"Dúvidas" de que a coligação PSD/CDS chegue ao fim

O antigo líder democrata-cristão Manuel Monteiro disse hoje, em Coimbra, que tem "muitas dúvidas" de que a atual coligação PSD/CDS que governa o país chegue ao fim do mandato.

"Acho que o CDS tem aguentado estoicamente algumas desconsiderações políticas e que há-de chegar o momento, por certo, em que terá de tomar uma posição firme, se não quiser ser arrastado para uma situação na qual, eventualmente, não quer estar", afirmou, em declarações à agência Lusa.

Manuel Monteiro, que falava à margem de uma tertúlia sobre a "Direita e Esquerda", no Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Coimbra, onde participou juntamente com José Manuel Pureza, do Bloco de Esquerda, disse esperar que a coligação chegue ao fim, "o que seria bom", mas disse "ter dúvidas".

O antigo presidente do CDS-PP, atualmente afastado da vida político-partidária, considerou que existe hoje uma classe política no poder e na oposição "mais preocupada com a sua sobrevivência do que com a construção de soluções nacionais que a todos nos retirem do naufrágio para que estamos a caminhar".

"Assisto em silêncio, cada vez mais, a uma coisa que para mim é tão grave quanto a crise financeira, que é a ausência de valores, até de valores ideológicos no combate político, e isso parece-me que é grave, porque quando os partidos perdem o norte em termos de referências, depois dificilmente se entendem em termos de propostas de resolução", sublinhou.

Sobre a atuação do Governo, o antigo dirigente do CDS considerou que teve "uma desilusão muito profunda, por ter sido dos portugueses que acreditou que as coisas iam mudar", nomeadamente em coisas simples, como a "composição das assessorias".

"Tenho uma desilusão muito profunda porque acho que o Governo para exigir aos portugueses aquilo que provavelmente tem de exigir devia dar o exemplo. Eu esperava que a composição de assessorias, entre outras, tão arduamente, e bem, criticada em relação ao anterior Governo tivesse mudado, mas infelizmente não vi isso", frisou.

As críticas de Manuel Monteiro estendem-se também ao Presidente da República, que considera estar a ser um elemento "muito passivo" na situação atual do país, quando tinha "o dever de chamar os intervenientes políticos e de os sentar à mesma mesa no sentido da conversação".

"É grave e preocupante ver que temos um chefe de Estado, independentemente de sabermos se envia ou não o Orçamento para o Tribunal Constitucional, que deveria ser um elemento ativo e nunca passivo", disse o antigo líder do CDS-PP, partido que liderou entre 1992 e 1998.

Manuel Monteiro entende que Cavaco Silva devia, à semelhança de anteriores presidentes da República, "juntar as pessoas e dizer aos partidos políticos da oposição e do poder, principalmente os mais relevantes, que têm necessariamente de se entender, porque o país se afunda todos os dias".

"O doutor Jorge Sampaio, em determinados momentos, chamava os líderes políticos, da esquerda e da direita, e pedia-lhes, em Belém, convergência em relação a determinados assuntos que eram transversais e nacionais", recordou o antigo deputado, salientando que "é isso que se espera e se exige de um chefe de Estado".

"E isso eu infelizmente não tenho visto", concluiu.

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