Líderes do PSD e do CDS tentam proteger-se isolando o Chega 

Para se defenderem de ataques internos, Rui Rio e Francisco Rodrigues dos Santos resolveram iniciar um caminho de demarcação do Chega. Falta saber se é suficiente.

O CDS-PP vai reunir o seu Conselho Nacional ("parlamento" do partido) para discutir as eleições presidenciais. A reunião ocorrerá com a liderança de Francisco Rodrigues dos Santos ("Chicão") sob forte ataque interno - situação que poderá ir ao ponto de uma clarificação em congresso.

O resultado de André Ventura, líder da extrema-direita parlamentar, nas eleições presidenciais de domingo passado (11,9%, quase meio milhão de votos) foi o gatilho da crise interna.

Logo na noite eleitoral, Paulo Portas deu sustentação, por antecipação, a um movimento que dentro do CDS-PP pusesse em causa a liderança de Francisco Rodrigues dos Santos.

Fê-lo dizendo na TVI que os resultados revelaram, pela primeira vez, que "há um populista, de direita extrema ou extrema-direita, consoante os dias, que tem dois dígitos". Ora isto - acrescentou o líder que conseguiu para o CDS-PP alguns dos melhores resultados da sua história e ainda levar o partido duas vezes para o Governo, em 2002 e 2011 - "representa uma questão séria para o PSD". Mas "ainda mais para o CDS".

Isto foi no domingo. Na terça-feira, Adolfo Mesquita Nunes, antigo nº 2 do partido durante a liderança de Assunção Cristas, assinou um artigo no Observador pondo frontalmente em causa a capacidade de Francisco Rodrigues dos Santos para salvar o partido de ser ultrapassado pelo Chega.

"A crise de sobrevivência que o CDS hoje atravessa não conseguirá ser resolvida com esta direção", escreveu Mesquita Nunes, para sustentar a exigência de uma reunião do Conselho Nacional que "discuta se se deve devolver a palavra aos militantes através de um congresso eletivo". A seguir começaram as demissões na direção.

Para tirar sustentação aos críticos internos da linha de Mesquita Nunes, "Chicão" alinhou num pré-acordo autárquico com Rui Rio que, por ora, tem uma única determinação: as coligações do PSD com o CDS para as câmaras nunca incluirão o Chega.

O acordo dá pretexto ao líder do CDS para dizer que não está subordinado ao Chega. Mas também serve a Rui Rio para isolar os que, no partido, já começaram a falar na necessidade de entendimentos autárquicos do PSD com o Chega.

Foi o caso de Miguel Morgado, deputado e antigo assessor de Pedro Passos Coelho - e que em tempos até ponderou ser candidato à liderança do PSD contra Rui Rio.

Numa nota no Facebook, Morgado advogou a possibilidade de acordos autárquicos do PSD com o Chega, nomeadamente no Alentejo. David Justino, vice de Rio na direção do partido, esclareceu então, imediatamente: "Ventura representa o pior que há na política. Com este Chega é impossível conversar."

Açores. Ventura ameaça romper

André Ventura reagiu ontem à promessa do PSD e do CDS de não incluírem o Chega em acordos para as autárquicas com ameaças veladas de retirar o apoio do seu partido à governação do PSD nos Açores (os dois deputados regionais do partido permitiram aos sociais-democratas ter maioria para fazerem governo, apesar de o PSD ter ficado em segundo lugar nas últimas legislativas regionais).

Considerando-se vítima de "bullying político" por parte do PSD e do CDS, Ventura acrescentou: "Ou há respeito por esta formação ou nós continuaremos o nosso caminho sozinhos e retiraremos daí todas as consequências a nível regional, a nível nacional e nas autárquicas em outubro a nível local."

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