Esquerda mantém o rumo. Bloco recusa ilações partidárias das eleições presidenciais

Bloquistas e comunistas desvalorizam o significado das eleições de domingo. PCP fala num resultado idêntico, Bloco de Esquerda afasta cenário de penalização do partido.

Umas eleições com características as únicas, com um Presidente recandidato que foi buscar votos a todos os quadrantes políticos, e num contexto tão particular quanto a pandemia - a eleição presidencial do passado domingo não deixa boas memórias à esquerda, mas a esquerda prepara-se para não lhe atribuir particular importância. A palavra de ordem parece ser seguir em frente e manter o rumo, na perspetiva de que estas eleições tiveram uma tal singularidade que não permitem extrapolações para fora desse quadro.

Para o PCP a candidatura de João Ferreira "aguentou-se bem" - palavras de Jerónimo de Sousa, na noite de ontem, após a reunião do Comité Central para analisar os resultados eleitorais de domingo. Recorde-se que João Ferreira ficou em quarto lugar ( à frente da candidatura de Marisa Matias, do Bloco de Esquerda), subindo percentualmente dos 3,95% de há cinco anos para 4,32% . Ainda assim, João Ferreira perdeu em número de votos por comparação com Edgar Silva, em 2016, ainda que de forma pouco expressiva - cerca de 2400 votos.

Logo na segunda-feira, o PCP usou as redes sociais do partido para explicar os "resultados de João Ferreira trocados por miúdos", contestando que a candidatura tenha descido na votação ou tenha perdido em concelhos que são tradicionais bastiões do partido. "Mais percentagem, número de votos idêntico", argumenta o PCP nas redes. Uma visão sustentada por Jerónimo de Sousa, que ontem avaliou assim as eleições: "Nós aguentámo-nos bem, crescemos num quadro de grande condicionalismo" . Para o PCP é de destacar "a obtenção de um número idêntico de votos, num quadro em que votaram quase menos meio milhão de eleitores e num contexto marcado por circunstâncias de saúde pública que limitaram a ação de esclarecimento e mobilização" - um cenário que "desmente os que procuram falsamente menorizar o resultado obtido pela sua candidatura".

Questionado sobre se João Ferreira poderá protagonizar a candidatura do PCP em Lisboa, nas próximas autárquicas, já em outubro, o secretário-geral do PCP não excluiu esse cenário.

BE desvaloriza resultado

No Bloco de Esquerda - que analisou os resultados em comissão política, na última segunda-feira e tem reunião da Mesa Nacional, o órgão máximo entre congressos, marcada para o próximo sábado - o tom é de desvalorização destes resultados enquanto medida de avaliação da estratégia política. Entre os bloquistas a leitura é que os resultados do último domingo - Marisa Matias teve 3,95%, o correspondente a 164 688 votos, menos 300 mil que há cinco anos - não são transponíveis para o partido. E cita-se, em favor deste argumento, a sondagem da RTP feita à boca das urnas, que deu ao BE uma intenção de voto substancialmente acima do resultados nas presidenciais.

Se a maioria dos comentadores viu o resultado do BE como uma penalização dos eleitores ao chumbo do partido ao Orçamento do Estado, no final de novembro, esta ideia é totalmente recusada na cúpula do partido. Com dois argumentos: a intenção de voto manifestada na já citada sondagem para as legislativas, e o facto de os resultados do PCP não mostrarem uma recompensa do eleitorado ao voto favorável da bancada comunista ao OE. "Não houve qualquer punição ao Bloco de Esquerda", argumenta um dirigente do partido.

O Bloco prepara-se, por isso, para explicar este resultado em função da especificidade absoluta destas eleições. Por se tratar de uma reeleição e, em cima disso, com presidente recandidato que foi captar votos a todos os quadrantes políticos (e no Bloco não terão sido poucos). Quanto à transferência de voto para Ana Gomes, e a similaridade entre as duas candidaturas, na cúpula bloquista defende-se que uma convergência só teria servido para deixar escapar mais voto para Marcelo.

A conclusão é que as eleições deixaram tudo na mesma à esquerda, e que o terramoto eleitoral foi à direita, com forças como o Chega (e, em menor medida, a Iniciativa Liberal) a ameaçarem os partidos da direita tradicional.

Mas se esta é a leitura que faz caminho na cúpula, não se estende a todo o partido. Um grupo de militantes alinhado na tendência Convergência preparava ontem uma tomada de posição sobre as presidenciais, com um ponto de vista bastante mais crítico.

E se António Costa foi apontado como um vencedor indireto destas eleições, entre outras razões pela fragilização dos partidos à sua esquerda, há quem conteste esta leitura, lembrando que o Governo minoritário dos socialistas continua a precisar de apoio para aprovar medidas no Parlamento e para fazer passar o Orçamento para o próximo ano. E isso significa que continuará a precisar da esquerda, até porque o Chega em crescimento à direita deixa pouco ou nenhum espaço a Rui Rio para viabilizar o orçamento dos socialistas.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG