"Em 2023 podemos ir de Lisboa para lá de Vila Franca de Xira sempre junto ao rio"

O vereador do Ambiente da Câmara de Lisboa, que lidera o grupo de trabalho para as Jornadas Mundiais da Juventude, garante que a grande iniciativa católica vai permitir unir Lisboa a Loures num grande parque e libertar a frente ribeirinha dos contentores.

Porque aceitou este projeto complexo de organizar as Jornadas Mundiais da Juventude 2023?
A primeira razão é porque vai acontecer um grande parque que une dois concelhos e se eu lutei para ver muito mais parques na cidade de Lisboa, a luta seguinte é óbvia, é fazer parques que unem concelhos. Depois porque é junto ao rio Tejo. Vim agora de uma ida ao inicio do rio, onde estive com o alcaide da primeira aldeia do Tejo, e o rio é extraordinário, começa de uma maneira incrível, num sítio cheio de trufas e trutas. Tenho uma paixão pelo Tejo há anos, fazer esta parte onde o rio agora não se vê, em que não se consegue saltar o Trancão, é uma coisa muito boa para os dois concelhos, para a cidade e para o rio. Em 2023 podemos ir de Lisboa para lá de Vila Franca de Xira sempre junto ao rio, vai ser uma descoberta extraordinária, ainda por cima porque à frente temos a reserva do estuário do Tejo, o segundo sítio de maior nidificação de aves da Península Ibérica. Vamos consignar a ponte sobre o Trancão para a próxima semana, o concurso já está lançado. Esta ponte é uma coisa que já tinha pensada, a ligar os dois concelhos e o concelho de Loures tem um projeto fantástico de uns passadiços junto ao rio e que as Jornadas vieram agora dizer vamos fazer melhor do que imaginámos. Tínhamos imaginado um percurso e agora além dele vamos ter um parque. Terceira razão, este é um evento de uma dimensão que Portugal nunca recebeu concentrado numa semana, o que é um grande desafio.


Escreveu-se em tom de crítica sobre a sua escolha pelo governo, que nem sequer é católico, quando o evento é promovido pela Igreja...
Para já sou católico e praticante. Mas nem sequer quero falar disso, porque não há justificação nenhuma para ter um desafio destes. Aliás, o próprio bispo disse que isso não era condição, mas a de uma pessoas que estivesse habituada a fazer parques e é indiscutível que eu nos últimos 14 anos o que fiz foi isso. Muito embora pessoalmente o facto de ser um evento católico não posso esconder que me agrada. É também por ser este Papa que é uma figura extraordinária e um evento de malta nova. Depois destes covid's haver um acontecimento, seja católico ou o que for, e que dê esperança e a esperança está na malta nova para mim é um grande desafio. Não foi pela qualidade de ser católico que fui escolhido, o que o bispo queria é que fosse uma pessoa competente, mas acho ficou contente por ser uma pessoa sénior e com experiência na matéria. Tenho uma fezada que 2023 vai ser um grande ano para toda a gente porque o covid foi já mesmo embora e estamos com vontade de nos encontrarmos e de viajarmos.


Que equipa tem neste projeto?
Isso é o que resulta dos decretos-lei do governo, é uma equipa de missão, sou eu e três adjuntos e mais três pessoas. Parece pouca gente para uma coisa desta dimensão, mas temos de perceber que a câmara de Lisboa vai ter uma equipa dela, a de Loures também terá alguém dedicado ao evento e a Igreja, que é o organizador, vai ter uma equipa que calculamos que lá para março ou abril do ano que vem são mais de 300 pessoas.


E o seu papel nisso tudo?
Para que é que eu sirvo? Sirvo para telefonar 'então já lançaram o concurso?'; e tentar coordenar interministerialmente e com as câmaras a organização disto que não vai ser fácil. Porque tenho de falar com as Infraestruturas de Portugal por causa dos contentores que ainda lá estão nos terrenos e têm que sair, tenho de falar com as câmaras para lançarem os concursos para que o terreno fique preparado para a zona, o concurso para o aterro aqui de Lisboa é lançado para a semana. Ainda não estou nessas funções, mas estou na de vereador da Câmara de Lisboa, responsável pelas jornadas em Lisboa.


O plano de requalificação daquela zona está a ser desenhado por si?
As Jornadas são um legado que fica, está-se a mesmo a ver o nome que vai ter no futuro, não quero antecipar...


Mas prevê que será?
Papa Francisco (risos), não tenho assim grandes dúvidas, porque é uma figura universal.


E no que diz respeito à reconversão daquela zona?
Há dois momentos, o de recebermos o evento e depois o acabar o parque. Porque há infraestruturas que não podemos fazer agora e a previsão do número de pessoas que vem não permite pôr um parque infantil, etc. E esse é outro problema, qual é a multidão que esperamos? Ainda há alguma incerteza nisso e quem nos vai dizer vai ser a Igreja porque é quem sabe a medida do que vai acontecer. Mas também não pode hoje saber, pode ser um milhão como três milhões.


Depende da evolução da pandemia.
Sim, mas a diferença é abismal. Organizar um evento com uma diferença de pessoas desta envergadura não é fácil.


Mas o que será criado naquela zona, independentemente do número de jovens que venham às Jornadas?
Vamos dividir isto em áreas. A do alojamento, onde é que os miúdos dormem? Está a ser programado pela Igreja um alojamento que vai quase até Setúbal para serem recebidos em casa de pessoas, mas tudo muito bem filtrado. De qualquer maneira temos de nos preparar para que uma das noites, esses jovens possam dormir lá, mas isso é abrir a tenda ou o saco-cama. Em segundo é a mobilidade, também de alta complexidade e quer numa quer noutra área vou entrar a coordenar, sobretudo na área da mobilidade tenho mais intervenção, nomeadamente junto de vários ministérios. O aeroporto tem de ter canal aberto para os milhares de miúdos que vêm, as camionetas que vêm de Espanha, França, etc, têm de ficar num determinado sítio e tem de haver uma circulação dos miúdos. Por isso nesta equipa têm de estar pessoas que saibam mesmo da matéria. Nas seis pessoas que me vão ajudar um tem de ser engenheiro de alta categoria e com currículo, um arquiteto com o mesmo perfil, uma pessoa que se dê muito bem com Loures e outra que se dê muito bem com Lisboa, depois faltam mais duas pessoas que se escolherá conforme a evolução do evento. Tem de ser mesmo pessoas com alta categoria, com um ordenado que está estipulado e que não é propriamente para pessoas de alta categoria. Depois a Igreja vai ter muitos voluntários de alta categoria, que são as empresas que lhes fornecem. Há também a área da alimentação e a higiene no recinto. E depois as pessoas conseguirem ver, já que aquilo é tão grande que tudo tem de estar preparado para as pessoas verem e o Papa ir a todo o lado. O Papa quando entrar no recinto tem de ir a todo o lado para as pessoas não dizerem que não viram o Papa (riso). Aquilo é tão grande que haverá pessoas que ficam a um quilómetro, tem de haver écrans para se ver. Será um grande momento de alegria. Não fui a nenhumas jornadas da Juventude, mas há quem tenha ido e é um momento da malta todo do mundo.


E no pós Jornadas, mantém-se apenas um parque naquele espaço?
Será um grande parque, com uma parte urbanizável do lado de Loures. Isto era uma coisa que ia acontecer em Lisboa e provavelmente em Loures também. O António Costa quando teve aquela campanha do burro contra o Ferrari (1993), já dizia que tirava dali os contentores, mas só agora, só agora. Em Lisboa já estávamos a estudar como tirávamos a rede à volta do aterro e ali se fazia um parque e está tudo estudado. É esse concurso que vamos lançar dentro de 15 dias.


E para onde vão os contentores?
O aterro fica lá porque já passaram mais de 20 anos. Não se pode é perfurar. Aliás, em Lisboa os dois aterros que tínhamos vão ser dois parques, este e o do Vale do Forno, que está em concurso e que vai ser um parque também espetacular - já não faz parte das jornadas, mas é um legado que deixo - e que vai unir Odivelas a Lisboa. Neste aterro onde vão ser as jornadas é a zona onde irá ficar o altar/palco, uma coisa com mais de 100 metros e que está a ser pensado com o LNEC e que depois ficará um espaço público, que poderá levar um parque infantil ou outro equipamento, mas é um sítio de estar e não vai levar grandes infraestruturas. A ponte por cima do Trancão vai ser consignada agora e do lado de Lisboa vamos também arranjar todos aqueles parques de estacionamento à volta do aterro e junto do Trancão e do colégio Pedro Arrupe e fica uma zona verde. Para já não vamos pôr bancos, mas depois sim e um caminho para completar.


E os contentores?
Do outro lado de Loures, os contentores que fazem parte das Infraestruturas de Portugal estão a estudar. Tive já uma reunião para perceber isso e das três hipóteses uma será escolhida, mas isso é um problema das Infraestruturas. Estou todo contente que os contentores saiam dali, não faz sentido termos uma frente ribeirinha com contentores. Ou vão para a parte norte dos terrenos que ainda estão afetos ao caminho-de-ferro e ficarão muito afastados, quase ao pé da Valorsul, ou vão para o Poceirão. Temos a garantia das de Portugal que em dezembro de 2022 não há contentores nesta zona.


Está convencido que é possível organizar tudo neste espaço curto de tempo?
Essa é a parte mais difícil, porque depois da saída dos contentores tem de se arranjar o terreno para receber o evento e como se articula isso com o caminho-de-ferro, com os apeadeiros de Loures. É um espaço curto nesse sentido e tem de haver uma grande articulação e boa vontade entre todas as instituições porque têm de agir com rapidez. O tal parque imaginado por António Costa há 20 anos vai ser concretizado.


As jornadas estão previstas para que data concreta?
A data ainda não está fechada, a Igreja decidirá, mas será fins de julho ou princípios de agosto, porque é o tempo de férias na Europa.


paulasa@dn.pt

Mais Notícias

Outras Notícias GMG