Dilma Rousseff prefacia livro de Sócrates sobre as acusações do MP

Antiga presidente do Brasil cita O Processo, de Kafka, e compara caso do antigo primeiro-ministro em Só Agora Começou, cuja pré-publicação poderá ler domingo em exclusivo no DN, ao de Lula. "A mentira será desmascarada", escreve.

Só Agora Começou, livro que José Sócrates vai lançar nos próximos dias a propósito da Operação Marquês e cuja pré-publicação poderá ler este domingo em exclusivo no DN, tem prefácio de Dilma Rousseff. A antiga presidente do Brasil inicia o texto, sob o título "Em Pleno Século 21, A Luta Contra a Injustiça e o "Lawfare"", com trechos de O Processo, de Franz Kafka, e termina citando o artigo "J"Accuse", de Émile Zola. Pelo meio, traça paralelo entre a situação de Sócrates, em Portugal, e a de Lula da Silva, no Brasil.

"A história [de Sócrates] é inacreditável, mas não ocorreu de maneira inédita. Está no manual do 'lawfare' usado rotineiramente contra líderes políticos. O uso da lei como arma de destruição civil e criminal de líderes políticos, caracterizando o que ficou conhecido como justiça do inimigo", escreve Dilma, presidente brasileira de 2011 a 2016, ano em que sofreu impeachment e foi substituída por Michel Temer, seu vice-presidente. "A obra de Kafka tem a denúncia do aparelho do Estado a serviço de uma absurda perseguição implacável contra um cidadão. Acontece na ficção, mas também na vida real. Esta é a denúncia de José Sócrates, o ex-primeiro-ministro de Portugal, neste livro Só Agora Começou, em que relata a trama digna de um thriller político, como no romance O Processo", diz a autora do prefácio.

Da comparação com o caso de Joseph K, Dilma passa para Lula. "Os paralelos entre a situação vivida pelo veterano líder do Partido Socialista (...) e a do ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva salta aos olhos de quem lê esta obra, uma contundente denúncia política de Sócrates". "Não tenho dúvidas de que, assim como no caso de Lula, em que o Supremo Tribunal Federal demorou 2 anos, mas fez justiça e reconheceu a 24 de março que o ex-juiz Sérgio Moro foi parcial e submeteu o ex-presidente do Brasil a uma perseguição implacável, o mesmo se sucederá com Sócrates. Nenhum mal dura para sempre. A mentira sempre será desmascarada". O livro do ex-primeiro-ministro usa o recurso da dupla voz, alternando trechos escritos em 2014, à época dos acontecimentos, com outros redigidos em 2018, quando o livro foi terminado. A Operação Lava Jato é um dos fios condutores da obra.

Para Dilma, o mais vergonhoso da Operação Marquês é ter ocorrido "em Portugal, coração da Europa Moderna". "A denúncia de seu suposto envolvimento em corrupção só foi oficializada um ano e meio depois dele ter sido encarcerado numa prisão preventiva que por si só já escandalizaria qualquer defensor do Estado Democrático de Direito. E isso aconteceu debaixo dos olhos da opinião pública de Portugal, no coração da Europa Moderna. Para vergonha de todos".

"No momento em que escrevo este texto, a imprensa destaca que o caso da Operação Marquês vai a julgamento em 9 de abril. Ou melhor, em 9 de abril um tribunal irá decidir se o caso vai a julgamento. Quase sete anos depois da prisão".

O que a leva à citação de Zola na defesa do capitão Alfred Dreyfus, no final do século 19, no artigo "J"Accuse"": "Ah!, que agitação de demência e imbecilidade, de imaginações estúpidas, de práticas de políticas mesquinhas, de costumes inquisitoriais e tirânicos, a satisfação de alguns agaloados esmagando a Nação com suas botas, enfiando goela abaixo seu grito de Verdade e Justiça, sob o pretexto mentiroso e sacrílego da Razão de Estado! E é um crime ainda terem se apoiado na imprensa imunda, terem se deixado defender por toda a canalha, de modo que é essa canalha que triunfa insolentemente, diante da derrota do direito e da simples probidade".

A ex-presidente do Brasil remata com "a verdade prevalecerá". "... Quando o julgamento não se dá apenas no tribunal de Justiça, mas na corte da opinião pública, moldada pelos meios de comunicação e alimentada pelos algozes. Ainda assim é preciso perseverar e não desistir. A verdade prevalecerá".

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