"Entrei como ativista no Parlamento e isso teve um custo elevado"

Rompeu com o Livre e ganhou o estatuto de independente. Garante que fez mais sem o partido que lhe causava "stress" e mantém acesa a vontade de continuar na vida política, apesar de assumir que causou anticorpos nas forças reinantes.

Tem o olhar muito vivo e um jeito combativo do qual promete não abrir mão. Joacine Katar Moreira chega ao fim de uma aventura de dois anos como deputada, mas promete que o seu envolvimento político não termina por aqui. Não sabe ainda, confessa ao DN, como dará continuidade ao gosto que ganhou por ver concretizadas em transformações legais ou tentativas de o ser, as batalhas em que sempre se empenhou. "Admito continuar ativa na política, não sei em que âmbito, porque criei alguma desconfiança nas estruturas partidárias", reconhece.

Isto porque entrou pela mão do Livre no Parlamento e sai como deputada não-inscrita. Colidiu de frente com o partido que a desafiou para a política e tem a versão dela para contar. Começamos pelo fim, pelo balanço da passagem pelos corredores da Casa da Democracia, onde somou algumas polémicas.

Está quase a despedir-se do seu gabinete, num piso intermédio de Parlamento. É ali que faz um "balanço absolutamente positivo" destes dois anos como deputada, apesar de "todo o enredo e ambiente de muita hostilidade" que diz ter sentido desde o início entre pares. "Sobrevivi", sentencia e ostenta com "orgulho" o trabalho que desenvolveu no Parlamento. Teve iniciativas rejeitadas, outras esquecidas nas gavetas e não agendadas e algumas aprovadas. O que fez pela imortalização de Aristides de Sousa Mendes no Panteão Nacional não podia faltar, tal como a criação do Observatório para combater o discurso de ódio e da xenofobia, entre outras.

"Eu e o meu gabinete fizemos tudo o que estava ao nosso alcance e num ambiente de pouca informação, para levar por diante as nossas propostas", frisa e garante que "fizemos tudo com alegria para melhorar a legislação existente". Apesar de todas as polémicas em que se envolveu, diz que hoje "no Parlamento respeitam-me, não há ninguém que diga "ela não fez nada"".

"Eu e o meu gabinete fizemos tudo o que estava ao nosso alcance e num ambiente de pouca informação, para levar por diante as nossas propostas."

O caldo em que se moveu, sobretudo no primeiro ano, foi bem mais difícil. "Entrei como ativista no Parlamento e isso teve um custo elevado", assume. E de onde veio a hostilidade de que se queixou? Dispara logo um "não sabe mesmo?!" Explica que o facto de ser mulher, negra e de gaguejar foram parte do problema, a que se somou ao que a avó, a milhares de quilómetros de distância, na Guiné-Bissau, sua terra natal, percebeu logo. "Ela disse-me logo, que o "pontapé no estaminé" originou este ódio todo", recorda Joacine Katar Moreira, num apelo à música da sua candidatura da dupla Fado Bicha, em que prometia em outubro de 2019 [mês das eleições legislativas] dar o tal pontapé.

"Todo o meu olhar e discurso políticos incomodava, exigia mudanças significativas que afetariam todo o status quo e até as ideias da história e da identidade nacional". Ora foi precisamente algumas das coisas que defendeu sobre o modo como olhamos para a história de Portugal no que diz respeito aos Descobrimentos e à colonização que levantou mais celeuma.

Em setembro do ano passado, Joacine recomendou ao governo a contextualização histórica das pinturas que "garantem o prolongamento do Estado Novo". Defendia a retirada para um museu de sete pinturas do Salão Nobre do Parlamento, precisamente por fazerem apelo ao que dizia ser o retrato dos "os povos colonizados, em posições de subalternidade, permissividade e infantilidade e pela forma heroica como retrataram o poder colonial e a sua empresa, normalizando-a e a toda a sua violência, omitindo os impactos dessa subjugação nos povos e territórios capturados e explorados". Ou quando no Twitter partilhou uma imagem do Padrão dos Descobrimentos a descolar de Belém rumo ao espaço.

Afirma que nunca enganou ninguém sobre o que defende enquanto "femininista interseccional e antirracista" que se bate pela "representatividade das minorias étnicas", as que diz nunca conseguirem chegar a lugares de topo nos partidos. "Foi isso que fiz, um discurso virado contra o racismo institucional, estrutural e a reivindicar um espaço político para as pessoas invisíveis e num discurso virado para as elites".

"Todo o meu olhar e discurso políticos incomodava, exigia mudanças significativas que afetariam todo o status quo e até as ideias da história e da identidade nacional."

Mantém que a comunicação social também a maltratou. Cita a título de exemplo as notícias que saíram em novembro de 2029 de que teria pedido a escolta da GNR, dentro do Parlamento, para se livrar dos jornalistas. Argumenta que na altura nem sabia que se tratava de um polícia que tinha sido convocado pelo seu então assessor para a ajudar a tentar escapar ao "apertado crivo" dos media num dia em que não queria prestar declarações.

O "stress" do Livre

O momento em que o Livre retirou a "confiança política" e em que ela gritou "isso é mentira, tenham vergonha" - com todo o país a assistir - às acusações que lhe fizeram num congresso do partido, em janeiro de 2020, causaram estrondo. Recusou-se a abandonar o mandato de deputada e diz mesmo que, como deputada não-inscrita, conseguiu fazer muito mais do que antes.

Queixa-se mais dos momentos de "ansiedade" causados pelo Livre depois de ter sido eleita do que do período de adaptação à vida parlamentar. Garante que nunca escondeu as suas ideias, desde que a desafiaram para ser primeiro número dois da lista de Rui Tavares, então líder do Livre, às eleições europeias de 2019, e depois em que se bateu por ser cabeça de lista às legislativas do mesmo ano - revela que Rui Tavares a tentou dissuadir dessa candidatura.

O clima com o partido já estava azedo desde que se opôs à utilização da sua imagem num cartaz, em que aparecia a olhar embevecida para Rui Tavares, e sem ter sido consultada. "Sempre lhes disse que sou ativista e muito mais à esquerda do que o partido é", frisa a licenciada em História e doutorada em Estudos Africanos e uma das fundadoras da INMUNE - Instituto da Mulher Negra em Portugal.

"Muitos militantes do Livre, que andavam afastados há muito tempo, quando fui eleita voltaram em força e a reclamar pelos valores fundadores do partido e queriam afastar-me". Aproveitaram a primeira oportunidade, diz, quando decidiu abster-se [confessa que queria votar a favor] num voto de condenação pela "nova agressão israelita a Gaza", apresentado pelo PCP. "Mandei vários email a pedir orientação ao Livre sobre isso e nunca obtive resposta", garante.

"Muitos militantes do Livre, que andavam afastados há muito tempo, quando fui eleita voltaram em força e a reclamar pelos valores fundadores do partido e queriam afastar-me."

Daí a retirarem-lhe a confiança política foi um passo, talvez com a esperança de a quebrar e fazer sair do Parlamento. Não saiu. "Não me peças calma, isto é uma perseguição absoluta! Elegeram uma mulher negra que foi útil para a subvenção, tem de ser útil para nos defender", disse na altura.

Sai agora empurrada pela dissolução do Parlamento e sem partido onde se candidatar. "É tempo de reflexão", volta a garantir, sem fechar a porta à política. Não ficou surpreendida com o fim da legislatura. "Já sabia que deviam ser apenas dois anos e só a pandemia me fez pensar que se podia prolongar por mais um. E também não pensei que com este orçamento [em que se absteve] a esquerda tivesse este posicionamento, sabendo que fará entrar no Parlamento 18 ou 19 pessoas da extrema-direita".

Como ela está a deputada não inscrita Cristina Rodrigues, que entrou em confronto com o partido que a elegeu, o PAN. Ainda ontem se soube que o PAN lhe instaurou um processo-crime.

Joacine Katar Moreira e Cristina Rodrigues deixam de ser deputadas sem direito a receber qualquer importância, quer a título de subsídio de reintegração, quer a qualquer outro título, porque essas ajudas terminaram em 2009.

paulasa@dn.pt

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