Lisboa derrota PS. Cartão amarelo para António Costa

O PS continuou ontem a ser o partido com mais presidências de câmaras municipais e com mais presidências de juntas de freguesia, reunindo portanto condições para manter a presidência da ANMP e da Anafre. Contudo, perdeu Lisboa - e com isso, apesar de continuar a ser o maior partido, foi também o que mais perdeu. No PCP, Jerónimo de Sousa reconheceu que o partido ficou "aquém dos objetivos". Bloco continua a manter-se como inexistência autárquica.

À hora do fecho da edição de hoje do DN, pela 1h00 da madrugada, o PS mantinha-se como a força autárquica mais forte. Liderava a tabela classificativa dos presidentes de câmara com 121 eleitos, contra 89 para o PSD.

Contudo, os socialistas estavam em perda um pouco por todo o lado, com importantes cidades já tendo tombado para o PSD (Funchal e Coimbra eram os principais exemplos).

A isto somava-se uma situação de enorme tensão em Lisboa. De facto, ninguém podia assegurar nada exceto que o recandidato socialista, Fernando Medina, se encontrava numa situação de grande aflição, podendo a capital cair para a coligação PSD-CDS-Aliança-MPT-PPM liderada por Carlos Moedas.

Às 21h00 deste domingo, as primeiras projeções televisivas apontavam para uma situação de empate técnico e quatro horas depois a situação assim se mantinha - sabendo-se no entanto que as listas de Moedas estavam a conquistar juntas de freguesia às listas dos socialistas. Às 2.00 da madrugada de hoje, Fernando Medina assumia a derrota ( "uma derrota pessoal, minha") - um resultado que absolutamente nenhuma sondagem anteviu.

Horas antes, pelas 23h30, a coordenadora autárquica nacional do PS, Maria da Luz Rosinha, falava aos jornalistas na sede do partido para assegurar que os socialistas iriam ter um resultado que lhes permitira manter a presidência da Associação Nacional dos Municípios Portugueses (ANMP) e da Associação Nacional de Freguesias (Anafre).

Numa declaração sem direito a perguntas por parte dos jornalistas, Maria da Luz Rosinha sustentava que, nestas eleições, as perdas e os ganhos dos socialistas, eram "absolutamente equivalentes". "Isso deixa-nos tranquilos", declarou.

De acordo com a secretária nacional do PS, pelos resultados já conhecidos, o seu partido "continua a ser o maior ao nível autárquico de Portugal". "Continuamos a pretender efetivamente - e os dados comprovam-no - ganhar a ANMP e a ANAFRE. Mas a noite ainda vai ser longa. Todos temos consciência de que estamos perante uma contagem de muitos votos, com alguma complexidade e, como tal, ainda irá demorar algum tempo."

Perda garantida era já nessa altura Coimbra, ficando assim os socialistas também sem o autarca que nos últimos dois mandatos presidiu à ANMP, Manuel Machado. Para o seu lugar, o PS deverá agora indicar o presidente da câmara de Vila Real, Rui Santos. Na lógica de perdas e ganhos em termos de conquistas de câmaras, na direção do PS salientavam nessa altura vitórias em concelhos como Espinho, Valença, Freixo de Espada à Cinta, Penela, Monchique, Castanheira de Pera, Vila Nova de Cerveira, ou Mortágua, sobretudo em relação ao PSD.

António Costa, esse, mantinha-se fechado no seu gabinete, reunido com o secretariado nacional do partido, sem falar aos jornalistas. Horas antes, quando entrava na sede - ainda antes de as urnas fecharem no continente (20h00) -, tinha tentado mostrar-se confiante.

Segundo dizia, o PS poderia a ser o primeiro partido a ganhar por três vezes consecutivas as eleições autárquicas (2013, 2017 e agora 2021). Sintetizava também o que é ganhar e perder: "Ganha as eleições autárquicas o partido que vencer o maior número de câmaras e de freguesias. Julgo que hoje poderá ser a primeira vez que um partido, o PS, ganha por três vezes seguidas eleições autárquicas, tendo o maior número de câmaras e de freguesias."

Aparentemente já tendo indicações de que Lisboa poderia ser um caso perdido, o chefe dos socialistas desvalorizava resultados individuais, sublinhando os grandes números: "O PS não está preocupado com esta ou com aquela cidade, mas está sim preocupado em manter as câmaras que tem."

Perto da 1.00 da madrugada, falava aos jornalistas para sublinhar que garantidamente o PS continuaria a ser a maior força, tendo nessa altura já 150 presidências de câmara: "Os portugueses renovaram a confiança no PS", dizia, porque "o PS continua a ser o maior partido autárquico nacional." Reconhecia no entanto que o partido poderia perder a capital, explicando isso com transferências do voto do PS para a CDU (e não com transferências do PS para o PSD).

Pareceu assim ser a enorme vantagem do PS conquistada há quatro anos (160 presidências de câmara contra 98 para o PSD) que manteve ontem os socialistas em vantagem no computo geral. Além de Lisboa, o PS perdeu câmaras como Coimbra e o Funchal. E ainda, entre outras, Pedrógão Grande, Reguengos, Penacova, Góis, Santa Cruz da Graciosa, São Roque do Pico, Figueira de Castelo Rodrigo e a Figueira da Foz (para o regressado Pedro Santana Lopes, que mais uma vez provou que foi precipitada a notícia da sua morte política).

Sendo certo que corriam rumores de que o PS poderia conquistar à CDU câmaras tão importantes como Setúbal ou Loures, a verdade porém é que, à hora do fecho da edição de hoje do DN, esses resultados não estavam confirmados. E, mais uma vez, o que contava acima de tudo era perceber Lisboa - e Lisboa caiu para o PSD.

"Não estou satisfeito com o resultado, não estou. Temos muito que avaliar, refletir, mas sempre com um sentido de que é preciso reforçar a CDU, como vamos fazer, refletindo sobre o que fizemos de menos bem."

À esquerda do PS, no PCP, a noite vivia-se com enorme tristeza. O partido falhara genericamente o objetivo de reforçar a sua votação (24 presidências de câmara em 2017). E não só não cresceu - exceto eventualmente em Lisboa, como salientou o candidato João Ferreira - como até perdeu bastante força. Alpiarça caiu para o PS, Montemor-o-Novo também e ainda Mora (estas duas últimas autarquias ininterruptamente comunista desde 1976). Perdas que as conquistas de Barrancos e Viana do Alentejo (ao PS) não compensavam.

Falando aos jornalistas, Jerónimo de Sousa reconheceu a derrota. "Não estou satisfeito com o resultado, não estou. Temos muito que avaliar, refletir, mas sempre com um sentido de que é preciso reforçar a CDU, como vamos fazer, refletindo sobre o que fizemos de menos bem", disse o líder comunista - mas não sem ao mesmo tempo salientar que a CDU continuava a ser a terceira maior força autárquica.

Já no Bloco de Esquerda, a constatação era a mesma de sempre: o partido continua a ser uma inexistência de autárquica. Catarina Martins sublinhou apenas a possibilidade de o BE passar a ter um vereador no Porto e assegurava ao mesmo tempo, pela enésima vez, que os bloquistas estariam dispostos, em Lisboa, a entendimentos com Medina - mas só com Medina ("não negociamos com a direita").

À hora do fecho desta edição, a abstenção apontava para valores na ordem dos 45% - portanto em linha com os valores de 2017. Ao votar, em Celorico de Basto, o Presidente da República expressaria a sua perplexidade face a pessoas que decidem não votar.

"Nos fundos europeus, a parte mais significativa vai ser gasta durante os quatro anos pelos autarcas que são escolhidos hoje" e por isso "não votar nestas eleições é uma coisa difícil de entender". Insistindo no apelo à mobilização, afirmava: "As pessoas perceberam, com aquilo que aconteceu durante a pandemia, que os autarcas são insubstituíveis. Agora, com a crise económica e social, são os autarcas que vão ter a responsabilidade de gastar boa parte do dinheiro do Orçamento do Estado, o dinheiro dos fundos europeus."

joao.p.henriques@dn.pt

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