Luís Montenegro: "Não somos o partido da troika ou do pântano, quem os trouxe foi o PS"

Candidato à liderança do PSD afiança estar mais preocupado em "dar respostas às necessidades das pessoas" do que em debates "ideológicos ou crises existenciais". Pela primeira vez, assume que "foi um erro" ter concorrido contra Rui Rio, mas que foi "mal percecionado".

Já foi candidato à liderança do PSD e perdeu. Voltou a perder num Conselho Nacional que pretendia derrubar Rui Rio. Nas últimas diretas não foi a votos e ficou a ver a disputa entre Rio e Rangel. Agora é candidato outra vez, tem 49 anos, é advogado, e diz que quer liderar o PSD para poder vir a ser primeiro-ministro. As diretas do partido são a 28 de maio.

Diz que quer unir o PSD, mas já foi acusado pelo seu adversário - apesar de não o ter nomeado diretamente -, de ter sido um dos rostos da desunião, quando atacou Rio. Está arrependido desses últimos quatro anos?
Se há característica que me podem apontar ao longo dos últimos anos é ter sido sempre muito leal, direto, frontal com o meu partido. Estive sempre a dar a cara e sempre na primeira linha de combate, e desde que o dr. Rui Rio assumiu as funções de líder, como toda a gente reparou, fui ao congresso frontalmente, num órgão próprio do partido, olhos nos olhos, e disse-lhe que, no meu entendimento, a estratégia que ele estava a preconizar e a querer prosseguir, iria desembocar no insucesso eleitoral. Não vim aqui dizer que tenho razão, porque não me interessa nada estar a ajustar essas contas, não é isso que me move. Mas como a sua pergunta me reconduz para os últimos quatro anos de liderança partidária, o que posso dizer é que, desde essa altura, estive um ano em que não criei nenhum problema ao PSD, fiz esse desafio a que aludiu há pouco, no início de 2019, antes do ciclo eleitoral, europeias e legislativas. Era um desafio para realizarmos eleições diretas, o desafio não teve aceitação, houve um Conselho Nacional que não foi pedido por mim e uma votação que também não foi pedida por mim. Houve uma moção de confiança apresentada pelo próprio líder e, depois, consequentemente com aquilo que era a minha posição, dei a cara em 2019, após a derrota nas eleições legislativas. Portanto, se há coisa que não aceito é que coloquem em causa os meus princípios de respeito pela democraticidade interna do PSD, pela lealdade que é devida aos líderes e às lideranças.

Coloca o PSD no centro-direita e diz que essa é a casa de todos os não socialistas. O Chega cabe nessa casa de não socialistas?
O PSD foi sempre um partido com um largo espectro de atração. Não é um partido fechado numa ideologia muito ortodoxa e muito dogmática, é um partido que defende a iniciativa privada como motor da economia, defende - e bem -, o papel do Estado na regulação da atividade económica, e também no cumprimento das funções soberanas e das funções sociais. Dentro deste espectro, o professor Marcelo Rebelo de Sousa, quando era líder do PSD, costumava dizer que o PSD ia do centro-esquerda até ao centro-direita. Sinceramente, não estou muito interessado em dizer se estamos mais à esquerda, mais à direita ou mais ao centro, aquilo em que estou interessado é em dar ao país uma alternativa política ao socialismo. Este socialismo que governa Portugal há já seis anos, que governou sete anos com o engenheiro Sócrates, e que governou sete anos com o engenheiro Guterres, é um socialismo que tem sempre produzido maus resultados. Com Guterres chegámos ao pântano, com Sócrates chegámos à bancarrota, e com Costa chegámos à maior carga fiscal de sempre, a um nível de risco de pobreza antes de prestações sociais que é superior em seis pontos percentuais àquilo que era em 1995 (37% de risco de pobreza em 1995, 43% em 2020) e é um país de baixos salários, onde temos um milhão de pessoas a ganhar o salário mínimo nacional e onde o salário médio está cada vez mais próximo do mínimo. Portanto, é um país que não oferece oportunidades aos seus concidadãos, aos jovens, e que muitas vezes os impele a irem para fora.

"Os eleitores não são propriedade de nenhum partido [nem do Chega], os eleitores tomam a sua decisão, mediante as alternativas e lutarei por todos os eleitores."

Onde é que o Chega entra nas suas contas enquanto candidato a futuro líder do PSD?
O líder do PSD que quero ser, vai falar para todos os portugueses e tentar colher o apoio de todos aqueles que não se reveem nesta política socialista. Portanto, isso engloba todos aqueles que votaram no Partido Socialista e que, entretanto, se vão arrependendo porque as suas expectativas foram goradas, e vão acabar por concluir que a confiança que deram ao PS não se justifica no trabalho que é produzido pelo mesmo. E, obviamente, em todos aqueles que não votaram no PS, que votaram no PSD para que se continuem a fidelizar na nossa proposta política, assim como aqueles que votaram noutras forças políticas, no Chega, na Iniciativa Liberal, no CDS. Só no Chega e na Iniciativa Liberal estamos a falar de 673 mil portugueses que não se reviram no PS em 2022. No futuro reunir-se-ão numa alternativa ao PS que seja clara, com um projeto ambicioso, de futuro, e lutarei por todos esses eleitores. E devo dizer que quando me refiro ao PSD como casa-mãe do espectro político não socialista, refiro-me a todos aqueles que querem mudar de governo e querem uma política diferente, e sinceramente, esses não são propriedade de ninguém. Os eleitores, é bom que se diga, não são propriedade de nenhum partido, os eleitores tomam a sua decisão, mediante as alternativas que são colocadas nos momentos eleitorais, e lutarei por todos os eleitores.

Diz que Jorge Moreira da Silva, seu adversário, é seu amigo, mas o seu opositor lançou-lhe vários recados incluindo que ficou calado, muitas vezes, por conveniência. Como é ouviu essas palavras?
A primeira pergunta desta entrevista visou um comentário da minha parte sobre a perturbação potencial que eu teria causado à liderança do dr. Rui Rio. A pergunta que me faz agora é porque é que estive calado. Não é um problema dos entrevistadores, é um problema das considerações políticas que se fizeram e se fazem nesta campanha eleitoral.

E como leu essas considerações de Jorge Moreira da Silva?
Se há coisa de que não me podem acusar, é de não ter chamado à atenção do partido nos momentos certos. Depois, também é preciso notar que chamar à atenção dos erros não significa criar perturbação, significa ajudar o partido a corrigir aquilo que está mal.

O que é que o distingue de Jorge Moreira da Silva?
Em primeiro lugar, o PSD deseja ter uma liderança que seja capaz de mobilizar o partido, dar uma certa normalidade ao funcionamento interno, e isto significa contar com todos os militantes, com as suas estruturas locais, distritais, regionais, com os autarcas, contar com os que exercem funções nos governos e parlamentos regionais. Contar com aqueles que são hoje, chamemos-lhe assim, o nosso exército político, e através deles e da liderança do partido, sermos capazes de atrair novos quadros ao PSD. Pessoas que se vão distinguindo na sociedade e que podem engrandecer, quer as nossas reflexões e propostas, quer também, no futuro, governos, sejam locais, nos municípios ou autarquias, nas regiões autónomas, no governo da República. O PSD quer um líder que seja capaz de fazer esta reunificação de forças e apresentar propostas apelativas e distintivas do programa do PS. Considero ter essas condições e aquilo que me distinguirá é poder oferecer mais condições, mais segurança para cumprir esse desiderato. Do ponto de vista programático, ainda estamos a iniciar a campanha, haveremos de perceber melhor as propostas de cada um. Posso elencar as minhas: creio que o PSD será tanto mais forte e cumprirá a sua missão se tiver um discurso e mensagem política que fale diretamente às pessoas, que as possa fazer pensar que a nossa intervenção através do poder público vai melhorar a sua condição. Quero que o PSD fale aos jovens de Portugal, que possa dizer que temos políticas de habitação para, no mercado de aquisição ou no mercado de arrendamento, poder suprir uma das grandes dificuldades que hoje há em Portugal, nomeadamente nas zonas urbanas, de os jovens casais terem acesso a condições condignas de habitação, perto dos seus locais de trabalho, perto dos serviços públicos que lhes permitem, por exemplo, ter filhos, ter uma atividade complementar do seu exercício profissional condigna. E há uma barreira do ponto de vista de oferta e do ponto de vista do preço, o país precisa de olhar para esta questão, precisa de olhar para estes jovens e oferecer-lhes saídas profissionais adequadas às suas qualificações. Há muita gente que tem o esforço de concluir o seu ensino universitário, muitos até com o esforço de o complementar com mestrados ou doutoramentos, e depois não têm no mercado de trabalho a possibilidade de colocar em exercício aquilo que foram as qualificações adquiridas.

Quando fala de habitação, tem já em mente uma medida concreta?
Defendo que haja uma taxa de IRS máxima de 15% para os jovens entre os 25 e os 35 anos, porque isto permite-lhes ter um poder de compra muito mais adequado a pagar uma prestação ou uma renda de uma casa, uma consulta de pediatria quando têm crianças pequenas e também querem ter uma resposta dos serviços de saúde para aquelas que são as suas necessidades, no fundo um nível salarial que faz com que possam concluir que não precisam de sair de Portugal para cumprir o seu desígnio de subir na vida.

Vai contar com quem estiver contra si no day after das eleições? Se for o caso, chamará Jorge Moreira da Silva e outros quadros do partido para colaborarem consigo?
Sem sombra de dúvida. Tenho a certeza absoluta de que esta vai ser uma campanha com um nível substantivo de discussão política, enquadrável na grandeza de um grande partido como o PSD, de um partido estruturante da nossa democracia, verdadeiramente a única alternativa ao Partido Socialista. Independentemente das tensões próprias que são comuns numa campanha eleitoral, no dia 28 de maio à noite, vamos seguramente estar todos imbuídos do mesmo espírito de reanimar o PSD, de reerguer o PSD e de o colocar ao serviço de Portugal. E isso passará por contar com todos aqueles que participaram neste processo, incluindo os protagonistas da outra candidatura.

Também vai criar um governo sombra se for eleito? Isto parece-lhe uma boa ideia?
Temos hoje no PSD, e tenho de o reconhecer - é um dos aspetos positivos do legado da presidência de Rui Rio -, um Conselho Estratégico Nacional que funciona bem e que merece ser aprimorado. Tem equipas setoriais, produz pensamento, produz reflexão, que identifica quadros políticos um pouco por todo o país nas diversas áreas, e a minha intenção é não perder aquilo que foi bem feito. Independentemente das diferenças, não vou colocar em causa o que está bem feito, pelo contrário, vou aproveitar e esse é um legado.

Mas para si o Conselho Estratégico Nacional já é o governo sombra ou será criado a partir daí?
Cada um pode escolher a designação que entender e o próprio modelo. O que está na base da criação de um governo sombra é haver porta-vozes setoriais, os nossos protagonistas nas mais diversas áreas.

E isso parece-lhe uma boa ideia?
Parece-me uma ideia possível, como é possível também a ideia que temos hoje em funcionamento de termos coordenadores por áreas setoriais no Conselho Estratégico Nacional, assim lhes possamos dar a oportunidade de aparecerem no espaço mediático, a protagonizar o combate político. O combate político é escrutinar, vigiar com firmeza e com exigência a ação do governo do Partido Socialista e, naturalmente, apresentar ideias e pistas de reflexão para um futuro programa eleitoral do PSD.

E quando é que os seus homens desse suposto governo sombra ou Conselho Nacional poderão aparecer ou ter esse protagonismo?
Creio que muitos deles já são conhecidos. Sabem que tenho o professor Joaquim Sarmento a coordenar a redação da minha moção de estratégia, juntamente com o Pedro Duarte que foi quem fez esse trabalho há dois anos. O dr. Pedro Reis, a dra. Margarida Balseiro Lopes, a dra. Inês Domingos, o dr. António Leitão Amaro.

Haverá novos nomes até 28 de maio?
Com certeza. Não vou antecipar aquilo que é a minha perspetiva, mas tenho a certeza absoluta de que, desde os autarcas de referência do PSD, dirigentes regionais e distritais, muitos tomarão posição e saber-se-á qual a sua opinião sobre esta eleição.

Tem também o apoio de vários líderes de distritais, mas Rangel quase fazia o pleno e, mesmo assim, perdeu. Não teme que isso vire as bases contra si?
Não, de maneira nenhuma. Tenho, sobretudo, o apoio das bases do partido, não tenham dúvidas disso. Se há coisa que posso estar tranquilo é que o PSD conhece-me bem, aliás, o PSD conhece-me muito bem, e as bases do PSD também me conhecem muito bem.

Se há coisa que os militantes do PSD sabem, é que estive sempre próximo, percorri o país muitas vezes, e percorri-o desinteressadamente naquilo que era o cumprimento da minha missão, que na altura era de exercício de funções de deputado na Assembleia da República e, particularmente, durante seis anos, de líder parlamentar. Portanto, tenho sobretudo o apoio das bases do partido. Se há uma coincidência entre as bases do partido e os seus dirigentes, no caso, os dirigentes distritais, creio que sim. Se sempre foi assim e se é uma ciência exata? Não, e como referiu, nas últimas eleições não o foi.

"Se me perguntam se estou a dormir à sombra dos apoios, não, não estou, vou até ao fim do mundo para conquistar a confiança de um eleitor interno do PSD, não tenham dúvidas quanto a isso."

O baronato do PSD não está consigo ou o PSD já não tem baronato?
Não sei bem o que isso é. Para mim, essa expressão hoje faz sentido se atendermos aqueles que são as nossas referências no território e na relação com o eleitorado. E as nossas referências são, sobretudo, os autarcas, os presidentes de câmara municipal, os presidentes de junta de freguesia, os presidentes dos governos regionais, e aí, de facto, tenho um apoio massivo.

Se me perguntam se estou a dormir à sombra desses apoios, não, não estou, vou até ao fim do mundo para conquistar a confiança de um eleitor interno do PSD, não tenham dúvidas quanto a isso. Não vencemos eleições de véspera, ninguém ganha eleições antes do dia, e tenho consciência plena disso, não tenho nenhuma atitude de triunfalismo. Fico muito satisfeito por ter um apoio massivo, creio que isso dará nota para o meu trabalho futuro daquilo que é a conjugação de esforços em torno da liderança, mas isso não me tirará o esforço que farei de esclarecimento, em busca da confiança dos militantes.

E como é que vai o PSD conseguir fazer oposição perante um Governo que é de maioria absoluta e dois partidos aguerridos à direita?
Creio que devemos concentrar-nos, sobretudo, na primeira parte, que é cumprir o desígnio de fazer oposição ao governo.

Mas os outros dois roubam espaço ao PSD.
Os outros dois farão o seu trabalho e teremos de ter a maturidade democrática de compreender isso. Não fomos nós que os elegemos, não votei na IL nem no Chega, mas houve portugueses que o fizeram, 273 mil votaram na IL e 399 mil no Chega. O nosso trabalho no PSD, vai ser concentrarmo-nos na oposição ao governo do PS, na demonstração dos erros de governação, muitas vezes das omissões, porque adiam a resolução de problemas e convivem bem com a estagnação. O dia a dia é apenas o horizonte da governação, não há uma perspetiva de futuro, de colocar o país a cumprir metas daqui a dez ou vinte anos.

Temos um problema demográfico gravíssimo, um problema de mão de obra gravíssimo em todos os setores e não há um programa nacional de recrutamento, acolhimento e integração de imigrantes. Tenho falado muito disto, sei que muito pouca gente dá atenção a isto, embora agora se olhe mais para esta questão, fruto da vicissitude de termos refugiados vindos da Ucrânia, que são qualificados, e que chegam a Portugal, são bem acolhidos e entram no mercado de trabalho muito rapidamente, é muito sintomático daquilo que o país tem de fazer. Temos de olhar para o mundo e temos de perceber onde estão as faixas de pessoas que têm ambição de ter uma vida melhor e que têm qualificação que cumpre aquilo que são as necessidades de Portugal. Temos de saber ir buscar essas pessoas, atraí-las para cá, e dar-lhes condição de saúde, habitação, educação, para que elas se possam aqui manter. Porque com o definhamento na natalidade, com os problemas demográficos que temos de médio prazo, a nossa economia não vai ser competitiva, não sendo competitiva não vai gerar riqueza, e não gerando riqueza o Estado não vai poder estimular mais crescimento e estimular mais apoio para aqueles que mais precisam. Com uma agravante: há sistemas públicos que sofrem de forma incontornável e imprevisível, como a Segurança Social.

Tendo a Iniciativa Liberal e o Chega à direita, como vai fazer: reformar o PSD, refundar o PSD ou vai buscar os tais votos do centro que estão hoje no Partido Socialista?
Somos um partido moderado, que deve ser um partido pragmático no que o termo carrega de positivo. Isto é, o pragmatismo na política significa acudir aquelas que são as necessidades que as pessoas sentem no dia a dia, ao que os jovens ambicionam, ao que a classe média ambiciona, ao que a administração pública ambiciona. Os funcionários públicos, por exemplo, são maltratados; hoje mesmo na administração pública, um técnico superior é capaz de não ganhar mil euros, não há condições de motivar as pessoas que prestam serviço na administração pública para cumprirem esse desígnio de servirem o cidadão, a economia e as empresas, com um nível salarial destes. Mais: não quero que a administração pública portuguesa possa ser o repositório daqueles que encontram uma oferta profissional noutro sítio. Ou seja, também naquilo em que o Estado é a entidade empregadora, temos de contratar os melhores, dar-lhes condições de progressão na carreira para cumprirem os seus objetivos de crescer e progredir.

Um partido com esta vocação de moderação, mas também de conquista de um espectro político alargado, conseguirá ao mesmo tempo, ir ao Partido Socialista recrutar eleitores que se vão sentindo frustrados pela ausência de resposta daquilo que foi o seu voto no passado e, ao mesmo tempo, reencontrar-se este partido com aqueles eleitores que perdemos para a Iniciativa Liberal e para o Chega.

"O PSD cometeu um erro gravíssimo, diria mesmo um erro clamoroso, de andar com problemas existenciais, crises existenciais. Não contem comigo para complexos ideológicos, nem para crises existenciais. "

O PSD parece andar distraído com se se coloca mais ao centro-esquerda, centro-direita, mais liberal. Isso não prejudica a perceção que o eleitorado tem do PSD? Acaba por ser um partido de tanta coisa que depois não é de ninguém?
Prejudica. O pressuposto da sua pergunta está corretíssimo. Não devemos perder tempo a discutir se estamos mais à esquerda, mais à direita, se somos mais liberais, etc.. Somos um partido que é liberal na economia, mas não é tão liberal que não entenda que o Estado não tem um poder de regulação, um poder que visa estruturar mesmo o funcionamento da economia, de maneira a não haver desvios. E somos, simultaneamente, um partido que tem preocupações sociais. A partir daí, se tivermos opções políticas que se concretizem e materializem em resultados práticos na vida das pessoas, que as pessoas sintam que as nossas decisões e propostas vão impactar positivamente a vida delas, vão permitir que elas cumpram os seus objetivos, se conseguirmos isso, não precisaremos de andar com essa discussão.

O PSD cometeu um erro gravíssimo, diria mesmo um erro clamoroso, de andar com problemas existenciais, de andar com crises existenciais nos últimos tempos. Já tenho dito e repito: não contem comigo para complexos ideológicos, nem para crises existenciais no PSD. O PSD está aqui para servir as pessoas, para servir aqueles que são os mais dinâmicos da sociedade, trazê-los para junto de nós, trazê-los para esse objetivo que é pôr Portugal a fazer as coisas melhor que os outros. Em Portugal, devemos fixar um objetivo claro: uma década de crescimento de 4% ao ano, pelo menos. Temos de ter uma década de crescimento.

Mas isso não se faz por decreto.
Claro que não se faz por decreto, faz-se apostando nas qualificações, apostando na atração de investimento estrangeiro, estimulando o investimento com menos carga fiscal, para que os investidores possam trazer para aqui os seus recursos e o seu capital, temos de ter mão de obra, porque se não houver mão de obra não há competitividade, temos de melhorar os nossos níveis de produtividade, e temos de ter bons salários. A política salarial é muito importante aí, e para termos bons salários temos de ser mais produtivos, mais competitivos e ter mais crescimento. E tudo isto se faz, também, pela ação do Estado, pela reforma do Estado dentro de si mesmo, e pelo estímulo que o Estado pode lançar para a sociedade.

Concorda que há um certo consenso nacional para subir salários?

Em termos de propósito, acho que sim, em termos de forma como isso se pode fazer, aí é que há várias diferenças. Temos, este ano, um problema acrescido, temos uma taxa de inflação que é muito superior àquilo que era expectável há um ano. Já está a subir desde o verão passado, mas hoje a projeção que o orçamento tem é 4%, quase toda a gente entende que vai ficar aquém daquilo que depois será o resultado final. E temos um aumento salarial na administração pública de 0,9%, nas empresas privadas teremos de esperar e acompanhar aquilo que são as suas decisões, mas há uma coisa que é inevitável: já toda a gente percebeu que os portugueses vão perder poder de compra. Se vão perder poder de compra, além dos salários serem baixos, temos um duplo problema. Mas há uma questão que julgo que ainda ninguém colocou e que deve ser colocada ao país: quando há uma alta taxa de inflação e, portanto, os preços sobem, há também um aumento da receita fiscal, nomeadamente da tributação sobre o consumo. E aquilo que é preciso hoje dizer ao governo e ao Partido Socialista é o que é que o Governo tenciona fazer com a almofada financeira que resulta de uma previsão da receita fiscal feita com base numa determinada taxa de inflação, se essa taxa de inflação for superior, a receita fiscal vai, em princípio, ser também superior. Como é que o governo tenciona utilizar essa almofada? E digo já que há em Portugal 500 mil pessoas que não entregam declaração de IRS e há dois milhões e meio de pessoas que não pagam IRS porque, infelizmente, não têm rendimentos para isso, e depois há, grosso modo, dois milhões de pessoas que pagam IRS. Podia dizer-se que aquilo que se vai cobrar a mais em termos fiscais é devolvido em sede de IRS, mas como temos estes dois escalões de pessoas que não pagam, essas nunca seriam beneficiadas porque já não pagam.

E como usaria essa almofada?
Creio que seria útil estudar a possibilidade de dar a essas pessoas um valor, um vale, para que elas possam utilizar o dinheiro dessa folga orçamental para o acesso a bens essenciais, nomeadamente à energia e ao cabaz alimentar, que são aquilo que no dia a dia mais preocupa e apoquenta os portugueses que têm mais baixo rendimento.

Não estar no Parlamento pode condicionar a sua exposição pública e dificultar a oposição? Teme um grupo parlamentar hostil?
Estarei no Parlamento, o líder do Partido Social-Democrata não está inibido de ir ao Parlamento e de dialogar com os seus deputados, e de frequentar o Parlamento.

Mas não foi eleito deputado.


Mas vou frequentar o Parlamento. Conceder-me-ão a possibilidade de dizer isto: conheço o Parlamento muito bem e, portanto, suprirei a minha ausência dentro da sala do plenário, com uma participação na vida parlamentar por via daquilo que é a dinâmica partidária que há dentro daquelas quatro paredes, que naturalmente são quatro paredes que envolvem em si mesmas o exercício de um poder soberano que não desconheço. Portanto, estarei perto dos deputados, e como tenciono estar muito perto deles e trabalhar com eles, como tenciono dialogar com eles de forma muito permanente, tenho confiança de que, tal como consegui no passado, vou tornar a conseguir ter um grupo parlamentar coeso, unido, e absolutamente concentrado naquilo que é o nosso desafio de conquistar o país e de darmos a Portugal uma alternativa nos próximos anos.

Qual considera que foi o seu maior erro político nos últimos 20 anos?
Não estou arrependido de ter feito um desafio à liderança do PSD em 2019, mas tenho a humildade de reconhecer que a perceção que as pessoas tiveram, mesmo dentro do partido, sobre essa minha tomada de posição, não correspondeu ao que era a minha expectativa. Desse ponto de vista, poderei dizer que objetivamente se tratou de um erro, mas, repito, não estou arrependido, porque o que me motivou naquela altura foi chamar à atenção para um caminho que, do meu ponto de vista, iria conduzir a desaires eleitorais. E até posso dizer que não me enganei, mas não é isso que interessa. A perceção que as pessoas tiveram foi que eu não tinha respeito pela legitimidade da liderança e que tinha, no fundo, contribuído para enfraquecer a proposta política do PSD. Não era a minha intenção, repito, fiz o que fiz de forma leal e frontal, mas as coisas na política não são só aquilo que queremos, também são muitas vezes o que as pessoas percecionam que queremos.

Já disse isso a Rui Rio?
Não, não disse ao Rui Rio, por acaso nunca lhe disse, mas acho que já disse isto em público uma outra vez, talvez não com a clareza que estou a dizer agora, mas também nunca me foi perguntado, curiosamente. É uma pergunta pertinente e interessante que nunca me tinha sido colocada dessa maneira, não tenho nenhum problema em responder às perguntas todas e também respondo a essa. Acho que mais que dizer ao Rui Rio, é mais preciso dizer aos militantes do PSD e aos portugueses, porque também é importante para mim que as pessoas me conheçam cada vez melhor, dentro e fora do partido.

Há pouco dizia que o PSD cometeu um erro dramático, a questão das crises existenciais. Queria recordar que Guterres governou durante seis anos, o PSD três anos e meio com Durão Barroso e Santana Lopes. Depois, Sócrates sete anos, Pedro Passos Coelhos quatro anos, e agora vai para uma década de Partido Socialista quando esta legislatura chegar ao fim. Qual é o grande erro do PSD, além deste, para que os portugueses não confiem no PSD e tenham confiado nos líderes do PS para governar durante tanto tempo nas últimas duas décadas e meia?
Do ponto de vista da análise quantitativa, é exatamente como disse, 27 anos desde 1995, 20 anos de governo PS, sete anos de governo PSD. Do meu ponto de vista, aconteceu que fomos para o governo, embora haja situações muito particulares, nomeadamente em 2015, nem sequer perdemos as eleições, fomos para a oposição, mas ganhámos as eleições. Tirando essa parte, o que interessa na análise é olhar para o quadro, e o que a mim mais me preocupa é que essas duas passagens pelo governo deram a uma faixa muito significativa da população, uma ideia da intervenção do PSD que está desvirtuada, está adulterada. O PSD esteve dez anos no governo com o professor Cavaco Silva, em dez anos transformámos o país, cumprimos o nosso programa político naquilo que dentro das circunstâncias da época era o exequível.

Mas Cavaco deixou de ser primeiro-ministro há 26 anos e o PSD ainda está a evocar essa herança para justificar que merece votos?
Mas vai perceber porquê. Nós infraestruturámos o país, abrimos a comunicação social ao privado, demos o décimo quarto mês aos pensionistas, tivemos um programa de erradicação de barracas que foi o maior programa de intervenção no mercado habitacional de sempre em Portugal. Desde essa década, de 1985 a 1995, nunca mais tivemos a oportunidade de mostrar ao povo português o que é o benefício de ter um governo PSD. Há gerações que já nem sabem o que é esse período porque não o viveram. O que quero dizer é que temos de ter a capacidade de olhar para as outras duas experiências governativas que foram de recuperação, não governámos em tempos de normalidade. Com Durão Barroso, entrámos e tivemos o primeiro procedimento por défice excessivo desde que aderimos ao euro, e depois com Passos Coelho tivemos a bancarrota de Sócrates. Portanto, pântano de Guterres, bancarrota de Sócrates. O que é que o PSD fez? Arrumou a casa. Qual é a imagem que os portugueses têm de nós? Que somos muito bons a arrumar a casa. Mas o que quero é que os portugueses saibam que não somos só muito bons a arrumar a casa. Claro que se a casa estiver desarrumada, temos de a arrumar, mas o ideal era que não estivesse desarrumada e que os socialistas não nos deixassem outra vez numa situação de vulnerabilidade. Mas nós temos um programa político de transformação, de reformismo. É um grande desafio, mas estou muito motivado para o cumprir e tenho a certeza que sou capaz de o cumprir. Quero que os portugueses percebam que nós não somos o partido nem da troika, porque quem trouxe a troika foi o PS, não somos o partido do pântano, porque quem levou o país para o pântano foi o PS, nós somos o partido que muda a vida das pessoas. Não estamos aqui só para ter desígnios macroeconómicos e financeiros, não existimos para ter contas certas ou crescimento económico, isso é apenas o caminho para podermos ter recursos para ter justiça social, igualdade de oportunidades e um projeto de felicidade para cada cidadão.

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