José Sócrates acusa direção do PS de "canalhice"

O antigo primeiro-ministro rejeitou ainda a ideia de que Ivo Rosa o leva a julgamento por corrupção. "Não me declarou corrupto!"

Como era de esperar, a primeira entrevista de José Sócrates após a decisão de o juiz Ivo Rosa o levar a julgamento por seis crimes foi de defesa acalorada da sua inocência e um ataque à direção do PS, com a mira em António Costa. Em entrevista ao Jornal das 8 da TVI, o antigo primeiro-ministro afirmou que ouviu com "repugnância" as declarações de Fernando Medina, presidente da Câmara de Lisboa, quando este afirmou que o seu caso "corrói a democracia".

Sócrates fez questão de dizer que na realidade quem contava era o "mandante" de tais declarações, que disse ser a direção do PS. E ainda que não tenha nomeado António Costa, era a ele que se referia, acusando-o de "querer uma condenação sem julgamento e sem a presunção da inocência". E foi mais longe: "Essas declarações são de uma profunda canalhice!"

Durante a hora anterior, o ex-governante tinha feito toda a sua defesa. Considerou "ilegítimo" ter sido acusado de um crime que desconhecia, o de "corrupção sem ato concreto", ao ter recebido verbas em numerário das mãos do seu amigo Carlos Santos Silva, gestor do grupo Lena.

"Durante sete anos defendi-me de outro crime. De que eu era testa de ferro do engenheiro Carlos Santos Silva. Provei que era falso, que aquele dinheiro pertencia legitimamente a Carlos Santos Silva", argumentou Sócrates. "Ninguém pode ir a julgamento sem lhe ser comunicado uma qualquer conduta criminosa", defendeu-se.

Defendeu que esse crime, que o juiz Ivo Rosa apelidou de "mercadejar" com o cargo de primeiro-ministro, nunca existiu na acusação. "É falso, absolutamente injusto para mim e para o engenheiro Carlos Santos Silva", disse, reiterando que nunca praticou qualquer ato de favorecimento do "amigo".

"Durante sete anos defendi-me de outro crime. De que eu era testa de ferro do eng.º Carlos Santos Silva. Provei que era falso, que aquele dinheiro pertencia legitimamente a Carlos Santos Silva"

Mesmo o que fez pelo grupo Lena, após ter deixado o cargo de primeiro-ministro assegurou que nada tem de ilegal. "Vários empresários me pediram ajuda".

"Enquanto exerci o cargo de primeiro-ministro não houve um ato contrário ao exercício desse cargo", disse e insistiu na ideia de que recebeu apenas ajuda do "amigo", em 2013 e 2014, quando foi para Paris fazer mestrado e já depois de ter deixado a liderança do governo. "Isso é um assunto que diz respeito a mim e a Carlos Santos Silva". Os empréstimos, garantiu, totalizara, 560 mil euros, muito longe dos valores apontados pela acusação.

"Enquanto exerci o cargo de primeiro-ministro não houve um ato contrário ao exercício desse cargo"

O antigo primeiro-ministro mostrou-se irritado com as perguntas do jornalista sobre a conta do BES, em nome de Carlos Santos Silva, que segundo a acusação seria dinheiro do próprio José Sócrates. "Não chega já José Alberto Carvalho?", questionou o entrevistador. "Começa a ser insultuoso demais!" - garantindo que conseguiu provar que a tese da fortuna escondida do Ministério Público, não era verdade.

Na entrevista, José Sócrates garantiu que a tal corrupção sem ato concreto já não existe no Código Penal. E quando aos crimes de corrupção de que era acusado pelo Ministério Público, frisou que o juiz Ivo Rosa os deixou cair "porque não tinha outra forma de o fazer". Crimes que envolviam, entre outros, o empreendimento Vale de Lobo, a Parque Escolar e e a OPA da Sonae sobre a PT, com envolvimento de Ricardo Salgado.

Na passada sexta-feira, o juiz Ivo Rosa quase arrasou a acusação do processo Marquês e no fim o resultado foi um grande balde de água fria para o Ministério Público: todas as acusações de corrupção caíram, só cinco dos 28 acusados vão a julgamento e dos 188 crimes que estavam na acusação "sobraram" 17. Tendo o MP já anunciado que vai recorrer para o Tribunal da Relação.

José Sócrates, saiu da sala de tribunal do Campus da Justiça a falar com um tom vitorioso. Afinal dos 31 crimes de que era acusado vai a tribunal por seis: três de falsificação de documentos e três de branqueamento de capitais. Ivo Rosa não avançou com as acusações dos crimes de corrupção, afinal aqueles que mais colocavam em causa o ex-governante.

paulasa@dn.pt

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