Luís de Sousa: "Há muitos candidatos que sentem a ausência dos líderes"

O investigador do Instituto de Ciências Sociais (ICS), especializado em poder local, admite que em certas situações a presença dos líderes partidários no terreno possa prejudicar alguns dos seus candidatos.

Nas eleições autárquicas é importante a presença dos líderes partidários no terreno?

O acompanhamento das eleições autárquicas por parte dos líderes partidários sempre existiu, mas na atualidade há uma maior cobertura mediática a nível nacional e isso dá-lhes um novo palco. Sem perturbarem as causas locais falam para que isso tenha um peso no voto dos eleitores, e que não se fique só pelos problemas do jardim ou da rua, mas que tenham enquadramento em áreas como a educação e a saúde. Por exemplo, todos os municípios da Área Metropolitana de Lisboa sentem o peso do que está perto, o peso do governo, e ganham um peso porque podem dar indicação para novos candidatos às lideranças ou até para a Presidência da República.

A presença de alguns líderes no terreno pode em algum momento ser prejudicial a algum dos candidatos?

Se o líder estiver em desgraça pode ter efeitos negativos ou se o partido não tiver grande recetividade nesse município. O que muitas vezes obriga as candidaturas a disfarçar, até nos cartazes, onde não se colocam as caras dos líderes ou até se mudam as cores do partido para outras. Essas questões do design são discutidas e não são menores na campanha. Mas há também muitos candidatos que a nível local sentem a ausência das lideranças partidárias, sentem que não há apoios, que são carne para canhão ou para moer. Os cálculos são feitos sobre as probabilidades de alternância de poder e quando não há essa probabilidade as lideranças não dão o apoio e isso, no fundo, é uma falta de investimento na alternativa que se constrói. Apesar das estruturas partidárias terem órgãos regionais e representantes eleitos pelos círculos que deveriam estar dispostos a fazer esse acompanhamento aos candidatos e a enaltecer o poder local, isso nem sempre acontece.

A pandemia alterou muito essa interação dos líderes com as autárquicas?

A dinâmica da campanha foi alterada. O que me preocupa é que tivemos mais de um ano para nos prepararmos para alterar estratégias para chegar às pessoas e não foram acionadas. Por exemplo, voltar a recuperar o papel dos interlocutores que se perderam, como as rádios e a imprensa local.

Quem tem mais a perder e a ganhar nestas eleições?

A grande expectativa é a de que o PS saia reforçado nestas eleições. O PSD tem mostrado incapacidade de recuperar o que já foi do PSD, em tempos considerado o partido mais português pela sua representação local. Também há uma grande expectativa em relação ao PCP sobretudo na periferia da Área Metropolitana de Lisboa e no Alentejo onde há o receio de que outras forças possam ganhar maior expressão e com a tendência de ser ultrapassado pelo PS nalguns municípios. Mas são 308 e três órgãos autárquicos eleitos em todos eles, é difícil ter uma bola de cristal para saber o que irá acontecer. P.S.

paulasa@dn.pt

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