"Era uma época em que as Forças Armadas governavam-se a si próprias"

O fundador do CDS, Adelino Amaro da Costa, tem uma nova biografia, de Filipe Ribeiro de Meneses, que conta os seus anos de atividade política, interrompida pela morte trágica no incidente de aviação de Camarate. Um ministro da Defesa civil numa época em que as Forças Armadas não aceitava o poder político. Outra novidade: Azulejos - Grande painel da História, de Victor Sousa Lopes

As biografias sobre Adelino Amaro da Costa (1943-1980) não abundam, mas o historiador Filipe Ribeiro de Meneses acaba de publicar uma sobre o político. Trata-se de Adelino Amaro da Costa - Biografia parlamentar, integrada na coleção da Assembleia da República, e ao longo de 300 páginas faz uma reapreciação do antigo dirigente do CDS, recuperando um protagonista do pós-25 de Abril que os portugueses têm vindo a esquecer, situação que alarga ao desinteresse na história inicial do próprio partido.

É impossível não iniciar esta biografia parlamentar sem ir diretamente ao subcapítulo "A tragédia de Camarate" e querer saber o que há de novo após esta investigação, mas Ribeiro de Meneses insurge-se contra esse afunilamento biográfico de Amaro da Costa e considera que é "um erro, uma injustiça e um insulto aos familiares e amigos de Adelino Amaro da Costa, e de todos os que viajavam naquele avião, resumir a vida destes aos seus últimos trinta segundos". Por essa razão, refere que "teria preferido abordar Camarate no fim da entrevista e não no seu início". Aliás, esse seu receio existiu logo de início, quando foi convidado para escrever este livro e explicou ao coordenador da coleção, Luís Farinha, que "não queria que o livro se tornasse mais um volume sobre Camarate". Para si, este caso é "aquilo a que os ingleses chamam um rabbit hole, ou seja, uma situação em que a realidade está distorcida, na qual nada é o que parece ser e da qual é impossível sair". A solução para ultrapassar esta situação foi, explica, "apenas resumir as conclusões a que chegou a X Comissão Parlamentar de Inquérito à Tragédia de Camarate - que todos os interessados deviam ler -, assim como as declarações feitas pelos representantes dos vários partidos políticos na Assembleia da República quando o relatório dessa Comissão lá foi apresentado, em julho de 2015".

Quanto ao objetivo da pergunta inicial, sobre se teria sido acidente ou um atentado, o historiador afirma: "Julgo ser impossível ler os relatórios das várias Comissões Parlamentares e não ficar impressionado com tudo aquilo que elencam e de espírito aberto à possibilidade de um atentado; mas creio estarmos longe de saber o que realmente aconteceu e porquê." Questiona-se como é possível um país ultrapassar um acontecimento desta importância sem jamais o ter esclarecido e Ribeiro de Meneses responde que é "impossível ultrapassar Camarate, daí as divisões que ainda existem na opinião pública e no seio da nossa classe política. A X Comissão Parlamentar fez o que pôde, não conseguindo ir mais longe - mas não deu o caso por encerrado."

Autor de várias biografias sobre protagonistas da política portuguesa, entre as quais a de Salazar, ainda primeira e única de um historiador português, bem como as de Afonso Costa e de Paiva Couceiro, considera que Adelino Amaro da Costa "Ideologicamente, está à direita de Afonso Costa mas à esquerda de Salazar e Couceiro", salvaguardando que é uma análise feita sobre "épocas diferentes e de difícil comparação". Acrescenta: "Foi o único dos quatro disposto a criar, imediatamente, uma democracia genuína e abrangente; o mais disposto a dialogar com a oposição e a ter em conta a necessidade de com ela pactuar; o mais europeu."

A relação entre Sá Carneiro e Amaro da Costa é habitualmente descrita como boa. Mas reproduz uma citação (de Joaquim Aguiar) em que refere o interesse deste em "controlar Sá Carneiro". Que relação era afinal?

É uma opinião entre muitas, claro; mas achei-a interessante por ir ao encontro de algo que me parece evidente - que ainda não entendemos muita da dinâmica por trás da formação e do funcionamento da Aliança Democrática (AD), pelo menos nos primeiros meses da sua existência. Dois partidos rivais, que disputam o mesmo eleitorado, não baixam as suas defesas de um momento para o outro. De qualquer forma penso que, mesmo que tenha realmente existido a desconfiança a que Joaquim Aguiar se refere, ela terá desaparecido ao longo de 1980.

Pertence a Amaro da Costa a escolha do candidato Soares Carneiro. Porque cometeu esse erro?

Não é bem assim; uma vez tomada a decisão pela liderança da AD de avançar com um candidato militar, coube a Amaro da Costa, enquanto ministro da Defesa Nacional, sugerir possíveis candidatos; Amaro da Costa apresentou uma lista composta por alguns nomes, na qual figurava Soares Carneiro, mas não o impôs como candidato - nem o poderia fazer. A decisão coube, naturalmente, aos líderes do PSD e do CDS.

O facto de Amaro da Costa ser um civil na pasta da Defesa Nacional pretendia ser um travão à dinâmica das Forças Armadas no processo vivido nos anos imediatos ao 25 de Abril e o principal objetivo político de Amaro da Costa era retirar as Forças Armadas da esfera política?

Sim, claro. Não que o ministro da Defesa Nacional tivesse um papel muito ativo na altura, já que era uma época em que as Forças Armadas governavam-se a si próprias, mas era um sinal claro de mudança. Cabia a Amaro da Costa desenhar a futura relação entre civis e militares uma vez findo, com a revisão constitucional que estava prevista, o período excecional criado pela revolução de 1974. Para tal precisava de cultivar boas relações com os comandos militares e ir preparando a opinião pública para as alterações em curso.

Refere a opinião do historiador Richard Robinson sobre a fundação do CDS: "Resultado da pressão de elementos das Forças Armadas". Essa é uma visão pouco conhecida. É a verdade?

É uma fórmula um pouco ambígua; sabemos que o General Spínola achava necessária uma formação democrática mais conservadora do que aquelas que compunham, no rescaldo imediato do 25 de Abril, o leque partidário nacional. O historiador Luís Nuno Rodrigues aborda o assunto na biografia que escreveu de Spínola.

Aponta várias vezes a sua forte componente religiosa. A sua oposição a "católicos radicais", como seria o caso de Maria de Lourdes Pintasilgo, devia-se à sua filiação à Opus Dei?

Havia diferenças políticas claras entre os dois, como é normal em democracia. Eram estas complicadas pelas circunstâncias em que Maria de Lourdes Pintasilgo ocupou o Poder e pela forma como interpretou o papel do governo que liderou durante essas circunstâncias de exceção. A liderança da AD acusava-a de exceder as suas competências. Houve, por isso, um combate político nascido do momento tenso que se vivia. Subordinava-se este a uma interpretação diferente do catolicismo? Custa-me a crer, pois que Amaro da Costa tinha não só uma grande capacidade de diálogo como ainda boas relações com outras figuras da esquerda católica.

"Sem as memórias de Amaro da Costa, ou um diário, ou qualquer outro depoimento detalhado, a visão apresentada por Freitas do Amaral da relação entre os dois será doravante a dominante."

Muito se diz que a classe política do pós-25 de Abril era superior intelectualmente às que se seguiram. Se sim, Amaro da Costa faz parte dessa elite?

Diz-se isso, mas não sei se será verdade. Tivemos desde então um presidente da Comissão Europeia, temos um Secretário-Geral das Nações Unidas... Talvez se esperasse mais dos nossos políticos na altura do que hoje, talvez o "amor à camisola" partidário fosse mais intenso, talvez as opções apresentadas por esses políticos aos portugueses fossem mais apaixonantes, daí uma certa nostalgia. De qualquer forma não sei se aquelas lideranças partidárias corresponderam às expectativas: basta ver o estado em que o regime, dominado por três partidos apostados em criar uma democracia parlamentar e um presidente da República identificado também ele com esse desígnio, chegou às eleições de 1979: desentendimentos constantes, uma incapacidade gritante de formar uma maioria parlamentar e, por isso mesmo, sucessivos governos de iniciativa presidencial que acabaram por envenenar as relações entre os partidos e o chefe de Estado.

Qual foi o papel do seu biografado?

Quanto ao papel de Amaro da Costa dentro dessa geração política, há primeiro que destacar a sua juventude. Tinha 31 anos aquando do 25 de Abril! Ajudou a fundar e a afirmar um partido político que dois anos depois - e inúmeras dificuldades superadas - obteve 16% do voto e 42 deputados; foi um parlamentar brilhante, pugnando pela consolidação do regime democrático quando este não estava ainda garantido; foi um pioneiro da integração europeia em Portugal; ajudou a criar a AD, que deu ao Portugal democrático a primeira maioria absoluta no parlamento... aos 36 anos era ministro da Defesa Nacional... claro que fazia parte da elite daquela geração de políticos. Nunca saberemos onde teria chegado.

Afirma na introdução que "É possível [com este livro] desfazer algumas ideias feitas sobre Amaro da Costa" e que "O CDS tem sido muito maltratado pela historiografia português". Deve-se ao posicionamento político de ambos?

Quanto ao CDS, sem dúvida; quanto a Amaro da Costa, não tanto, pois creio que as "ideias feitas" nascem dentro do próprio partido após a sua morte. A apropriação da memória de Amaro da Costa por sucessivas lideranças do CDS, de forma a legitimarem-se, resultou numa "canonização" secular. Amaro da Costa nunca abandonou o CDS, nunca lhe virou as costas, nunca representou outro partido. Tê-lo-ia feito? Não sabemos, claro: mas Amaro da Costa surge como o paladino intocável das hostes centristas, coisa que não antes da sua morte.

Qual foi a sua maior dificuldade nesta biografia?

Sem dúvida nenhuma a falta de um arquivo histórico do CDS. A então presidente do partido, Dra. Assunção Cristas, foi extremamente simpática e deu-me acesso ao que existe, na sede do partido: mas fiquei surpreendido pelo pouco que lá encontrei. O IDL/Instituto Amaro da Costa também me ajudou, sobretudo a nível de obras escritas por e sobre Amaro da Costa; mas não podem estas substituir a documentação partidária - atas de reuniões, correspondência, discursos, etc. Sem este material a história do CDS não poderá ser escrita - e eu acho que o merece ser. A biografia dos seus líderes também sai lesada da falta desses documentos.

Conseguiu filtrar nesta biografia os "erros de facto" que diz existir nas memórias políticas de Freitas do Amaral?

Os que encontrei, creio que sim - ora erros de facto (datas trocadas, por exemplo), ora simplificações excessivas. Mas sem as memórias de Amaro da Costa, ou um diário, ou qualquer outro depoimento detalhado, a visão apresentada por Freitas do Amaral da relação entre os dois será doravante a dominante, apesar dos problemas que lega aos historiadores. Se os dois estavam sempre de acordo, porquê a contestação dentro do partido a Amaro da Costa?

O obituário do The New York Times refere-o como uma das figuras mais "engraçadas" da cena política portuguesa. Qual o significado desta caracterização?

O artigo em questão diz que Amaro da Costa "era visto como uma das figuras mais brilhantes e engraçadas ("witty") da cena política portuguesa" - as duas faces da moeda devem ser referidas, não só uma delas. Parece-me justa a caracterização: brilhante porque rápido no raciocínio, na avaliação das conjunturas, na identificação de prioridades para o partido e para o País; engraçado pela sua forma de estar na política e especialmente em S. Bento, em que o humor desarmante era uma constante. Tento reproduzir alguns desses momentos, por vezes hilariantes, no livro.

Considera que os portugueses estão interessados em conhecer os seus antepassados ou este é um registo para uma elite ler?

Tenho pena que os volumes produzidos nesta coleção, pela Assembleia da República, sejam tão difíceis de encontrar à venda, e creio que o interesse em figuras como Amaro da Costa e Sá Carneiro, entre outras, garantiria boas vendas aos respetivos volumes. Não são raros os livros de História que despertam o interesse do grande público, tudo depende do projeto.

Filipe Ribeiro de Meneses

Edição Assembleia da República

301 páginas

Outro lançamento

Ver a história de Portugal através dos seus azulejos

O autor de Azulejos, Victor Sousa Lopes, dá início ao livro referindo que na sua infância brincava num quarto revestido a azulejos e que esse cenário lhe permitia imaginar histórias interessantes. Daí a que considere que a arte da azulejaria portuguesa seja um dos melhores contributos para se entender a história do país é um pequeno passo, que concretiza agora com a publicação deste livro, um ótimo manual para se perceber o valor destes quadrados na interpretação de um passado.

O volume reúne vários estudos que tem escrito nas últimas quatro décadas, permitindo com a sua reorganização interpretar de uma forma mais abrangente o cenário desta arte e da sua contribuição para fixar momentos, transformando os textos avulsos numa obra de consulta e que deve levar, também, à preservação deste património com séculos. Não será por acaso que na Introdução aponta uma "história tão vasta" como a que reflete o emprego do azulejo em Portugal e que surpreende quem passa a fronteira por ser único no mundo. Ao longo das páginas explica-se todo um processo, que vai desde a sua fabricação, a sua apropriação pela arquitetura, ao legado artístico, contribuindo para se fazer, como resume, "uma viagem por Portugal e pela nossa história através dos azulejos". A ler, quanto mais não seja para se perder a indiferença com que se olha esta arte muitas vezes.

Victor Sousa Lopes

Editora Guerra & Paz

255 páginas

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