"Saída de cena em 2023? Tenho de falar com a minha mulher..."

Primeiro-ministro e secretário-geral do PS em entrevista a Miguel Sousa Tavares no Jornal da Noite da TVI

António Costa não revelou o que vai decidir em 2023, quando terminar o atual mandato à frente do PS, mas garantiu que não foi apontar sucessores nem minar o caminho de possíveis candidatos à liderança do partido.

"Acabo de ser reeleito secretário-geral e tenho mandato até 2023. Tenho de estar concentrado na minha missão a 200%. Em 2023 vou fazer aquilo que qualquer responsável político deve fazer. Tenho de falar com a minha mulher para vermos como é a nossa vida. Não vou fazer nenhum tabu. Ninguém responsável toma nenhuma decisão a dois anos de distância. Não vou nomear sucessores nem vou minar aspirações de A, B ou C", afirmou o primeiro-ministro em entrevista levada a cabo esta segunda-feira por Miguel Sousa Tavares na TVI e na TVI 24.

O também secretário-geral do Partido Socialista justificou a harmonia entre militantes no congresso de partido com o foco no momento que o país vive. "PS é um partido com uma enorme responsabilidade, que governa um país num momento muito desafiante. Estamos concentrados no essencial, na ação governativa. Estamos focados em controlar a pandemia e relançar a economia", explicou.

"Fomos o país da UE que mais cresceu no último trimestre"

António Costa revelou que houve "momentos" em que temeu que o país fosse "ao fundo" devido ao impacto da pandemia de covid-19, mas mostrou-se satisfeito ao dar conta da recuperação económica do país.

"Hoje conseguimos, através da vacinação, uma fase de controlo da pandemia. Vamos chegar a um ponto de segurança. As nossas empresas mostraram uma resiliência impressionante. Estamos com uma taxa de desemprego inferior à que tínhamos nesta crise. A população ativa a trabalhar atingiu máximos históricos, temos cerca de cinco milhões de pessoas a trabalhar. As medidas do Governo deram um contributo muito decisivo. O barco demonstrou resistir bem às tormentas", afirmou, salientando que Portugal foi "o país da União Europeia que mais cresceu economicamente no último trimestre", o que poderá fazer com que os apoios às empresas diminua: "Hoje os apoios podem diminuir, porque as dificuldades são menores. Estamos de novo a crescer acima da média europeia."

Embora o desemprego esteja em queda e a população ativa a subir, o setor da construção civil vive uma crise de mão-de-obra. "Não existe relação entre oferta de emprego e procura de emprego. Hoje, a população está mais qualificada e a expectativa é de chegar a empregos mais bem pagos. A economia é todo um conjunto. Precisamos que as empresas paguem melhor e que as pessoas tenham mais rendimentos para ajudar a economia. O nó desata-se com mais qualificações. Adotámos uma medida no ano passado que é o IRS jovem, um apoio para que os jovens tenham o maior rendimento possível nos primeiros anos", vincou.

António Costa aproveitou ainda para defender os serviços do Estado, como o Serviço Nacional de Saúde e a Segurança Social. "Os serviços do Estado são essenciais. Qualidade nos profissionais de saúde e do Serviço Nacional de Saúde salvou muitas vidas. Quando tivemos que fechar as escolas, o ensino à distância e afetou as desigualdades. Sem um Estado forte e uma segurança social forte, o Estado nunca teria sido capaz de dar resposta", apontou.

"É diferente ser vizinho da Alemanha e de Espanha"

Questionado sobre a ultrapassagem em termos económicos por parte de países do antigo bloco de Leste, que até aderiram à União Europeia depois de Portugal, o primeiro-ministro deu uma resposta com recurso à geografia.

"Ao longo destes anos, aproximamo-nos dos países mais desenvolvidos da Europa. Dos que entraram depois de nós na União Europeia, só quatro nos ultrapassaram. É diferente ser vizinho da Alemanha e ser vizinho de Espanha, é diferente estar no centro da Europa ou estar numa ponta da Europa", justificou, voltando a falar daquela que entende ser a "geração mais qualificada de sempre".

"Quando em 1995 António Guterres se tornou primeiro-ministro, 12% das pessoas tinham grau de ensino superior, hoje são 42%. Esta geração atualmente é objetivamente a mais qualificada. Estamos a trabalhar para fazer desdobramentos no IRS depois de terem sido comprimidos no tempo da troika", salientou.

Por falar em Europa, Costa garante que a "aplicação de fundos europeus tem sido boa". "Temos requalificado a Estrada Nacional 14, que era uma reivindicação antiga. Quando Estado requalifica sistema de saúde e faz avanços informáticos na Justiça, é a pensar nos cidadãos", acrescentou, rejeitando a ideia de que os concelhos em que o PS ganhar nas autárquicas possam ser beneficiados.

"O Plano de Recuperação e Resiliência teve o maior debate público da história e vai ser executado independentemente de o PS ganhar ou não em cada autarquia. Portugal até agora não tem desperdiçado fundos europeus", garantiu, apontando à transição climática e à transição digital.

"Até às eleições todos vão bater no PS"

Sem comentar a possível mudança na liderança do PSD, de Rui Rio para Paulo Rangel, António Costa pediu uma "alternativa forte" ao Governo para "combater o populismo". "Não gosto de hostilizar ninguém. Tenho a ideia que um fator decisivo para combater o populismo é apresentar uma alternativa forte. Foi o que aconteceu em 2001 e 2005. Temos de preservar a nossa democracia", defendeu.

A Jerónimo de Sousa, que acusa o Executivo de levar a cabo políticas de direita, o primeiro-ministro dá o "devido desconto". "Rui Rio também disse que o PS era um partido dominado pela extrema esquerda. O que é que eles podem dizer? Até às eleições todos vão bater no PS", atirou.

TAP e aeroporto

António Costa garantiu que a "TAP está a fazer o seu caminho, já retomou 50% da sua atividade e é a terceira maior exportadora nacional" e avisou que a "crise da aviação é mundial".

Ainda sobre matéria de aviação, o líder do Governo considerou "lamentável que estejamos a discutir onde vai ser o aeroporto". "Em vez de reabrir esse debate, decidi seguir a escolha do Governo anterior, que nem era a do PS. O novo aeroporto vai ter necessariamente que haver. Infelizmente o PSD mudou de liderança e a posição também mudou. Vai ser feita uma nova avaliação ambiental estratégica. O país precisa urgentemente deste aeroporto", rematou.

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