João Ferreira. O candidato todo-o-terreno que vai à sexta eleição em oito anos  

João Ferreira parece ser o às de trunfo dos comunistas nos últimos anos, rosto do PCP nas autárquicas em Lisboa, nas europeias, nas presidenciais. Mas a eleição mais relevante para o futuro pode ter sido outra.

Foi cabeça de lista a Lisboa nas autárquicas de 2013, número um da lista da CDU ao Parlamento Europeu em 2014, novamente cabeça de lista à capital em 2017, encabeçou as europeias de 2019, foi o candidato presidencial apoiado pelo PCP em 2020 e voltará a repetir a corrida à Câmara de Lisboa ainda este ano. Seis eleições em oito anos - exceção feita às legislativas, naturalmente protagonizadas pelo secretário-geral do partido, João Ferreira tem sido o principal rosto de grande parte dos combates eleitorais do PCP nos últimos anos.

O que explica a repetida aposta no vereador e até agora eurodeputado, ainda por cima num partido pouco dado à personalização? Os resultados eleitorais? A aposta num valor seguro? Estará o PCP a abrir caminho ao próximo secretário-geral?

No PCP não vinga a ideia de um protagonismo particular de João Ferreira. Para o ex-deputado Honório Novo a situação do concorrente a Lisboa não é muito diferente da de outros nomes do partido, cabeças de lista nos vários círculos eleitorais nas legislativas, que depois avançam também como candidatos autárquicos. "Não tem nada de especial, é uma pessoa capaz, competente no que faz, essa é a explicação", diz ao DN, recusando também que esta seja uma forma de dar visibilidade àquele que é muitas vezes apontado como o mais provável sucessor de Jerónimo de Sousa. "Se há pessoa que já é conhecida, é João Ferreira, não precisa disso para fazer parte do lote de candidatáveis a secretário-geral", diz Honório Novo.

"Sendo uma hipótese entre outras hipóteses, ser membro da comissão política é a eleição mais relevante para o considerar como candidato [a secretário-geral do PCP]"

Para o antigo parlamentar do PCP, se há alguma eleição relevante para esse efeito, não é nenhum dos atos eleitorais referidos, mas a eleição interna que no último congresso colocou João Ferreira como membro da comissão política do partido: "Sendo uma hipótese entre outras hipóteses, ser membro da comissão política é a eleição mais relevante para o considerar como candidato. Seria inédito que o próximo secretário-geral do PCP fosse um homem ou uma mulher que não pertencesse à comissão política."

Uma mais-valia eleitoral?

Que resultados tem obtido João Ferreira como cabeça de lista? Nas autárquicas, o dirigente comunista aumentou a percentagem da CDU para a fasquia dos 10% e manteve depois uma votação semelhante - num contexto de perda acentuada dos comunistas em várias autarquias. Na primeira vez que avançou no topo da lista, em 2013, conseguiu uma subida de quase dois pontos percentuais na votação da coligação - dos 8% obtidos em 2009 para 9,9%. Sendo certo que a percentagem subiu apesar de o número de votos ser praticamente igual, o PCP ganhou mais um lugar na vereação, conseguindo os dois assentos que mantém até agora. Quatro anos depois, repetiu-se a candidatura e os números foram bastante semelhantes: 9,6%.

Nas eleições europeias, João Ferreira candidatou-se pela primeira vez em 2014, com um bom resultado: arrecadou 416 mil votos - 12,7% -, dois pontos percentuais acima dos resultados de 2009, e a CDU foi a terceira força política mais votada e elegeu três eurodeputados. Mas cinco anos depois, em maio de 2019, a história foi bastante diferente, com a candidatura comunista a dar um enorme tombo, para os 6,9%, perdendo 188 mil votos. É a grande derrota do histórico eleitoral de João Ferreira.

Nas últimas eleições a que se apresentou, nas presidenciais de janeiro deste ano, teve 4,3% dos votos, percentualmente acima do candidato apoiado pelo PCP há cinco anos (Edgar Silva, que teve o pior resultado de sempre de um candidato apoiado pelo partido), mas com menos cerca de 2500 votos. Mas, olhando especificamente para os resultados no círculo de Lisboa, o panorama é bastante diferente: subiu mais de quatro mil votos face aos resultados de 2016. Ressalvando a distância entre as duas eleições, João Ferreira tem nas autárquicas sensivelmente o mesmo número de votos que a CDU arrecada nas legislativas, um pouco acima dos 20 mil.

Contas feitas, as candidaturas de João Ferreira a Lisboa destacam-se no panorama geral da CDU. Nas eleições nacionais, em regra, não fogem ao quadro geral da votação do partido.

Honório Novo diz que este não é um elemento determinante na escolha dos candidatos comunistas. "O que prevalece na análise do PCP não são os resultados eleitorais. Não quer dizer que não sejam valorizáveis, mas não determinam o candidato", que é escolhido em função de valores como a adequação do perfil ou o trabalho desenvolvido. Neste capítulo, João Ferreira soma pontos, depois de vários anos a acumular a vereação em Lisboa com o trabalho em Bruxelas.

"Uma aposta na renovação"

Visto de fora, Paula Espírito Santo diz que o protagonismo em "atos eleitorais sucessivos" mostra uma "aposta nítida" em João Ferreira. "Há aqui uma aposta clara na renovação do PCP, com uma figura que pode gerar simpatia e proximidade por parte de gerações mais novas" e com isso trazer também "alguma renovação da base eleitoral do PCP", diz a investigadora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa.

"Há uma aposta clara na renovação do PCP com uma figura que pode gerar simpatia e proximidade por parte de gerações mais novas e trazer alguma renovação da base eleitoral do PCP"

"Por outro lado", acrescenta, "trata-se de um candidato que não criou anticorpos, não tem o desgaste que terão outras figuras do PCP" e que tem até agora um percurso "sem nenhum tipo de erro público". "É um quadro importante no futuro do PCP e será talvez o candidato ideal para se perfilar à sucessão" de Jerónimo de Sousa, acrescenta Paula Espírito Santo, mas ressalvando que o xadrez interno dos partidos - e do PCP em particular - tem dinâmicas muito próprias. O mesmo é dizer que até que o atual secretário-geral seja substituído "ainda pode correr muita água debaixo das pontes".

Mas a politóloga aponta também o risco de um desgaste da imagem do candidato face à exposição mediática, que teve particular relevo nas presidenciais, a mais personalizada das eleições, e que se repetirá, embora em menor escala, na candidatura à capital.

O DN tentou ouvir o PCP e o próprio João Ferreira, mas sem sucesso.

susete.francisco@dn.pt

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