Costa e Rio. O primeiro confronto depois da entrevista da rutura

Os líderes do PS e do PSD enfrentam-se esta quarta-feira, em mais um "debate com o Governo sobre política geral". Nunca a relação entre ambos esteve tão crispada como agora.

Longe vão os tempos em que António Costa e Rui Rio se cumprimentavam cordialmente. Sendo que se continuam a cumprimentar, a verdade é que a cordialidade desapareceu. Esta quarta-feira à tarde confrontar-se-ão diretamente pela primeira vez desde a entrevista DN/TSF/JN em que o primeiro-ministro disse que Rio não alcançava sequer a dignidade de um cata-vento porque "um cata-vento ao menos tem pontos cardeais, o dr. Rui Rio não tem". O confronto será no Parlamento, em mais um "Debate com o Governo sobre política geral", o modelo bimensal (de três horas) que sucedeu - por acordo entre Costa e Rio - aos antigos debates quinzenais.

Odemira, TAP, Groundforce, justiça, Novo Banco, reforma das Forças Armadas. Estes deverão os temas centrais do debate, estando dois governantes na berlinda: o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita (por causa da questão de Odemira), e o secretário de Estado da Energia, João Galamba, o qual, numa publicação no Twitter (que retirou), qualificou o programa da RTP Sexta às 9 como "esterco" e "coisa asquerosa que quer ser considerada "um programa de informação"". A demissão de ambos já foi pedida pelo CDS-PP, por exemplo. E o Presidente da República disse o que disse ontem, enfatizando a "necessidade" de, "em relação a Odemira", se "retirar muitas consequências políticas".

"É natural agora que os dois partidos sintam necessidade de repor elementos de diferença entre ambos."

Esta terça-feira, o primeiro-ministro começou a tentar desarmadilhar o debate de hoje deslocando-se inesperadamente a Odemira, para uma reunião com as autoridades locais. Comunicou ao Presidente da República que o Governo já tinha decidido levantar a cerca sanitária que foi estabelecida há duas semanas em torno das freguesias de São Teotónio e Longueira/Almograve. Pelas 18.15, foi Marcelo quem deu a novidade ao mundo: a cerca seria levantada "hoje mesmo". Depois o primeiro-ministro limitou-se a confirmar. Ser Marcelo a fazer o anúncio dará hoje ao primeiro-ministro no debate na AR o argumento de que a decisão sobre Odemira teve o respaldo presidencial.

O politólogo António Costa Pinto, ouvido pelo DN a propósito desta nova fase no relacionamento Costa/Rio, relaciona-a com a aproximação das eleições autárquicas. "É natural agora que os dois partidos sintam necessidade de repor elementos de diferença entre ambos", afirma.

Assim, "há uma tentativa de polarização por parte do primeiro-ministro", o que passa por "estigmatizar o PSD como um partido a caminho da direita radical". Dito de outra forma: Costa "procura crescer ao centro" e fá-lo empurrando o PSD para a direita.

"Rui Rio está a abandonar a estratégia centrista que adotou no início da sua liderança do PSD."

Mas - diz ainda o politólogo - o interessante nesta "dança" é que Rui Rio não se importa nada que a tal polarização aconteça. Estando um ato eleitoral em aproximação, o presidente do PSD, muitas vezes acusado de ser mole com o Governo, "precisa de acentuar a sua forma de fazer oposição". E há que não esquecer um facto, pelo meio: o PSD parte para as autárquicas com uma enorme desvantagem em relação ao PS (160 presidências de câmara socialistas contra 98 do PSD). "Estas eleições vão ser importantes para os dois partidos mas mais para o PSD."

Falando ao DN, um outro comentador político, Pedro Marques Lopes, também concorda com a ideia de que ambos os líderes estão "apostados numa tentativa de polarização". Contudo, segundo acrescenta, "essa estratégia vai resultar em mais ganhos para António Costa do que para Rui Rio". E isto porque "o centro político fica assim para o PS". "Rui Rio está a abandonar a estratégia centrista que adotou no início da sua liderança do PSD", critica o comentador político.

Rui Rio, de facto, já defendeu - há dias, numa iniciativa online organizada pela JSD de Lamego - que "não é com cordões sanitários nem com artigos de opinião radicais" que se trava o crescimento da extrema-direita. "Não me parece que seja uma coisa muito boa para a Europa ter uma extrema-direita cada vez com mais força e continuar com essa estratégia. Coisa diferente é não ostracizar, mas nunca permitir que passe a linha vermelha. O partido extremista até está integrado, mas apenas no que é aceitável em democracia."

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