Maçonaria ensaia "libertação total". Liderança vai a votos

Reuniões presenciais voltam à mais antiga obediência maçónica portuguesa. "Poderoso Presidente" da "Grande Dieta" convoca eleições

A mais antiga obediência maçónica em Portugal, o Grande Oriente Lusitano (GOL), vai-se preparando para começar a regressar à normalidade - a "libertação total" da pandemia que, há dias, o primeiro-ministro anteviu para o final do verão.

A "ordem" foi dada há dias. Dando sequência a determinações do grão-mestre, Fernando Lima Valada, o "Poderoso Presidente" da "Grande Dieta" do GOL (o "parlamento" da obediência), Celso Manata, antigo diretor-geral dos serviços prisionais, convocou para o próximo dia 30 de outubro as eleições internas para os cargos de grão-mestre e grão-mestres adjuntos. E serão eleições presenciais, com os "irmãos" deslocando-se às sedes do GOL para exercerem o direito de voto. Na escolha da data foi tido em conta que haverá eleições autárquicas no final de setembro (dia 26), estando muitos maçons envolvidos no processo, dando-se portanto um mês para, depois, os "irmãos" irem a votos.

"Quero consignar que, atendendo às particulares circunstâncias que caracterizam o tempo em que atualmente vivemos e às específicas condições em que vai decorrer esse processo eleitoral, procurei previamente conhecer a vontade do Povo Maçónico e, sobretudo, orientei a minha escolha no sentido de propiciar uma campanha eleitoral que permita, a todos e oportunamente, fazer uma escolha esclarecida", escreveu Manata na convocatória, assinada com data de terça-feira passada, 27 de julho.

Confirmando-se as eleições a 30 de outubro, elas ocorrerão quase 17 meses depois da data inicialmente prevista (6 de junho 2020). Foram desmarcadas em abril desse ano, devido à pandemia. E não só o processo eleitoral interno foi suspenso como foram proibidas todas as reuniões internas presenciais. Mais: foram mesmo proibidas as reuniões maçónicas online que já estavam a decorrer. O grão-mestre percebeu que confidencialidade e internet não rimam.

Em junho do ano passado, a direção da obediência emitiu uma diretiva interna permitindo de novo as reuniões presenciais, "procurando corresponder ao manifesto desejo da grande maior parte dos obreiros de retomar as suas atividades em loja": "O Conselho da Ordem, ouvidos os especialistas e considerando as opiniões científicas em que sempre sustentou as suas decisões, acompanhando em certa medida o que também se passa no país, entende que, respeitando as particularidades de cada uma das oficinas e do seu contexto, é chegado o momento de estas, de forma gradual, retomarem os trabalhos rituais."

Essa diretiva veio acompanhada de uma lista com 50 regras de segurança para os maçons seguirem, as quais incluem, por exemplo, a dispensa do uso obrigatório de luvas por "não haver garantias quanto à sua higienização", bem como a "Cadeia de União" (o equivalente ao abraço da paz na liturgia católica) e ainda a circulação do "Tronco da Beneficência" (outro momento com equivalência, nas missas, ao da recolha da esmola).

Esse desconfinamento foi no entanto parado pelas "bases" do GOL. Afinal, ao contrário do que se dizia na diretiva, não havia vontade de avançar nesse sentido da "grande maior parte dos obreiros". O Conselho da Ordem (órgão executivo de direção do GOL) reuniu com "uma larga maioria" das "oficinas" e nessas conversas colheu-se "maioritariamente a opinião que (...) não existem condições para reunir antes das férias, com o conselho de em setembro se fazer a avaliação da situação que então se viva, por efeito da pandemia".

Dois candidatos

Seja como for, mesmo estando a atividade presencial do GOL parada, o facto é que isso não impediu que avançassem candidaturas à liderança - sendo que o grão-mestre parece firme na decisão de não se recandidatar (mas ficará para a história como o líder com maior longevidade da obediência, cerca de dez anos, estando agora a terminar o seu terceiro mandato).

Para já, há duas candidaturas anunciadas ao seu lugar, uma de continuidade e outra que não o é.

A de continuidade será liderada por Carlos Vasconcelos, atual vice-grão-mestre, que reclama ter o apoio do antigo grão-mestre António Reis, sendo o mandatário o ex-ministro da Administração Interna (e ex-chefe dos serviços secretos) Rui Pereira, comentador de assuntos judiciais da CMTV.

No manifesto onde explica a candidatura, Vasconcelos afirma que "o Grande Oriente Lusitano não pode viver fechado sobre si mesmo", ou seja, "tem saber interagir com a cidade e tem de exigir a todos que sejam exemplo".o objetivo é "a afirmação da maçonaria como uma elite moral, cada vez mais rigorosa e exigente consigo própria e como uma vanguarda social interveniente" em que, por exemplo, as lideranças internas sejam "independentes de qualquer poder exterior à maçonaria, seja económico, político, religioso ou de qualquer outro tipo".

A outra candidatura é de Fernando Cabecinha, um histórico da organização, que ainda não anunciou nem a sua equipa nem os seus princípios programáticos. O que afirmou, numa "prancha" de 21 de junho dirigida a todos os "irmãos", é que o GOL necessita, "urgentemente, para que não vá deslassando o cimento que nos une, de colocar em prática os necessários mecanismos de solidariedade e, sobretudo, o trabalho de defesa intransigente dos nossos princípios e valores" e que "nos esforcemos para transmiti-los exemplarmente e através de comunicação eficaz, quer internamente quer à sociedade profana".

joao.p.henriques@dn.pt

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