Desconfinamento. Marcelo avaliza mas Rui Rio critica

Presidente da República aplaude prudência do plano apresentado quinta-feira pelo primeiro-ministro e vai ao ponto de dizer que a "convergência" entre ambos terá de ir "até ao fim da pandemia" porque "esta é uma luta de todos". Já Rui Rio criticou a abertura imediata do 1.º ciclo do ensino básico.

A primeira reação pública do Presidente da República ao plano de desconfinamento anunciado quinta-feira pelo primeiro-ministro desmentiu de forma suficientemente categórica a existência de atritos entre a sua perspetiva e a de António Costa quanto à forma de combater a pandemia.

Falando em Roma com jornalistas depois de ter sido recebido em audiência pelo Papa Francisco (ver mais noticiário na página 8), Marcelo Rebelo de Sousa fez questão de enfatizar que se mantém a "convergência" entre ele e o primeiro-ministro. E mais: essa convergência irá "até ao fim da pandemia em matéria de pandemia" e "tem sido muito intensa" porque esta "é uma luta de todos".

Comentando a substância do plano, o Presidente da República disse parecer-lhe que se "chegou a um equilíbrio muito razoável e muito prudente entre o que era a posição dos especialistas, dos partidos e do que o Governo estava a estudar e do que o Presidente da República pensava".

"Há aqui uma preocupação de conciliar a ideia de desconfinamento com prudência e preocupação" e "[o plano] permite confirmar várias coisas: em primeiro lugar, a coincidência e a convergência, não só institucional como também estratégica, que tem envolvido o Presidente da República, a Assembleia da República e o Governo, que continua e vai continuar até ao fim da pandemia", insistiu.

Em segundo lugar, "o plano tem a preocupação de ir até maio, o que é bom por não ser demasiado longo e ser flexível nos indicadores escolhidos na forma como ligados com as medidas, de salvaguardar uma ideia que me parecia importante, da Páscoa com confinamento", acrescentou.

Marcelo diz que "há um equilíbrio muito razoável e muito prudente entre o que era a posição dos especialistas, dos partidos, do Governo e o que o Presidente da República pensava".

Classificando o plano como "positivo", o chefe de Estado saudou a ideia de este prever "uma Páscoa confinada" e ainda a "ideia de uma abertura progressiva e permanentemente acompanhada das atividades económicas e sociais e a prioridade dada à escola". "É prudente fazer este equilíbrio [porque] nunca sabemos o que se passa na circulação das pessoas e do vírus e esta abertura em Portugal ser feita de forma gradual e que olha para o que se passa na Europa, onde uma parte significativa tem um panorama mais negativo do que positivo", afirmou.

Marcelo aproveitou ainda para confirmar que tinha combinado com o primeiro-ministro não fazer desta vez uma mensagem sobre a renovação do estado de emergência por estar nessa altura a voar para Roma. "O primeiro-ministro falou mais tarde do que a partida do Presidente e, portanto, fazia sentido ser o primeiro-ministro a apresentar o plano em concreto aos portugueses e era impossível ao Presidente estar a intervir depois disso", explicou.

Segundo acrescentou, só em Roma teve conhecimento detalhado do plano de desconfinamento mas antes já tinha uma "noção geral" do que seria anunciado. "Corresponde à mesma preocupação, de abrir até à Páscoa sobretudo a atividade escolar e mais um ou outro ponto específico da atividade social e de ter uma Páscoa confinada - que não é apenas com recolher obrigatório, mas ainda com confinamento - e de fazer uma abertura a partir da Páscoa até maio com passos sucessivos."

Quem criticou o plano foi o presidente do PSD - mas num registo suave, de modo a não ficar totalmente isolado face à "convergência" entre Marcelo e Costa.

Segundo disse, o plano tem "as balizas certas". "É uma metodologia que já deveria ter sido adotada há mais tempo, mas é melhor agora que nunca. O país tem as balizas certas para saber como vai evoluir", afirmou.

Segundo acrescentou, o que foi anunciado por António Costa corresponde, "na componente estrutural", ao que o PSD tem vindo a dizer que é necessário fazer: "Fixar indicadores que vão monitorizando níveis de confinamento que a sociedade vai tendo e que foram definidos por especialistas, eventualmente um pouco corrigidos pelo Governo",

Contudo, criticou a decisão de na próxima segunda-feira se abrirem as creches e o 1º ciclo do ensino básico nas escolas. "Teria sido um pouco mais prudente na questão das escolas e não teria incluído já o 1.º ciclo. Atrasaria por 15 dias a abertura do primeiro ciclo", afirmou, numa conferência de imprensa de apresentação de candidatos autárquicos em Coimbra.

Segundo revelou, estas suas reservas têm a ver com a evolução do índice de transmissibilidade (ver notícia ao lado). "Está abaixo do 1, mas tem-se degradado e tem-se aproximado do 1. É preciso perceber bem porque é que, em confinamento, o R(t) se tem degradado, quando deveria estar a baixar. Agora que vamos desconfinar, corremos o risco de se degradar mais e passar o 1 e aí tudo volta ao princípio", alertou. "Sabemos a força que as escolas têm para multiplicar o vírus, nos efeitos diretos e depois efeitos nos indiretos. Eu teria tido esse cuidado."

De resto, as reações dividiram-se em função da posição de cada partido em relação ao problema do confinamento. Quem é contra - como o PCP, o Chega ou a Iniciativa Liberal, que votam sempre contra os estados de emergência - criticou o plano por achá-lo muito lento na sua aplicação.

Já quem tem votado a favor dos estados de emergência - como o CDS-PP - considera que pode estar a faltar prudência. "Este plano de desconfinamento privilegia a velocidade à razoabilidade", disse o líder centrista. Para Francisco Rodrigues dos Santos, o modelo de referência deve ser o Reino Unido, que tem um plano "muito mais espaçado para as diferentes atividades".

joao.p.henriques@dn.pt

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