Governo não desiste e volta a propor Gouveia e Melo para Chefe da Armada

Será o mais popular e distinguido Chefe de Estado-Maior da Armada de sempre. Mas Belém ainda não deu luz verde. O impasse sobre a nomeação do vice-almirante que comandou a task force da vacinação foi finalmente desfeito nesta quarta-feira

Ainda falta a formalização por parte do Presidente da República, mas o governo vai propor de novo a nomeação do vice-almirante Henrique Gouveia e Melo para Chefe de Estado-Maior da Armada (CEMA), quase dois meses depois de ter esclarecido com Marcelo Rebelo e Sousa os "equívocos" com a exoneração do atual CEMA, Almirante Mendes Calado.

Formalmente o nome de Gouveia e Melo será esta quarta-feira aprovado em Conselho de Ministros e proposto a Belém, que ainda não confirmou publicamente se desta vez aceita.

Segundo o DN apurou, Calado foi ontem chamado ao gabinete do ministro da Defesa, João Cravinho, para ser informado da sua exoneração. Mas desta vez, ao contrário do que aconteceu e setembro, Marcelo terá estado ao corrente de todo o processo e não houve "equívocos".

O nome de Gouveia e Melo para CEMA estava nos planos de António Costa desde início do ano, mas acabou por ficar suspensa por causa da sua nomeação para coordenar a task force da vacinação, em fevereiro passado.

Aos "equívocos" juntou-se a crise política, com a dissolução da Assembleia da República e a marcação de eleições legislativas antecipadas para 30 de janeiro e nomeação do vice-almirante, que chegou a ser dada como certa para outubro, foi sendo protelada.

Gouveia e Melo recuou à "base" onde estava antes de assumir a task force, ao lugar de adjunto para o planeamento e coordenação, uma espécie de braço direito do Chefe de Estado-Maior-General (CEMGFA) para todas as missões centrais desta estrutura, mas nunca deixou de ser solicitado para entrevistas e conferências.

A sua liderança no processo de vacinação, que colocou Portugal no topo dos países com mais pessoas protegidas contra a covid-19 (cerca de 88% e vacinados neste momento), transformaram o desconhecido submarinista numa das figuras mis populares e acarinhadas pelos portugueses nos últimos tempos.

Distinguido por várias entidades com prémios, entrevistado pelos maiores jornais e televisões mundiais, foi eleito personalidade nacional do ano pela redação do DN e na passada semana foi também, o orador principal da "tertúlia" a comemorar os 157 anos deste jornal.

Durante 50 minutos foi respondendo às questões da diretora do DN, Rosália Amorim, mas também dos convidados da plateia que assistia ao evento realizado no antigo edifício do Diário de Notícias na Avenida da Liberdade.

"O futuro a Deus pertence", respondeu quando desafiado por um dos convidados a dizer se estaria disponível para de candidatar à Presidência da República, deixando no ar que poderia já não estar a contar com a sua nomeação para CEMA e que sendo assim, apesar desse ser o seu sonho de carreira, seria um homem livre para outras opções.

Resta saber se a Marinha, numa situação de grandes dificuldades com boa parte da frota inoperacional, será suficiente para Gouveia Melo e se será ele capaz de a reerguer. Uma coisa é certa, nunca um CEMA foi tão conhecido e popular no país.

22 anos a navegar em submarinos

Os planos para "Uma Marinha útil e minimamente significativa" já os tem feitos há muito tempo e são públicos. Em síntese, essencialmente uma Marinha mais equilibrada, holística no mar, catalisadora da indústria e conhecimento nacionais, robotizada e avançada tecnologicamente.

Antes de ir para a task force estava, desde janeiro de 2020 como Adjunto para o Planeamento e Coordenação do EMGFA e apanhou logo em março a pandemia. Todo o planeamento para manter as Forças Armadas protegidas e ativas veio da sua equipa. Formação nos lares e nas escolas, sistema de saúde militar, ciberdefesa, inovação e até uma equipa "de conhecimento" que pesquisa todas as novidades científicas sobre a covid-19 - tudo esteve sob sua coordenação.

É meticuloso, paciente, tão paciente como aprende a ser alguém que viveu 22 anos da sua vida dentro de submarinos no fundo do mar, como foi o caso de Gouveia e Melo, que comandou o Barracuda e o Delfim. "Vivemos braço com braço, num sítio fechado, por longos períodos. A liderança tem de ser feita pelo exemplo e pela competência", descreveu ao DN em novembro de 2020.

Tem a reputação de ser "o homem das missões impossíveis, tornando-as possíveis", como destacou ao DN um oficial da Marinha que acompanhou o seu percurso, dando como exemplo o facto de ter sido Gouveia e Melo quem "organizou toda a estrutura, meios, recursos, para receber , em 2010, os dois novos submarinos, Arpão e Tridente, que foi uma verdadeira revolução, à época, na Marinha". "Só alguém com uma grande capacidade de liderança como é este oficial general é que é capaz de motivar e agregar pessoas para algo tão diferente", diz, não estranhando, por isso, a sua designação.

O Almirante Melo Gomes, ex-CEMA conheceu bem Gouveia e Melo e, quando foi nomeado para a task force, valorizou o facto de o vice-almirante ter aceitado, mesmo isso tendo significado na altura o adiamento da sua promoção. "Perante o que está em causa, nunca iria colocar o seu interesse pessoal à frente do país, o dever vem sempre primeiro".

Salientou que "é uma das melhores cabeças da Marinha. Pensa e decide com ponderação e eficiência. É um excelente organizador e possui uma grande capacidade de liderança. Tem um sentido de servir sem protagonismo (silent server). É respeitado na Marinha por quem não teme competência e odiado pelos que se acomodam às conveniências e aos lugares".

Vestindo sempre o seu camuflado, tratando a pandemia como uma guerra, falando de forma simples e clara explicando passo a passo os que ia fazendo, o protagonismo acabou por se lhe colar à pele pelo mérito com que desempenhou as suas funções, salvando provavelmente milhares de vidas contra a contra a covid-19. Foi o rosto que deu confiança ao processo.

Gouveia e Melo tem 61 anos, nasceu em Quelimane (Moçambique) e entrou na Escola Naval com 18 anos. Integrou a Esquadrilha de Submarinos em setembro de 1985.

Ao longo da sua carreira frequentou vários cursos, salientado, a especialização em Comunicações e Guerra Electrónica, o "International Diesel Electric Submarine Tracking Course" em Norfolk, Estados Unidos, Curso Geral Naval de Guerra, pós-graduação em "Information Warfare" na Universidade Independente e o Curso Complementar Naval de Guerra.

Liderou o Serviço de Treino e Avaliação da Esquadrilha de Submarinos e o Estado-Maior da Autoridade Nacional para o Controlo de Operações de Submarinos (SUBOPAUTH), assumindo mais tarde comando daquela esquadrilha.

Exerceu as funções de Chefe do Serviço de Informação e Relações Públicas do Gabinete do Almirante Chefe do Estado-Maior da Armada, 2º comandante da Flotilha de Navios, Director de Faróis, Director do Instituto de Socorros a Náufragos, Chefe de Gabinete do Almirante Chefe do Estado-Maior da Armada e 2º Comandante Naval.

Em 2017 foi nomeado Comandante Naval, e durante dois anos deste mesmo período, até 2019, exerceu funções de Comandante da EUROMARFOR, de onde saiu para Adjunto do CEMGFA.

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