Martins da Cruz: "A relação entre os EUA e a Europa não é um idílio"

O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros diz que Portugal pode moderar o diálogo entre Estados Unidos, Europa e China. E vê Joe Biden novamente apostado no multilateralismo.

O facto de a cimeira EUA/União Europeia decorrer sob presidência portuguesa tem um simbolismo especial?

Não tem simbolismo nenhum. Na sua deslocação o presidente Joe Biden tentou juntar várias cimeiras, a do G7, da NATO, a da União Europeia e a com Putin. Dentro destas quatro reuniões, a da União Europeia é a menos importante, porque é aquela em que os Estados Unidos não estão e não marcam nada. Já na cimeira da NATO, se se tratasse de uma empresa privada, os EUA seriam o acionista maioritário ou teriam a golden share e a reunião com Putin é determinante para a Europa e para o mundo. Não é seguramente com o Luxemburgo, a Bulgária ou Portugal que os Estados Unidos vão marcar uma posição, com a Alemanha, França e até Itália talvez.

Mas há uma nova tentativa de reatar os laços entre os Estados Unidos e a Europa nesta administração Biden, que tinham sido muito difíceis com a de Donald Trump...

É verdade. Os Estados Unidos querem um regresso ao multilateralismo, que é uma das seguranças com que a Europa conta, e há um novo diálogo transatlântico. É por isso que à margem da reunião do G7, Joe Biden, assinou uma nova carta do Atlântico para renovar a dos anos 40, assinada por Roosevelt e Churchill.

Mas a relação promete agora ser fácil?

Não vai ser fácil. Existem alguns escolhos económicos e com a Alemanha há o problema Nord Stream, que é o do gasoduto para trazer gás da Rússia pelo mar para a Alemanha e que vai contra dois objetivos dos Estados Unido: a não utilização do gasoduto que passa pela Ucrânia e que lhe dá poder contra a Rússia; e, além disso, os EUA são um dos maiores exportadores de gás líquido para a Europa. Depois há problemas com o sr. Macron, que tem um problema geoestratégico que herdou de De Gaulle, relativamente à defesa, já que a França quer preservar a capacidade autónoma nuclear, sem a pôr ao dispor da UE como os Estados Unidos. Além disso, a França foi o país que mais batalhou no G7 pela taxa às grandes multinacionais e as cinco maiores são americanas, entre elas a Amazon, Google, Facebook, Twitter e Instagram. A relação entre os Estados Unidos e a Europa não é um idílio, nem uma lua de mel, vai ser um casamento de diálogo, que tem a vantagem de não ser por zoom, mas olhos nos olhos. Biden, que é um político profissional com mais de 50 anos de carreira, tem necessidade de escutar os europeus.

E como deve a União Europeia agir perante as pressões dos EUA para endurecer as relações com a China?

A posição aqui tem de ser muito moderada. A China não é o inimigo da Europa, pode ser um adversário económico, mas a Europa precisa dela, pois já é a segunda maior potência económica e será a primeira dentro de alguns anos. Temos de conviver com a China porque é muito importante para a economia dos países europeus. Dou apenas um exemplo, a Alemanha exporta mais para a China do que a França, Itália e Inglaterra juntas. Há milhares de empresas alemãs a exportar para lá. Portugal é o segundo país per capita que recebeu maior investimento chinês até agora, só suplantado pela Finlândia, temos assinado o memorando da rota da seda e é o país que melhor conhece a China desde 1516, quando lá chegámos.

Refere-se às relações de Portugal com a China também por causa de Macau?

Macau é um caso exemplar na política externa portuguesa e chinesa, é um case study nas relações internacionais. As trapalhadas que existem em Hong Kong não existem em Macau. Espero que sob a presidência portuguesa da UE, o nosso primeiro-ministro ponha moderação no diálogo relativamente à União Europeia, Estados Unidos e China. Os países não se podem só dar com os que têm o mesmo regime político, a política externa não é para ativistas, é uma coisa muito concreta que tem em conta os interesses nacionais. E é bom não esquecer que Portugal tem responsabilidades éticas e funcionais com Macau até 2050 e queremos ser um exemplo para todos os outros países. As relações Europa/China têm muitos desafios e oportunidades e só vejo apontar os desafios negativos, seria importante em vez de excluir a China deveria era tentar incluí-la para o novo diálogo.

paulasa@dn.pt

Mais Notícias

Outras Notícias GMG