Entrevista de Silva Carvalho ao DN a 28 de Julho de 2011

No dia 28 de Julho de 2011 Jorge Silva Carvalho deu uma entrevista exclusiva ao DN em que afirmou não ter violado o dever de sigilo nem segredos de Estado. Leia aqui na íntegra essa entrevista.

Qual é a ligação que tem com os serviços de informações e como Estado português? Nenhuma. Pedi exoneração não só das minhas funções como director-geral mas também de quadro do SIS.No entanto, a legislação permite que um quadro dos serviços de informações, com mais de seis anos de serviço, tenha automaticamente um vínculo à função pública, neste caso à Presidência do Conselho de Ministros.No dia a seguir à minha demissão entrei com um processo de solicitação dessa vaga, mas até hoje não obtive resposta.

Quais são as suas funções na Ongoing, a quem reporta?

Reporto directamente ao Conselho de Administração (CA) da holding da Ongoing, a Ongoing Strategy Investments, sou assessordo CA. Ocupo funções executivas em algumas empresas do grupo, como a Ongoing Shared Services (OSS), de serviços partilhados, que faz todas as funções de recursos humanos, informática, contabilidade, gestão administrativa, patrimonial e financeira de todas as empresas do grupo. É particularmente grata para mim esta responsabilidade e insere-se no processo que estamos a fazer de profissionalização e organização da estrutura da Ongoing. Sou também director corporativo com responsabilidade do Centro Corporativo da Ongoing. Este centro consiste em seis direcções com pelouros específicos, como a comunicação, relações institucionais, auditoria de gestão e informática, segurança, entre outros. A OSS é a coluna vertebral do grupo, e o centro corporativo o seu centro nevrálgico.

Como separa todos os conhecimentos que adquiriu em 21 anos nos serviços de informações com os interesses da Ongoing em matérias que até coincidem com as suas especialidades, como África ou o Brasil? Quando saídos serviços encerrei uma fase da minha vida. Fi-lo de forma transparente e publicamente, assumindo as minhas opções. Vim para esta empresa ocupando uma posição oficial, não me escondendo, como me chegou a ser sugerido, em consultorias de vão de escada. Encontrei uma equipa jovem e dinâmica num grupo que émultinacional, que tem 1500 colaboradores e opera em diversos sectores. Quanto à separação, o que posso dizer é o seguinte: trabalhei toda a vida nas informações, na qual tive a sorte de ser, desde muito cedo, encarregado de funções de chefia. Aprendi a ser gestor muito cedo. Ou seja, eu não sou só, como muitos seus colegas insistem em chamar-me, um "super espião". Sou um gestor público, que por acaso trabalhou nos serviços de informações. Hoje, o que tenho feito aqui na empresa, essencialmente, é gerir e organizar a estrutura do grupo.

E em relação às matérias denunciadas pelo"Expresso"?

O que o Expresso fez foi uma clara tentativa de linchamento público. O sentimento que tive quando o li foi de profunda indignação. Eu não sou um menino de coro, mas há limites. O meu processo de transição para a Ongoing foi feito da forma mais transparente possível. Não fui o primeiro dirigente a sair dos serviços para uma actividade privada. Este tipo de acusação só visa atingir a minha dignidade pessoal. Eu tenho a minha consciência tranquila e aquilo que posso garantir é que, independentemente da informação que o Expresso tenha em seu poder, tenho a certeza absoluta de que nenhuma daquelas situações constitui uma violação do meu dever de sigilo ou uma violação de segredo de Estado.

Confirma que enviou informação sobre aqueles assuntos?

Sobre algumas daquelas matérias reconheço que sim, são temas que me são familiares, outros confesso que não sei situar. Mas, como já disse, não há em qualquer desses temas violação do dever de sigilo nem do segredo de Estado.

E qual era o interesse da Ongoing nestas informações?

Não queria adiantar mais sobre isto. Gostaria de dar as minhas explicações em sede própria, na Assembleia da República.

Mas enviou "mails" sobre estas matérias para a Ongoing enquanto era director do SIED? Esclarecerei os senhores deputados (ver pág.10), mesmoque esta não resposta agora me penalize. Mas há matérias que não podem mesmo ser discutidas publicamente. Independentemente de ter ou não enviado os e-mails, o que está aqui em causa é que todos eles têm uma justificação, seja para a Ongoing ou para qualquer outra pessoa, e eu terei todo o prazer de os esclarecer quando confrontadodirectamente com os mails que o Expresso diz ter. De qualquer forma, os meus advogados entendem que há ali um claro indício de actividades ilícitas. Estamos a falar da minha correspondência pessoal. Do que me recordo, alguma daquela matéria foi enviada de minha casa, do meu computador pessoal e mail particular. Acho estranho que o Expresso tenha utilizado esse tipo de fonte. É muito provável que entre uma acção de violação de correspondência privada esta semana.

Mas é normal os serviços passarem informação às empresas privadas? Os serviços de informações não colaboram, por regra, com as empresas privadas. As empresas privadas podem ou não ser estratégicas para o interesse do Estado e só nessas circunstâncias há essa colaboração. Em qualquer caso que o Estado tenha determinado isso, posso garantir que tudo foi feito dentro da lei, registado, documentado, com autorização superior.

Que interesses podem ter os serviços nos investimentos de uma empresa de comunicação social privada em Angola e vice-versa? Estou a falar da questão, também levanta da pelo "Expresso", de um suposto relatório sobre a relação de José Eduardo Moniz e de Bernardo Bairrão, com a TV privada em Angola, a TV Zimbo... Não falo sobre isso. O SIED tem obviamente interesse em tudo o que é a actividade securitária, de defesa, económica e política de países comos quais Portugal tem rivalidades ou interesses estratégicos fundamentais.

Mas o relatório foi ou não foi feito? Não posso falar sobre isso.

Mas não é normal que os serviços de informações informem o primeiro-ministro sobre as pessoas que podem ir para o Governo? No caso Murdock, o primeiro-ministro britânico está a ser acusado de não ter investigado previamente o seu assessor. Não é preciso dizer mais nada, pois não? Os serviços têm as competências especificadas na lei e essas informações só são produzidas dentro dela, seja qual for o indivíduo ou o cargo. O que pode estar em causa são acções que possam pôr em causa o Estado de direito, o terrorismo, a espionagem, entre outros. Esse é o trabalho dos serviços.

Bernardo Bairrão enquadra-se em algum desses contextos?Não faço a mínima ideia.

Mas alguma vez viu algum relatório sobre a actividade dele e do José Eduardo Moniz em Angola? Mesmo que soubesse não podia dizê-lo aqui.

É pública a "guerra" entre a Ongoing e a Impresa, de Francisco Pinto Balsemão. Qual o seu papel nesta batalha?

A Impresa é o maior grupo de comunicação social do País e tem meios poderosos para fazer o convencimento das massas. Não há conflito possível com a Ongoing, na qual a vertente media não ultrapassa os 5% de volume de negócios. Sempre achei estranho a tentativa de fazer da Ongoing uma espécie de grande navio de guerra para combater um porta-aviões como a Impresa. Houve uma altura em que alguém pôs a circular que nós, da Ongoing, éramos "perigosos". Mas perigoso é quem utiliza os seus meios para tentar liquidar uma pessoa, como aconteceu este sábado no Expresso. Perigoso é quem anda na política, no empresariado, na economia e no jornalismo há mais de 20 anos. Agora, não deixo de notar que sempre que queremos fazer valer os nossos direitos de accionistas da Impresa em tribunal, somos alvo de notícias nos órgãos da própria Impresa. Não me surpreenderia que esta entrevista desencadeasse outras notícias do género.

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