Luís Amado: o actual problema reside na própria coesão

O ex-ministro socialista Luís Amado considerou hoje que a comunicação do primeiro-ministro ao país foi um desastre político e o atual problema já não se relaciona com o consenso com o PS mas com a própria coesão da maioria.

"A forma como está a ser gerida a comunicação do primeiro-ministro ao país é um desastre do ponto de vista político, na medida em que aliena grande parte dos apoios que a própria maioria tinha", disse hoje em declarações à Lusa e Antena 1 o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo do Partido Socialista (PS), Luís Amado, antes de frisar que ainda não tinha ouvido a declaração de hoje à tarde do ministro das Finanças, Vítor Gaspar.

"Tem havido dissensões e críticas no bloco da maioria que apoia o Governo, que minam a autoridade do Governo e que põem em causa a credibilidade de futuras decisões que o Governo venha a tomar", insistiu Luís Amado, que proferiu uma conferência no auditório da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) no âmbito do 11º aniversário dos ataques do 11 de setembro nos Estados Unidos.

Para o antigo chefe da diplomacia do Governo de José Sócrates, a atual situação põe em causa os consensos sociais e políticos para garantir a estabilidade governativa a prazo, e que satisfaçam as expectativas dos credores.

"O Governo geriu a situação de uma forma desastrosa do ponto de vista político na medida em que alienou o consenso e o compromisso político necessário para garantir a estabilidade de que a sociedade portuguesa necessita para o mais rapidamente possível podermos garantir o financiamento em condições normais da nossa economia e evitarmos uma situação de bancarrota", sublinhou.

Ao definir a atual situação como "séria, grave e preocupante", Luís Amado considerou que o PS tem "assumido as suas responsabilidades" e permanece um partido que possui "a exata noção do que é a responsabilidade de governar, e para mais num contexto de crise", preferindo apontar baterias noutra direção.

"O problema hoje está na capacidade de a maioria garantir o apoio ao orçamento (...) Na sequência da intervenção do primeiro-ministro na sexta-feira, o problema não é o PS, o problema é de facto a coesão da maioria, não apenas dos dois partidos que compõem a coligação mas também a coesão do bloco sociológico e político que representam", disse.

E precisou: "A frente de reações negativas que se levantou dessa área um pouco por todo é país é muito preocupante. É muito difícil pedir um consenso às centrais sindicais, aos partidos da oposição, quando as críticas dentro do bloco da maioria são tão contundentes como as que se têm verificado".

Numa reação às suas recentes declarações, onde defendeu a necessidade de estabilidade política num contexto de crise, e que também deveria ser garantida pela atual liderança do PS, Luís Amado admitiu serem "lógicas" as últimas posições dos dirigentes socialistas.

"É difícil não ouvir da parte dos responsáveis do PS reações diferentes das que tiveram, na sequência do conjunto de reações que houve dentro do próprio bloco da maioria. E porque seguramente as opções têm também uma linha de definição ideológica e política que à partida inviabilizam qualquer solução de compromisso ao centro e ao centro-esquerda", argumentou.

Nesta perspetiva, Luís Amado considera que a situação política "se agravou extraordinariamente nos últimos dias do ponto de vista político e deve merecer a preocupação de todos". Mas alertou que não deve ser destruído "todo o trabalho que foi feito, porque o que restará no fundo são ainda mais sacrifícios".

O ex-ministro alertou ainda para a necessidade de gerir a atual situação "com muito cuidado", recordando que já conheceu situações similares quando assumia responsabilidades governativas.

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