Geringonça. "O Bloco pensou mais no poder do que na matéria de facto"

Jerónimo de Sousa acusa o governo de ter "políticas de direita na economia e na política" e de "ausência de respostas na pandemia". O secretário-geral do PCP, cujo partido faz 100 anos, ataca o Bloco e o PSD, por apoiar o PS, e diz que "o governo fez a opção errada" no aeroporto do Montijo.

Jerónimo de Sousa, 73 anos, é o segundo líder há mais tempo a frente do partido, só ultrapassado por Álvaro Cunhal. No final do ano passado foi reeleito pela quinta vez e é com ele como secretário-geral que o Partido Comunista celebra 100 anos.

100 de PCP. Que respostas pode dar o marxismo-leninismo aos problemas de hoje? Encontra algum anacronismo na doutrina ou é hoje tão válida como há 100 anos?
Continua a ter grande validade e atualidade. Essa teoria revolucionária é indissociável da prática revolucionária num processo de transformação à escala de um país ou mesmo do planeta. O marxismo-leninismo continua com atualidade na construção de uma sociedade nova por que lutamos.

O PCP está mais envelhecido do que o país. Metade dos militantes tem mais de 64 anos. Que dificuldades tem encontrado o partido para inverter este desfasamento?
É preciso compreender que este partido, na sua composição, abarcava a geração de Abril. As leis da vida tiveram consequências, não acompanhámos essas saídas...

Consegue perceber porquê?
Existem causas objetivas e subjetivas, designadamente as relações de trabalho. Hoje há muitas empresas onde os trabalhadores nem sequer conhecem a entidade patronal. Hoje as alterações nas leis laborais, visando uma precariedade muito alargada que atinge particularmente a juventude e, naturalmente, também a própria questão do sonho, da utopia, do ideal, da transformação da vida, muitas vezes, que não é entendida pelos jovens.

Isso significa que não encontra culpas próprias do partido?
Eu posso admitir que possamos ter alguma incapacidade de sedução dentro da tração. Mas também procuro perceber porquê. Fui a uma escola secundária falar de Abril, do que foi avanço, e um jovem, no final da sessão, levantou-se e perguntou: "Porque é que vocês nunca nos contaram isso?" Eu creio que isto tem um grande significado, na medida em que só se ama o que se conhece. Existe naturalmente algum afastamento, o que não impede que ainda agora tivéssemos feito uma campanha de contactos e de adesão ao PCP, e conseguimos mais de três mil novos militantes, sobretudo trabalhadores, e particularmente trabalhadores jovens. Agora, é muito difícil. Um jovem hoje pode estar num centro de contacto, mas está em permanente mudança, tendo em conta o vínculo. Convenhamos que isto não dá força para, por exemplo, a sindicalização. O desconhecimento do que foi Abril, da importância dos direitos, que não se dão, conquistam-se. Eu, aos 14 anos, fui para a fábrica, e a primeira lição de marxismo que tive foi um operário mais velho vir ter comigo e perguntar "então quanto é que tu vens para aqui ganhar?". Na altura era um valor irrisório, 10 escudos por dia. E ele dizia-me, "bom tu produzes 40, recebes 10, os outros 30 vão para o teu patrão", e senti-me imediatamente explorado.

Hoje enfrentamos desafios como a pandemia, com a crise, os momentos eleitorais nesta conjuntura. Como comenta o bloqueio do centrão aos movimentos independentes para as autárquicas? Marques Mendes disse que o PS e o PSD deviam ter vergonha. Qual é a posição do PCP?
O PCP tem uma posição prudente. O respeito pela lei é importante. O direito de participação tem de ser reconhecido, mas isso não substitui o valor que damos a candidaturas, identificadas com um projeto, com um programa, como tem acontecido durante décadas. Mas, o momento, enfim... o PS e o PSD vão mudando de posição. Nós mantemos esta posição de abstenção, com sentido crítico.

No último congresso do PCP elegeu o combate autárquico como uma das grandes prioridades. Mais votos, mais mandatos. Na prática em que é que se traduz esta meta para o PCP?
Não posso quantificar, se vão ser 20, se vão ser 30...

Mas tem um objetivo?
A nossa perspetiva é manter e reforçar aquelas que estão sobre governação da CDU e, naturalmente, conquistar outras câmaras municipais com o reforço dessas posições da coligação democrática unitária. Nós já decidimos que a CDU vai concorrer, seja em Lisboa, seja no Porto, seja em todo o país, com a sigla, projeto e programa CDU.

Nas últimas eleições, o PCP perdeu dez câmaras, passou de 34 para 24. Em quantos municípios existe a expectativa de uma recuperação?
Na avaliação que fazemos, ainda estamos numa fase de prestação de contas às autarquias, às populações. Mesmo nessas câmaras que perdemos - ganhamos outras -, embora haja uma situação de défice, aquilo que em que confiamos é que com este projeto, programa, trabalho, honestidade e competência é possível reforçar as nossas posições, mesmo neste quadro de mudanças que existem.

A candidatura de Carlos Moedas à Câmara de Lisboa, ao que tudo indica, vai contar com o apoio de uma grande coligação de direita. Admite vir a integrar uma aliança de esquerda para evitar o regresso da direita ao poder em Lisboa? Não seria inédito...
Não. As conjunturas, muitas vezes, determinam as soluções. Mas...

Pode haver, no futuro próximo, uma conjuntura que inverta essa estratégia definida nesta altura?
Nada leva a que alteremos este objetivo de concorrer seja em Lisboa ou no resto do país.

Muito bem. Em 2017, o PCP apresentou João Ferreira à Câmara de Lisboa. É repetível?
Ainda não discutimos toda a composição das listas. Mas o João Ferreira, até porque é vereador, pela sua profunda ligação a Lisboa, pelos conhecimentos, pelo contributo que deu neste mandato, continua a ser um potencial candidato à Câmara de Lisboa. É como digo, não está definido. Estou quase a transmitir uma opinião pessoal, tendo em conta o trabalho que realizou, num quadro muito exigente. Mas a obra, o trabalho, a intervenção, as propostas que fez, ao serviço do concelho de Lisboa, dão-nos esta garantia.

É o comunista mais bem colocado para encabeçar essa candidatura?
Tendo em conta até o mandato que tem.

Em que data poderemos saber se Ferreira realmente é candidato?
Dentro de poucas semanas.

O resultado das autárquicas é um teste decisivo? Um eventual resultado negativo, como em 2017, pode ser a prova de que a estratégia de aproximação ao PS desagradou ao eleitorado do PCP?
Em cima da mesa nunca esteve o problema de participarmos nesta batalha a pensar no PS ou a pensar em relação ao governo do PS. É uma questão autónoma. Portanto, o poder local, democrático, tem para nós, comunistas, de facto, uma importância muito acrescida, tendo em conta a ligação direta às populações, e não estamos a pensar no futuro do governo e da política do governo. Portanto, aí mantemos a nossa a posição. Acho que é importante sublinhar que não seremos força de apoio do PS. Naturalmente, também não dissociamos da necessidade do combate ao PSD e ao CDS, aos seus sucedâneos reacionários. Temos uma proposta própria. Temos um projeto que está longe de ser concretizado e que o PS não tem capacidade de concretizar tendo em conta o seu amarramento àquilo que consideramos ser as políticas de direita e, independentemente do processo, daquela fase da vida política nacional onde demos uma contribuição decisiva para afastar o governo do PSD-CDS. Simultaneamente, e acho que é importante sublinhar isto, e que tem sido muitas vezes desvalorizado, não perdemos uma única oportunidade para que conseguíssemos questões, reivindicações que constituem uma forte aspiração dos trabalhadores portugueses. Foram coisas pequenas, dirá. Sim. Atualmente, a reforma extraordinária das reformas das pensões, o reforço das políticas sociais em várias áreas, questões que estão ainda no Orçamento do Estado e que o governo ainda não concretizou. Tão importantes que foram para esta situação dramática que o nosso país viveu, e ainda vive, em termos de pandemia. Pode-se dizer que não foram questões estruturantes, mas foram direitos conquistados a pulso, muitas vezes, e que estiveram em causa com o governo PSD-CDS. E desvalorizar, considerar que são uns trocos, esses avanços que se conseguiram, como a reforma das pensões, a questão do 13.º mês, o combate à própria precariedade, a valorização insuficiente, diga-se, do salário mínimo nacional... tudo isso considerado como trocos é, de facto, uma visão estreita e que não nos levou a perder votos. Antes pelo contrário. Essa posição levou ao reconhecimento de muitos portugueses que veem no Partido Comunista Português a força que luta pelos seus direitos, pelas suas aspirações.

As eleições autárquicas podem ser um momento de alguma censura ao governo?
A ausência de respostas por parte do governo do PS, as questões pendentes atingindo duramente diversos setores, os trabalhadores, mas também os micro, pequenos e médios empresários, a falta de proteção social...

E acredita que a penalização chegará nas autárquicas?
Pode acontecer. Naturalmente, essa insatisfação potenciada como está a ser feita por parte da direita.

Poucas são as diferenças entre PS e PSD? Este governo de António Costa é um governo de direita?
Eu não disse que é um governo de direita, mas é um governo com políticas de direita em relação à situação económica e à situação social. Corresponde aos grandes interesses, particularmente dos grupos monopolistas, e não àquilo que é a nossa realidade nacional.

O Orçamento do Estado, que foi viabilizado com abstenção do PCP, já está desatualizado, nas despesas e receitas, e é provável que tenhamos um Orçamento retificativo. Contará com a viabilização do PCP? Com que condições?
Uma questão primeira e principal é a necessidade de concretizar o orçamento que está em vigor. Se olharmos para o conjunto de propostas, e foram dezenas - 40, 50 propostas do PCP que foram aprovadas -, a maioria delas falta tanto para a concretização ou são reduzidas na própria dimensão. Cumpra-se, em primeiro lugar, o Orçamento que está em vigor e, naturalmente, avaliemos se sim ou não, se são necessários ou são suficientes. Acho que é um bocado fuga para a frente ou fuga para o lado - passe o termo - pensar no Orçamento retificativo sem exigência do cumprimento daquele que foi aprovado.

Vamos olhar para 2020: o PCP também se absteve, mas depois votou contra o Orçamento suplementar. É um cenário que mantém em aberto, até porque com a provável viabilização ou abstenção por parte do PSD, como aconteceu em 2020, isso poderá libertar o PCP para assumir uma oposição?
Nós nunca fazemos juízos de valor apressados, sem conhecimento de causa. A pergunta levanta esta questão: saber se ao queimarmos uma etapa vamos alcançar aquilo que não se conseguiu neste processo, que decorreu, em termos do Orçamento do Estado para 2020. É ao pé do pano que se talha a obra. Se vier uma proposta que responda ao colmatar dessas insuficiências que se verificam no Orçamento do Estado que está em vigor, naturalmente, tudo o que for positivo, lá estará o PCP. Mas não pensem que deixamos cair todo um trabalho de fundo, porque é muito difícil, enfim, conseguir a aproximação do PS em relação a muitas matérias.

Qual é a mais difícil de todas?
Particularmente a legislação laboral. E a nossa soberania no plano da produção nacional.

O PCP foi quem não quis papel passado após as legislativas. A possibilidade de um entendimento só entre o PS e BE foi um cenário que não lhe passou pela cabeça?
O PS com o Bloco de Esquerda? Acho que houve um esforço nesse sentido, mas nós temos uma posição muito autónoma. Eu acho que é um erro de análise considerar que o PCP fez tudo para uma aproximação acrítica do governo do PS. A nossa posição foi dar combate a muitas das medidas que o governo de PS apontava. Naturalmente, nós acompanhamos muitas coisas que o Bloco colocou. Acho que o Bloco, muitas vezes, pensou mais no poder do que na matéria de facto, e eu digo isto porque li artigos de especialistas do BE considerando que os avanços verificados no Orçamento foram paliativos, meros paliativos. Eu não acompanho essa visão. Pode-se dizer "sim, mas foram só 10 euros neste ano". E foram 10 euros em cada ano que passou para as reformas e para as pensões. É um paliativo? Será para alguns. Mas quem ouve os reformados e pensionistas, na sua maioria com reformas baixíssimas, é dinheiro que ajuda à compra de um medicamento, e não perceber isso... Muitas vezes estivemos sozinhos neste combate e o Partido Socialista não foi tão longe como era possível. Como era possível ir mais longe para evitar situações dramáticas, como as que estão a acontecer. Nós acompanhamos a necessidade, de facto, de um rastreio massivo, de fazer os testes necessários para identificar surtos de infeção, a necessidade das vacinas, o reforço do Serviço Nacional de Saúde. Vá lá explicar ao meu neto de 5 anos que eu não posso ir lá a casa. "Porquê?" Já fui confrontado com isto.

Está ansioso por conhecer o plano de desconfinamento?
Sim, acho que é uma condição importantíssima, para poder respirar, poder acreditar que isto vai melhorar. Já comecei a ouvir falar de muitos que estavam claramente com os ouvidos fechados para essa possibilidade e necessidade. Precisamos de recuperar a alegria de viver!

Ao longo dos últimos anos, por várias vezes, o primeiro-ministro adotou um tom de dramatização quando o PS, minoritário, viu em risco a aprovação de diplomas essenciais. E, até agora, tem resultado porque as maiorias negativas não têm tido um efeito real. Na prática, o PS não tem estado de "mãos livres", expressão que tanto usou na última campanha para as eleições legislativas?
O programa do PS, em questões de fundo, tem sempre uma garantia. Por muita conversa fiada, muito discurso proclamatório... a verdade é que, em última análise, entende-se sempre com o PSD naquilo que é de fundo, em termos de política europeia, fundos comunitários, legislação laboral. O PS tem sempre esse descanso, que é, portanto, "lá vem o PSD". Se o Partido Socialista tiver alguma dificuldade, lá vem o PSD.

No congresso do partido disse que o PCP conta. Quais são prioridades no diálogo com o governo?
A questão da pandemia deve merecer um esforço prioritário. E depois dar resposta de fundo a problemas de fundo. Eu não sei como é que vão ser aplicados aqueles milhões, ou milhares de milhões, que hão de vir. Como? Onde? Qualquer português diria que precisamos de reforçar o nosso aparelho produtivo, para criar mais riqueza. Esta é uma questão que une muitos e muitos portugueses. Do ponto de vista da realidade social e laboral, o valor do trabalho foi, mais uma vez, demonstrado nesta pandemia. Dos profissionais de saúde, de outros trabalhadores de limpeza, de gente que não pode parar. É altura não só de valorizar o trabalho como valorizar os trabalhadores que estiveram neste combate.

O governo já disse que o PCP é um interlocutor de confiança, em oposição ao BE. Sente esses elogios como um abraço de urso? E que o Bloco desertou, como acusou o Partido Socialista?
Eu creio que essa afirmação resulta do facto de termos, de facto, uma posição determinada, firme, mas séria. E, muitas vezes, nessas discussões que realizámos em termos do quadro do Orçamento do Estado, nós não éramos profundamente convictos da resistência das nossas propostas, com o PS muito recuado, sempre, mas sempre com o governo, sempre a ver se ultrapassava o problema. Eu não digo que fomos muito teimosos, mas fomos muitos determinados, exigentes, embora com seriedade. Estávamos perante um processo em que uma reivindicação que conseguíssemos ia beneficiar alguém. Isto dá-nos muita firmeza, muita determinação. E acho que é isso que passa pelo reconhecimento do governo do PS. Mantendo as nossas divergências de fundo, divergentes mesmo em termos de projeto, temos um projeto, que já teve aqui alguns traços de afirmação. Um PS que, sempre em última análise, acaba por encostar à direita naquilo que é de fundo. Não estou a dizer que o PS é igual ao PSD, mas, naquilo que é de fundo, de facto, há ali entendimentos, e, achamos nós, se vamos para um processo desta natureza, o mínimo que se exige é seriedade.

Nesse diálogo de que fala com o PS, tem sido fácil dialogar com António Costa ou seria mais fácil outro interlocutor? Numa altura em que se fala da sucessão de António Costa, seria mais fácil outro interlocutor, um socialista da ala esquerda como Pedro Nuno Santos? Seria mais fácil para esse diálogo com o PCP?
Nós temos essa perspetiva, nem procuramos selecionar este ou aquele. Dialogamos com todos os ministros no quadro do Orçamento do Estado, na Assembleia da República. E, digamos, nós recusamos qualquer ideia de ingerência da nossa parte em relação aos interlocutores. O nosso interlocutor foi sempre o governo, nas suas diversas áreas, naturalmente houve também encontros como o atual primeiro-ministro, mas num quadro, claro, de ninguém querer enganar ninguém. Nós éramos muito... enfim, se vocês assistissem... muitas vezes esta ou aquela proposta... "Essa não, essa não aceitamos", "essa vamos ver, essa queremos discutir", "essa queremos aprovar"... No fundo, de uma forma sintética, nunca ali há qualquer razão de sentimento, de simpatia pessoal, portanto, prevaleceu sobre aquilo que era a substância da coisa, aquilo que era a substância do Orçamento, das medidas que pudessem permitir que o nosso país avançasse e que a justiça social existisse de uma forma maioritária.

Pedro Passos Coelho funcionou como cimento para um entendimento entre o PS e a esquerda. O crescimento da extrema-direita pode vir a ter esse mesmo efeito?
A primeira questão é de tempo em relação ao crescimento das forças reacionárias... Eu diria que o PS tem responsabilidades nisso. Responsabilidades porque não resolve os problemas. E aparece alguém que, enfim, diz "corrupto". Isto é uma frase, é uma expressão muito forte. Qualquer pessoa tem um caso conhecido de corrupção e pensa: "Tem razão." Então a melhor forma de combater esse crescimento dessas forças reacionárias é o combate à corrupção, combate efetivo, ou, enfim, em relação a comunidade, a minorias que existem no nosso país. Não custa nada incendiar os ânimos em relação a este ou àquele ato deste ou daquele setor de qualquer comunidade. Ou seja, no fundo, é criar condições para que o esvaziamento se faça com sentido político natural, de demonstração, de que aquilo não passam de slogans, mas que não tem como objetivo resolver os problemas de fundo.

Deixe-me fazer a pergunta de outra maneira. O Chega está, aparentemente, a afirma-se por representação de descontentamentos. O PCP está a perder capacidades nesse domínio ou pura e simplesmente não consegue lidar com o tipo de descontentamentos que Chega representa?
Obviamente, nós nunca acompanhamos a declaração no sentido proclamatório de algumas propostas que colocou, na medida em que trazem um caráter profundamente repressivo e perigoso.

Mas parece colher o apoio de parte do eleitorado e de uma parte que é cada vez mais diferencial.
Mas não vale tudo e, na minha opinião, muito menos agredir aqueles mais vulneráveis e permitir essas ideias reacionárias, antiprogressistas, no quadro de apreciação até civilizacional. Nós nunca poderíamos acompanhar propostas daquelas.

Deixe-me então perguntar-lhe se o tranquiliza o facto de o Presidente da República ter avisado que vai exigir um compromisso escrito, num eventual acordo de governo que inclua o Chega. Isso tranquilizou-o?
Não me tranquilizou, nem deixa de me tranquilizar. Às vezes, uma boa intenção não chega, não chega.

Já agora, falando do Presidente da República, como é que tem visto a relação entre São Bento e Belém? O Presidente influencia a governação?
Não posso afirmar a pés juntos que influencia, mas que parece, parece. E creio que, em particular em momentos difíceis, a tendência foi para que o governo do PS fosse mais flexível e aceitasse tal e tal ideia, tal ou tal orientação do Presidente da República, que, como digo, muitas vezes extravasando até os seus próprios poderes, deixou de ter como preocupação central esta ideia que está consubstanciada no juramento que se faz, que o Presidente da República faz perante a Constituição: defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República. Essa deve ser a tarefa principal, naturalmente procurando uma esfera de influência, percebo isso. Mas mais do que qualquer coisa, mais de qualquer conselho, mais qualquer opinião, o Presidente da República deve fazê-lo agora, mas não faça apenas um juramento de circunstância. Seria importante o Presidente da República fazer um juramento com a consciência da importância da construção da república, que, aliás, ele votou a favor em 1976.

E causou-lhe surpresa o facto de ter sido eleito com apoio de tantas vozes importantes do PS? Foi uma surpresa para si?
Quem?

O Presidente.
Ah!, o Presidente. Não. Eu acho que os sinais e sintomas, antes da campanha, e até mesmo antes do anúncio do Presidente da República de que ia ser candidato, houve, claramente, manifestações de apoio, umas mais enviesadas do que outras.

Estará a lembrar-se do episódio na Autoeuropa?
Por exemplo. Aí está um belo exemplo.

O Presidente da República já avisou que não espera nem deseja uma crise política durante este ano. O que é que lhe parece que pode vir a conduzir a uma crise política no final deste ano?
Uma crise política pode resultar, designadamente, de uma crise social. Uma crise social de agravamento da situação económica e social com todos, consequências e sentimentos e opções de voto que têm com este, perante esta situação, perante a vida de muitos portugueses. Ou seja, não tem de haver, obviamente, uma crise e ela não existiria se esses problemas que aí estão colocados, com tendência para o agravamento, forem resolvidos. Este é o desafio que, mais do que táticas políticas partidárias...

... mais pelo povo do que pelos partidos...
Responda-se aos problemas do povo, do país, e, naturalmente, não haverá crise política.

Só muito excecionalmente, o PCP antecipa um Congresso. Aconteceu apenas por duas vezes, muito embora o secretário-geral seja eleito pelo Comité Central. É de esperar que Jerónimo de Sousa fique como secretário-geral até ao final da legislatura?
É uma pergunta que eu não sei responder. Aquilo que responder, por exemplo, por razões de saúde, por razões diversas... Fui eleito pelos meus camaradas, de facto, no Comité Central e no Congresso, sempre com uma grande tranquilidade. Se deixasse de ser também poderia ser entendido como um grande ato natural do partido. Mas, enfim, as conjunturas, a necessidade de puxar neste quadro tão difícil que aí está... Podia ter sido outra escolha, mas a opção do coletivo partidário foi significativa e até animadora, para quem anda nesta vida. E depois também acho que ainda não estou em tempo de escrever memórias. Continuar até identificar-me com o que é projeto para a nossa sociedade, para o nosso povo... há tanto e tanto para fazer. E essa é uma disponibilidade, mesmo sabendo que, enfim, já tenho dito e repito, conheço, ao longo desta vida, muitos homens e mulheres imprescindíveis, mas não conheço ninguém que seja insubstituível. Portanto, a lei da vida, dos processos, das conjunturas. Mas também a determinação, a confiança determinarão quanto ao posicionamento da direção do um partido.

Mesmo para finalizar, e já fizemos aqui uma viagem ao futuro, vamos voltar só um bocadinho ao presente para fecharmos a entrevista, com o tema importante da semana. Perante o chumbo ao aeroporto do Montijo, com votos contra de duas câmaras do PCP, considera esta uma vitória para o PCP e para o PEV?
Considero que será uma vitória para o país, tendo em conta as necessidades objetivas de termos ali uma grande infraestrutura, um aeroporto a sério, que respeite as normas. Naturalmente que respeite as normas ambientais. Não se trata de uma teimosia dos autarcas da CDU. Estamos a falar tempo do interesse nacional e estamos a falar do bem-estar das populações. E foi isso que determinou a nossa posição. O governo insiste, por pressão da Vinci, naturalmente, tendo em conta os interesses da multinacional que, em poucos anos, já ganhou aquilo que pagou pelo aeroporto, enfim, com todas as consequências que isto vai ter no futuro. E Alcochete é uma solução que os próprios técnicos e cientistas admitem como sendo melhor.

E como é que ouviu as palavras de Rui Rio quando disse que estava disposto a alterar a lei?
Lá está. Portanto, eu dizia que o PSD sempre que pode e sempre que o PS necessita lá vai estender a mão e dar a ajuda. É um exemplo concreto daquilo que é contrário ao interesse nacional. Ninguém é capaz de demonstrar que criamos ali uma solução tão duradoura, no Montijo, e nós precisamos de uma solução duradoura, para o desenvolvimento do nosso país. Então, a opção do PS, mais uma vez, é errada aceitando a mão estendida do Dr. Rui Rio.

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