Habitação, aeroporto e mobilidade marcam debate entre os candidatos à Câmara de Lisboa

Fernando Medina (PS), Manuela Gonzaga (PAN), Bruno Horta Soares (Iniciativa Liberal), Carlos Moedas (PSD), João Ferreira (CDU), Beatriz Gomes Dias (BE) e Nuno Graciano (Chega) debateram os principais assuntos que separam cada uma das candidaturas.

Habitação, aeroporto e mobilidade. Foram estes os assuntos que dominaram esta quinta-feira na SIC e na SIC Notícias o debate autárquico entre os candidatos à presidência à Câmara Municipal de Lisboa.

O edil Fernando Medina (PS) assumiu mesmo que "a grande prioridade é, indiscutivelmente, habitação para os jovens e para a classe média". "Não podemos louvar profissionais de saúde, informáticos, técnicos... e depois não lhes poder dar casa em Lisboa. Neste mandato conseguimos atribuir casas a 1200 famílias. Tinha prometido seis mil casas? Sim, ficou aquém. Houve uma pandemia pelo meio, as coisas não andaram ao mesmo ritmo. Não vou poder prometer uma habitação fora de regras. A cada adversidade, procuramos uma resposta", afirmou o autarca.

O principal rival do presidente da Câmara, Carlos Moedas (PSD), contestou: "Esta promessa não vale de nada. Medina prometeu seis mil fogos e falhou. O IMT não existe noutros países da Europa e aqui não devia existir para os jovens até aos 35 anos."

O debate da habitação ficou mesmo marcado por diferenças ideológicas, com João Ferreira (CDU) e Beatriz Gomes Dias (BE) a defenderem uma política 100% pública, ao passo que Bruno Horta Soares (Iniciativa Liberal) defendeu o investimento privado.

"Renda acessível e manuais escolares gratuitos são vitórias importantes. Bloco de Esquerda foi o único partido que votou contra parceria público-privada na habitação. Não faz sentido. Tem de ser 100% público, para influenciar o mercado e garantir habitação", frisou a candidata bloquista.

"A propriedade privada é predominante em Lisboa. Há que reforçar a propriedade pública, como há em quase todas as cidades na Europa, e a propriedade cooperativa. Programa acordado entre PS e BE não deu em sete mil nem cinco mil casas, foram apenas algumas centenas. Conseguimos converter projeto no Restelo em algo inteiramente público, algo que não seria possível se o PS tivesse maioria absoluta. Não foi por falta de dinheiro que Lisboa não construiu mais casas", opinou João Ferreira, que diz não quererr depender tanto de turismo e quer fazer de Lisboa "uma cidade da cultura e do desporto" em todas as freguesias".

Por seu lado, o candidato da Iniciativa Liberal considerou que a "política de habitação pública é dirigida ao eleitor" e insistiu na defesa dos empreendedores. "A esquerda diz que o país está pobre e queixa-se que o mercado da habitação está inflacionado, então quer empobrecer as pessoas. A concessão e gestão de ativos têm que ser feita por privados. Custa-me ver Fernando Medina a entregar chaves como se fosse um agente da Remax. Estamos a atacar os empreendedores. Não podemos dar habitações e transportes grátis e dizer que Lisboa é a cidade das oportunidades", atirou, insistindo na modernização da Câmara Municipal.

Já Manuela Gonzaga (PAN), focou-se nas questões ambientais e definiu como uma prioridade o fim das touradas em Lisboa, considerou que o "preconceito ideológico nunca é bom", chamou a atenção para a perda de dez mil habitantes nos últimos anos e para as pessoas sem-abrigo, defendendo a utilização de património camarário para ajudar a resolver a questão da habitação: "A Câmara tem património tão grande que nem sabe o que tem."

Por sua vez, Nuno Graciano (Chega) frisou que o programa do Chega não apresenta números, para não ocorrer o risco de não os cumprir.

CDU, BE e PSD unidos quanto ao aeroporto

Fernando Medina admitiu que o Montijo pode vir a ser o aeroporto principal e Portela o secundário e revelou que disse ao Governo para decidir entre Montijo e Alcochete. "O aeroporto não pode é ser alargado em Lisboa. Quando turismo recuperar, ter só a Portela é insustentável. Alcochete é mais caro que o Montijo", defendeu.

Contudo, neste debate autárquico CDU e Bloco de Esquerda mostraram estar em sintonia com o PSD, na defesa da solução Alcochete.

"A minha visão é Portela mais um. Montijo poderia ter 24 movimentos por hora, Alcochete permite mais movimentos. Penso que Alcochete é uma melhor decisão, mas isso terá de ser decidido pelos técnicos. Não me parece mal que Alcochete passe a ser o aeroporto principal", explicou Carlos Moedas, que apontou como uma das suas principais bandeiras a "transparência" e mudar a forma de fazer política em Portugal, assim como o acesso dos lisboetas à saúde.

"Aeroporto de Lisboa existe naquela localização há 80 anos e chegou-se à conclusão há 40 anos que era preciso mudar a localização. Lisboa é a única capital com esta aberração que é um aeroporto no interior da cidade. Hoje temos uma qualidade do ar muito pior e temos problemas de ruído. Passámos a aceitar como definitiva uma solução que era temporária. Alcochete é a melhor decisão", acrescentou João Ferreira, que quer reforçar a posição da CDU na Câmara de Lisboa, que atualmente é de dois vereadores.

A mesma visão foi apresentada por Beatriz Gomes Dias, mas a candidata do Bloco de Esquerda salientou a necessidade de reduzir os voos continentais devido ao impacto ambiental. "Prioridade é saúde e segurança das pessoas. Aeroporto tem de sair da cidade. Montijo teve parecer ambiental negativo, a solução é Alcochete. As viagens para a Europa têm de passar pela ferrovia", explanou.

A questão ambiental foi desvalorizada por Bruno Horta Soares (Iniciativa Liberal), que enalteceu a evolução tecnológica: "Daqui a uns anos, talvez até sejam aviões solares ou elétricos."

Por outro lado, Nuno Graciano concordou que a "situação na Portela é insustentável" e que a solução "é ir desativando a Portela progressivamente". Se a solução passa por Montijo ou Alcochete, o candidato do Chega disse que "há estudos para todos os gostos" e que "a melhor decisão" é o que estes ditarem.

Esquerda defende expansão do metro para oeste

Fernando Medina deu conta de que quer "modernizar a Linha de Sintra", para poder melhorar a ligação entre "os dois principais concelhos do país [Lisboa e Sintra]". "Queremos mais e melhores autocarros e expandir o metro", vincou, frisando que o "trânsito na ponte 25 de abril diminuiu desde a redução da tarifa dos passes, uma medida contra a qual o PSD esteve e que era uma grande e histórica reivindicação do PCP". "Vai haver zonas de emissões reduzidas na baixa", acrescentou.

A expansão do metro, mas para a zona ocidental da cidade, foi defendida por João Ferreira e Beatriz Gomes Dias. "Defendemos prolongamento do metro até Ajuda, Belém e Loures e estender a linha verde de Telheiras a Carnide. Tudo isso vai cair por terra devido a uma linha circular. Vamos andar para trás a nível de mobilidade, vai haver transbordos que hoje não existem", atirou o candidato comunista, contra o projeto que vai unir grande parte das linhas amarela e verde.

"O Metro é a solução para a mobilidade na cidade de Lisboa, nomeadamente a sua expansão para oeste. Não queremos colocar obstáculos à mobilidade das pessoas. Precisamos de garantir aumento da mobilidade e redução da presença de carros na cidade. Temos de alterar mobilidade urgentemente para responder à urgência climática", alertou a bloquista.

Já Carlos Moedas recordou que "Fernando Medina tinha prometido parques de estacionamento dissuasores fora da cidade e não cumpriu". "Temos de ter transportes públicos dos 18 aos 23 anos e para os maiores de 65 anos e dar um desconto nos parquímetros aos lisboetas. As pessoas pagam 1900 euros por ano à Câmara Municipal de Lisboa. Será que pagam justamente pelo serviço prestado?", defendeu.

Por seu turno, Nuno Graciano criticou o excesso de ciclovias na cidade, chegando mesmo a apelidá-las de "ciclovazias". Noutro âmbito, o candidato do Chega frisou que é "um homem fora deste esquema político", "um cidadão comum" e não um "carreirista político", chegando até a descolar-se de André Ventura. "Não vou perder a minha identidade", vincou, apontando ao combate à corrupção: "Indícios de corrupção que existem na Câmara Municipal que são gravíssimos."

Emails enviados à embaixada da Rússia marcaram arranque do debate

O oniício do debate autárquico de Lisboa ficou marcado pelo envio de dados pessoais de manifestantes anti-Putin à embaixada da Rússia, que aconteceu em janeiro mas veio à tona em junho.

"Tive a oportunidade de lamentar. Não houve qualquer problema com a lei da manifestação em 40 anos, houve desta vez. Em todas as organizações há problemas. Nunca escondemos o problema, assumimos e realizámos uma auditoria em tempo recorde. Chegámos à conclusão que não era um caso isolado e tomámos medidas para corrigir", salientou Fernando Medina.

Por outro lado, Carlos Moedas insistiu que o edil se devia demitir-se: "Foi uma situação gravíssima. Em qualquer Câmara Municipal na Europa, o presidente tinha-se demitido. Não me parece normal que aconteça num país como Portugal, os políticos têm que assumir o erro político, demitindo-se e não demitindo um técnico, mesmo com a proximidade das eleições."

Quem também comentou o tema foi o candidato da Iniciativa Liberal. "Trabalho em modernização de empresas há 20 anos e Fernando Medina não percebeu que tinha de cumprir o que todas as empresas têm que cumprir, o Regulamento Geral de Proteção de Dados", afirmou Bruno Horta Soares, que explicou porque o seu partido decidiu avançar com uma candidatura própria em vez de apoiar Moedas: "Sou fundador da Iniciativa Liberal e seria um desrespeito coligar-me com o Moedas, que é do PSD e é apoiado por Rui Rio. Os lisboetas vão fazer esse favor que é dar um mau resultado a Carlos Moedas para Rui Rio se demitir."

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