Luto pelos animais? "É um dia, não é uma coisa do outro mundo"

Deputada não inscrita há sete meses, Cristina Rodrigues tem apresentado algumas propostas polémicas

Cristina Rodrigues ganhou voz própria no Parlamento há sete meses, quando se desvinculou do PAN. Desde então, algumas das propostas que apresentou ganharam visibilidade, como foi o caso, há poucos dias, de um projeto para a criminalização de nudes divulgados sem consentimento. Mais visibilidade mediática que expressão legislativa - à luz dos regulamentos da Assembleia os deputados independentes não podem marcar agendamentos. Só o conseguem fazer por arrastamento, "colando" as suas iniciativas a petições ou projetos de outros partidos.

É o maior constrangimento que a deputada aponta nestes meses de atividade parlamentar, depois de ter batido com a porta no PAN. "Foi um capítulo que se encerrou, tenho muito mais liberdade, apesar de também existirem maiores limitações, seja no plenário, seja nas comissões. Mas tenho feito um esforço para não me focar tanto nas limitações", avalia a deputada.

Cristina Rodrigues elege como prioridades do seu trabalho, ao longo destes meses, a igualdade de género, o reforço dos direitos das mulheres, o setor da cultura. E uma questão que a acompanha "desde sempre" - a "agenda animalista". É precisamente este tema que tem feito saltar para os jornais algumas propostas, como a que apresentou em dezembro, quando propôs ao Governo a criação de um grupo de trabalho para dar resposta ao "crescente conflito entre gaivotas e humanos", e que fez multiplicar comentários nas redes sociais, na maior parte dos casos caricaturais. "Não esperava essa controvérsia. Julgo que se explicará pela forma como abordámos o assunto, pela utilização da palavra conflito... Porque as recomendações que fazemos são muito simples, é uma questão ambiental, um problema que afeta as pessoas em zonas em que há sobrepopulação de gaivotas. A questão chegou-nos através de autarcas", refere a deputada, antes de repetir - "Não percebo a controvérsia".

Acho que tenho tido a capacidade de apresentar outros temas a debate, que até agora nenhum outro deputado apresentou"

Meses antes, também fez brado a proposta que previa faltas justificadas em caso de luto ou para assistência a animais. A deputada contrapõe que as medidas não são, sequer, muito ambiciosas. "Foi uma questão que deu muito que falar, há quem o defenda acerrimamente e há quem não entenda de todo. Terá a ver com o facto de as pessoas terem mais ou menos empatia pelos sentimentos dos outros, até porque esta iniciativa tem a ver com a proteção das pessoas e dos trabalhadores", argumenta. "Estamos a falar de um dia de luto. Há pessoas para quem o animal de companhia tem uma enorme importância, há uma afetividade que justifica que a pessoa não esteja em condições de ir trabalhar no dia seguinte". É um dia, repete: "Não é uma coisa do outro mundo. Chegaram-nos muitas mensagens de apoio, de pessoas que se identificaram com a iniciativa".

No último Orçamento do Estado, com a aprovação do documento periclitante e o PS a contar todos os votos, Cristina Rodrigues - tal como Joacine Katar Moreira - acabaram por ganhar um inesperado protagonismo. É destas negociações que a deputada retira o que aponta como a maior conquista destes últimos meses, a criação de um projeto-piloto para a implementação de um programa de saída do sistema de prostituição. "Espero que venha a ser implementada o quanto antes. Sendo bem-sucedido pode vir a ter uma importância prática muito significativa."

Levar temas diferente à AR

A vida parlamentar ganhou por ter Cristina Rodrigues como uma voz independente? "Quero acreditar que sim. Acho que tenho tido a capacidade de apresentar outros temas a debate, que até agora nenhum outro deputado apresentou", diz a parlamentar, que não vê nenhum problema de representatividade no novo estatuto - "Represento todos os portugueses, como todos os deputados. Assumi que iria cumprir o programa pelo qual fui eleita e mantenho".

Cristina Rodrigues diz não sentir nenhuma espécie de isolamento na Assembleia, a relação com os outros partidos "funciona bem, há recetividade, já tivemos algumas aprovações". Mas, nas conversas que vai mantendo, não se inclui o PAN: "Nunca houve necessidade, a questão nunca se colocou".

Muito crítica das condições que são dadas aos deputados independentes, tem duas pessoas no gabinete, o que é "insuficiente". Somando todas as limitações, diz que "aquilo que parece, embora não o possa afirmar com certeza, é que há aqui uma tentativa de silenciamento dos deputados não inscritos, algum receio de que o estatuto se torne atrativo e que mais deputados acabem por optar por este estatuto". Mas faz um saldo positivo: "Acho que, apesar de tudo, fazemos um bom trabalho".

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