Como vi estas eleições? E o que representam para mim?

De norte a sul, o DN foi ao encontro da sociedade civil para ouvir como os portugueses sentiram, viveram e analisaram as eleições presidenciais. Da padeira à estudante universitária, ouvem-se desalentos e sonhos.

Helena Velez

55 anos, professora de Português do Secundário no Colégio Pedro Arrupe, Lisboa

Previsões otimistas atribuíam uma abstenção de 60% às eleições presidenciais de 2021. Os portugueses já não esperam um messias feito homem ou um messias feito em nós.

A responsabilidade, essa, é do Estado pela incapacidade de responder à eterna crise económica, que se eternizou tanto que o povo deixou de se rever nos órgãos políticos eleitos. Contudo, mais do que a crise económica, é a crise de valores que nos bate à porta. Seja qual for o resultado das presidenciais, o resultado será sempre o mesmo.

À crise da representatividade social não escapa o Presidente ou a Presidente eleito(a). Aquela não é de agora e anda de mãos dadas com a eterna crise económica que a pandemia veio agravar. "É preciso salvar o Natal". O que era mesmo preciso era salvar vidas. O que hoje essencialmente vivemos é uma crise moral do sistema político.

O povo não se sente representado pelas instituições, porque elas perderam o seu sentido, a sua credibilidade e a sua identidade. Elas deixaram de nos representar. Perderam a sua alma. Perderam o "ser que houve" e "o que há". E o que há é um país triste, apagado, que bem se pode rever no Portugal da Mensagem, de Fernando Pessoa. Revisitar o poema "Nevoeiro", que encerra a nossa epopeia do futuro, é como um murro no estômago da nossa alma:" Nem rei, nem paz, nem guerra, / Define com perfil e ser / Este fulgor baço da terra / Que é Portugal a entristecer − / Brilho sem luz e sem arder, / Como o que o fogo-fátuo encerra. (...).

Portugal volta a ver-se espelhado no Portugal do poeta quase um século depois. Coincidentemente, Portugal é hoje um dos países mais pobres da União Europeia e arrisca-se a ser ainda mais dentro de cinco anos. A falta de investimento na educação, quando ela é o principal pilar e motor da economia, é prova maior da desconsideração da educação pelo Estado e pelos próprios cidadãos. Os debates televisivos presidenciais são prova disso mesmo: nada sobre educação, nada sobre formação, nada sobre cultura. Falta-nos uma visão de futuro ou sacrificamo-la em favor das audiências? As consequências imediatas da falta de rasgo redundam em alunos com necessidades educativas especiais com escassos apoios, milhares de outros sem professores de norte a sul do país, com irreversíveis danos cognitivos, sociais, emocionais e éticos, carreiras docentes por valorizar e precarização da profissão docente no país dos mil euros.

"Ó Portugal, hoje és nevoeiro... / / É a hora!"

Sofia Ribeiro

18 anos, de Santarém, aluna de Direito no primeiro ano da Universidade Católica

"Os jovens são o futuro." Desde pequena que ouço esta frase, uma frase de esperança na minha geração. Eu, com apenas 18 anos, vejo estas eleições presidenciais como o meu primeiro grande dever como cidadã. Contudo, não sou a única. Nós, jovens, temos de ser o futuro, temos de criar um mundo no qual queremos viver, temos de representar a mudança.

O caminho está nas nossas mãos, viva a democracia!

Manuel José Cordeiro Ferreira

62 anos, agricultor, proprietário da Pombal Verde, Pombal

As eleições presidenciais terão a sua importância para o bom funcionamento do país, das suas instituições, e relações internacionais, mas para o meio rural não têm o mesmo impacto que as legislativas ou até as autárquicas. Aqui, falta muita vez a energia elétrica, o saneamento básico ainda não chegou a todas as casas, as estradas principais asfaltadas há 30 e 40 anos estão degradadas, os caminhos rurais são primitivos, não existem açudes ou barragens para regadio nem pontes que liguem as margens do sinuoso rio, quase fechado com árvores e vegetação invasora. Tudo isto implica trabalho de proximidade, investimento do governo e das autarquias sem depender muito da Presidência da República.

José da Silva Lopes

88 anos, reformado, ex-trabalhador metalúrgico, Albufeira

Não acho que estas eleições tenham sido muito diferentes, só na questão da liberdade de a pessoa poder acompanhar o debate com mais atenção. Em todas as eleições escolhe-se quem se quer, mas olhando ao que apregoam, não vejo melhoria em relação às outras, de outros anos. E quanto aos candidatos, a maior parte deles nem estou de acordo que a sua candidatura devesse ter sido admitida. Porque não são políticos, não tinham um programa. Foram só palavrões, só insultos.

Paulo Loureiro

45 anos, segurança/vigilante, Montijo

Eu vejo estas eleições numa altura muito complicada. As eleições são necessárias, mas dadas as circunstâncias que estamos a passar, deviam ter sido paradas e deviam ter sido passadas para outra altura, para quando já tivéssemos a vacina e já estivéssemos todos em condições para nos podermos deslocar. Não tem lógica estarmos em confinamento e haver eleições. Por mais proteção que tenha havido, haverá sempre contactos. Acho que deviam ter sido adiadas. Considero que estas eleições são importantes, mas sinto que não tivemos grande opção de escolha, dada a lista de candidatos. O presidente será reeleito porque não havia ali no grupo de candidatos um ou outro que pudéssemos dizer que se evidenciava. Acho que estamos a passar uma fase muito complicada e acho que o Marcelo, nesse aspeto, é o mais apaziguador.

Ana Fonseca

32 anos, padeira na Padaria Pão da Terra, Matosinhos

Vi os debates destas presidenciais com pouco conteúdo informativo, quase sempre com discursos inapropriados e muitas vezes ofensivo. Acho que se deviam ter focado mais nas resoluções e menos em críticas. Para mim estas eleições eram a oportunidade para uma mudança. Podíamos ter pela primeira vez uma mulher presidente.

Miguel Portocarrero

38 anos, proprietário da loja Watermelon, Porto

Não vi nada de novo nestas eleições, não vi conteúdo, vi mais guerras pessoais. Nesta campanha, a impressão que deu, até pelos órgãos de comunicação social, foi que já se sabia quem era o vencedor, que os outros candidatos já iam à partida derrotados. Acho que, o mais importante era ter passado a mensagem de que esta pandemia é muito grave e que era melhor fecharmo-nos em casa. Não andar em campanha. Porque o povo português, até ao verão, portou-se excecionalmente bem. Custou a toda a gente fechar, nós ficámos altamente prejudicados, mas quanto mais cedo fecharmos, mais cedo podemos reabrir.

Os políticos estão rodeados de especialistas e quando as eleições foram convocadas já tinham tido reuniões com eles, logo, já sabiam qual seria o cenário mais provável em janeiro. Ou tinham antecipado ou então adiavam as eleições, porque a democracia não morre por adiá-las dois meses ou três meses, a democracia fica muito mais prejudicada por existirem pessoas que não vão votar com medo de ficarem contaminadas. Há pessoas que já morreram com este vírus, e não há nenhum especialista que garanta que nenhuma pessoa se contamine neste ato eleitoral. Não sou contra o ato eleitoral, se foi marcado tinha de acontecer, agora acho vergonhoso porem-se os interesses partidários, políticos, pessoais, à frente das pessoas.

No modo em que decorreram, estas eleições pareceram só para cumprir calendário, e isso sim prejudica a democracia. Só se abstém, em tempos normais (em segurança) quem é irresponsável. Hoje foi diferente, hoje abstiveram-se aqueles que se abstêm sempre e aqueles que tiveram medo."

Liliana Bernardo

35 anos, enfermeira no Hospital Santa Maria, Lisboa

Nesta fase de pandemia, e como profissional de saúde, estas eleições acabaram por me passar um bocadinho ao lado. Não foram a minha prioridade. Acabei por estar mais focada nos números e nas notícias desta pandemia, na falta de recursos. A nossa maior preocupação é a falta de recursos para dar resposta a este caos.

O primeiro-ministro disse uma frase muito engraçada, que de engraçada não tem nada, que esta era a fase mais grave desta pandemia. Se era, estas eleições deviam ter sido adiadas ou deviam ter-se criado outras condições, para que as pessoas pudessem ter ido votar com mais segurança. Pede-se, a todo o momento, para que as pessoas não saiam de casa, para que não usem as exceções para sair à rua durante o confinamento. E depois tivemos as campanhas eleitorais e pedimos às pessoas para irem votar, provocando-se ajuntamentos.

De certo modo, gostaria que houvesse muita abstenção. Era sinal de que as pessoas teriam tido mais responsabilidade, de não sair à rua. Porque os números são dramáticos e não estamos numa fase de abrir exceções. Se o fazemos, as pessoas podem pensar que isto não é assim tão dramático, porque se até pode haver eleições...

Apesar de tudo isto, estas eleições representam uma réstia de esperança de mudança, apesar de muito pouca, no setor da saúde. Este setor tem sido tão solicitado e está tão desgastado que acho que precisávamos de uma mudança, precisávamos de alguém que olhasse para nós. Acho que só com a mudança de presidente é que podíamos ter algum reconhecimento e que fôssemos valorizados com outras condições no SNS, que está muito empobrecido, muito frágil. Acho que, até agora, nenhum presidente, foi capaz de se focar neste problema, que é um dos maiores do país.

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