorizadas. Noto que são mais ponderadas, mais afinadas nas análises." E constrangimentos? " Nunca me apercebi, não creio que haja. Há é uma tendência, e acredito que seja por Constância ser um concelho pequeno, de as pessoas quererem falar com o presidente de câmara."

João Lobo, engenheiro civil, presidente da Câmara de Proença-a-Nova desde março de 2016, sublinha "um realizar diferente da gestão, uma especial acuidade nas mulheres, principalmente nas áreas de ação social, no apoio familiar, nos incentivos. Noto aqui uma atenção especial, o cuidado com os pormenores".

O autarca socialista relata "alguns constrangimentos na população mais envelhecida", acrescentando, no entanto, que "é normal nos concelhos de baixa densidade haver uma tendência para falar com o presidente de câmara. Mas há [nas mulheres] uma menor apetência pela a coisa pública. Talvez seja da vida familiar, do trabalho. Sinto nos mais velhos essa ideia dos "afazeres domésticos" muito enraizada. Vejo uma grande apatia, há um alhear do exercício da cidadania de homens e mulheres. E a culpa é dos partidos, de quem exerce o poder, desse funcionar em circuito fechado".

E no seu concelho (são três as mulheres e dois os homens no executivo), por exemplo nas freguesias? "Não temos nenhuma mulher cabeça de lista. No dia da apresentação das listas, quando estávamos todos os cabeças de lista, até puxei essa conversa. "Há aqui uma falta, não temos nenhuma mulher", foi o que disse. Mas acredito que a breve trecho irá mudar. Olhe, a minha adversária da CDU é uma mulher."

António Cardoso Barbosa, 62 anos, engenheiro civil, presidente da Câmara de Vieira do Minho desde 2013, diz não existir, agora, "nenhum estigma sobre as mulheres na política". "No passado, sim, havia um estranhar nos mais velhos, gente mais idosa com menos escolaridade. Mas ainda existe algum embaraço em falar com uma vereadora (são quatro mulheres e três homens na vereação) em vez de um vereador."

O autarca social-democrata, que destaca no género feminino o "serem mais minuciosas, temáticas e mais organizadas", diz ser difícil "chamar mulheres para a política, talvez porque, para além do trabalho e das tarefas domésticas, dos filhos, ainda existe uma reduzida disponibilidade. Não se sentem motivadas, creio".

artur.cassiano@dn.pt

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