Marcelo reeleito. Ana Gomes bate Ventura por uma unha negra

Por margem folgada, rondando os 60%, Marcelo Rebelo de Sousa foi reeleito Presidente da República. Muito atrás de Soares na reeleição de 1991 mas muito à frente de Cavaco em 2011 e de todas as restantes reconduções presidenciais. No campeonato dos segundos, Ana Gomes venceu Ventura. Marisa Matias foi a grande derrotada da noite.

Às 23.50 deste domingo havia uma única certeza: Marcelo Rebelo de Sousa fora reeleito para um segundo (e último) mandato de cinco anos como Presidente da República. Faltando duas freguesias para apurar e três consulados, o resultado de Marcelo rondava os 60% (cerca de 2,5 milhões de votos).

Marcelo já tinha uma outra certeza: em percentagem e votos absolutos obteria um resultado muito longínquo dos 70% de Soares na reeleição de 1991 mas muito melhor do que Cavaco na reeleição de 2011 (52,95%) e, de resto, também melhor do que o obtido por Jorge Sampaio na reeleição de 1991 (55,76%) e por Ramalho Eanes quando foi reconduzido em 1980 (56,44%). Marcelo, além do mais, venceu em todos os 308 concelhos do país.

Duas horas antes, eram várias as incógnitas: quem ficaria em segundo lugar, Ana Gomes ou André Ventura? Quem ficaria em quarto lugar, João Ferreira ou Marisa Matias? Quem ficaria em sexto, Vitorino Silva (Tino de Rans) ou Tiago Mayan? Tudo parecia em aberto.

Apontavam-se ainda assim apenas tendências prováveis: Ana Gomes já estava à frente do líder da extrema-direita nacional, por 518 mil votos contra 481 mil; João Ferreira, candidato apoiado pelo PCP, parecia consolidado à frente da candidata do BE, Marisa Matias (172 mil votos contra 158 mil); Tino de Rans, pelo seu lado, estava à frente de Tiago Mayan (103 mil votos contra 93 mil votos) mas faltavam apurar freguesias grandes de Lisboa onde o candidato da Iniciativa Liberal poderia dar a volta ao resultado. Às 22.30, Mayan já estava à frente de Tino.

Os resultados finais, faltando apenas três consulados por apurar, acabaram por ser:

Marcelo Rebelo de Sousa - 60,7% (2 533 799 votos)

Ana Gomes - 12,97% (541 345 votos)

André Ventura - 11,9% (496 653 votos)

João Ferreira - 4,32% (180 473 votos)

Marisa Matias - 3,95% (164 731 votos)

Tiago Mayan - 3,22% (134 427 votos)

Vitorino Silva - 2,94% (122 743 votos)

Brancos - 1,1% (47 041)

Nulos - 0,94% (39 997)

Abstenção - 60,51%

Inscritos - 10 791 490 inscritos

Votantes - 4 261 209

Pelas 22h00, na verdade só uma candidata tinha assumido o seu resultado. Marisa Matias, que na sua candidatura presidencial de 2016 alcançou para o Bloco de Esquerda o melhor resultado da sua história (10,12%), assumiu a pesada derrota agora sofrida: "Os resultados eleitorais estão à vista, não são os que esperávamos, não são o que esperei e estão longe do objetivo que traçámos." A eurodeputada bloquista salientava o resultado de André Ventura: "A direita está em reconfiguração e muitos eleitores de direita deste país votaram num candidato de extrema-direita."

Ventura vence em bastiões do PCP

O líder da extrema-direita, André Ventura, ficou em terceiro lugar mas em vários distritos ficou em segundo lugar, à frente de Ana Gomes e apenas atrás de Marcelo Rebelo de Sousa. Isso aconteceu em Vila Real, Bragança, Viseu, Guarda, Castelo Branco, Leiria, Santarém, Portalegre e Faro.

Em Évora e Beja, distritos de forte implantação comunista, Ventura também ficou à frente não só de Ana Gomes como do candidato apoiado pelo PCP, João Ferreira. Também suplantou à frente de Ana Gomes na Madeira. Em Setúbal, Ana Gomes bateu Ventura mas por uma unha negra (13,37% contra 12,86%).

Ana Gomes bateu Ventura sobretudo no litoral e nos maiores círculos. Além de Setúbal, Lisboa, Aveiro, Braga, Porto, Viana do Castelo e Coimbra. No campeonato dos segundos, a antiga eurodeputada do PS e o líder do Chega dividiram as regiões autónomas: nos Açores ganhou Ana Gomes; na Madeira venceu Ventura.

Ventura não conseguiu portanto cumprir o objetivo de ficar à frente de Ana Gomes - e agora irá levar a sua liderança a votos no Chega, esperando-se uma reeleição sem adversários. O deputado único do Chega deu um passo gigante na progressão eleitoral face às legislativas de 2019: quase meio milhão de votos, contra 67,7 mil nas últimas legislativas.

Pelas 23h10, Ana Gomes ainda não tinha reagido mas, falando em seu nome, o advogado Ricardo Sá Fernandes já tinha assumido, cerca de uma hora antes, uma derrota: a candidatura não havia conseguido forçar uma segunda volta. Cauteloso, Sá Fernandes recusava ainda por essa altura assumir como certo o segundo lugar para a antiga eurodeputada do PS. E dirigia duros ataques à direção do PS ("demitiu-se destas eleições") e em particular a António Costa ("uma espécie de mandatário de Marcelo Rebelo de Sousa").

"Uma boa notícia para o PS"

Já o PS salientava, através de Carlos César, que muitos dos votos do eleitorado socialista foram em Marcelo, contribuindo para a sua reeleição. "O que os resultados demonstram é que, graças aos eleitores socialistas, a democracia venceu na primeira volta e o extremismo de direita foi derrotado no nosso país", afirmou o presidente do PS, numa conferência de imprensa em Ponta Delgada. César elogiava ainda a reeleição de Marcelo, "uma boa notícia para o PS" porque é "uma boa notícia para a cooperação institucional".

Para o PCP, a noite foi agridoce. João Ferreira ficou à frente de Marisa Matias - e o PCP gosta sempre de ficar à frente do BE. Em percentagem bateu o resultado do candidato comunista de 2016, Edgar Silva (3,95%). O lado mau foi ter ficado atrás de Ventura - mas com Marisa aconteceu o mesmo. A candidata do Bloco ficou-se pelos 3,95%, com 164,7 mil votos - contra 10,1% em 2016 (e 196,7 mil votos). Foi a grande derrotada da noite.

À direita, Tiago Mayan obteve um resultado muito melhor do que esperaria à partida, por ser um total desconhecido. Com 132 mil votos (3,2%) suplantou fortemente a votação obtida pelo seu partido, a Iniciativa Liberal, nas eleições legislativas de 2019 (67,7 mil votos).

Quanto à abstenção, aumentou para cerca de 60 por cento, contra 51,34 nas eleições presidenciais de 2016 e 53,48 por cento em 2011, nas eleições presidenciais da reeleição de Cavaco Silva. Foi a maior abstenção de sempre em eleições presidenciais.

O número de inscritos nestas eleições, 10,8 milhões, aumentou bastante face às anteriores presidenciais (9,7 milhões) mercê do recenseamento automático de 1,2 milhões de eleitores portugueses residentes no estrangeiro.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG