Bloco de Esquerda. Como falar com Costa? E como enfrentar Ventura?

Grupos internos do BE vão a votos, com a direção em franca maioria. O partido enfrenta no entanto importantes desafios externos: OE2022 e crescimento do Chega

A XII Convenção Nacional do Bloco de Esquerda começa amanhã à noite no Centro de Desportos e Congressos de Matosinhos, com uma sessão sobre patentes de vacinas, e já se sabe como irá acabar, no domingo: com a atual direção mantendo uma maioria segura na Mesa Nacional, o "parlamento" do partido. A moção que Catarina Martins subscreveu, "Sair da crise, lutar contra a desigualdade", fez eleger quase 70 por cento dos delegados à convenção.

Eleitoralmente, a reunião está resolvida - mas a verdade é que o Bloco de Esquerda enfrenta no curto prazo dois desafios complicados. Desafios que, aliás, serão coincidentes no tempo: como votar o próximo Orçamento do Estado (OE2022); e como evitar, nas eleições autárquicas, ser novamente ultrapassado pelo Chega, como aconteceu, por larga margem, nas últimas presidenciais.

"A escolha pelo PS de uma via centrista recria uma tática que já vimos falhar em vários países [e que] exclui novos avanços sociais do diálogo à esquerda."

Quanto ao Orçamento, os bloquistas sabem o que aconteceu no ano passado: terem-se colocado numa barricada oposta à do Governo fez o partido perder apoio nas sondagens. A direção do BE está à esquerda do seu eleitorado e este, nas presidenciais, penalizou-o, votando em Ana Gomes.

Contudo, na moção da direção, reafirma-se a retórica agressiva em relação ao Governo e ao PS. Afirma-se mesmo que "a escolha pelo PS de uma via centrista recria uma tática que já vimos falhar em vários países" e que "exclui novos avanços sociais do diálogo à esquerda", sobrando então apenas "a tentativa de chantagem sobre a perda do poder para a direita".

Ou seja: "Confortada à direita pelo apoio do Presidente da República e legitimada pelo PCP e pelo PAN, a política de débeis paliativos permite ao PS expandir-se no centro político, que ocupa sozinho desde que o PSD confirmou a sua dependência tácita de uma aliança com a extrema-direita". Longe vão então os tempos da "experiência da "geringonça", da qual o PS se afastou e que não quis reeditar". Uma experiência onde se demonstrou que é "possível uma política que valorize salários, pensões e apoios sociais" - e que "esbarrou nas metas de défice impostas por Bruxelas, aliás ultrapassadas pelo Governo".

"Não existe qualquer fatalidade democrática que atribua à direita radicalizada um lugar no governo ou um destino de poder. Pelo contrário, ela pode ser derrotada se a potência das alternativas à esquerda lograr responder à maioria e aos setores mais penalizados na crise."

O outro problema dos bloquistas são as eleições autárquicas. A afirmação local do partido sempre foi mínima. Em 2017, na votação para as câmaras municipais, o BE não foi além dos 170 mil votos (nas legislativas de 2019 tiveram meio milhão). Não detém nenhuma presidência de câmara e, quanto a vereadores, não passa dos 12 .

Ora as últimas eleições presidenciais demonstraram que é possível ser ultrapassado pelo Chega. André Ventura obteve 11,9 por cento (quase meio milhão de votos) enquanto Marisa Matias se ficou pelos 3,95 por cento (164,7 mil votos).

Na moção da direção, constata-se que um fenómeno "abertamente racista" como o Chega "é um processo com correspondência internacional" (Trump, Salvini, Le Pen, etc). E fica uma palavra de esperança: "Não existe qualquer fatalidade democrática que atribua à direita radicalizada um lugar no governo ou um destino de poder. Pelo contrário, ela pode ser derrotada se a potência das alternativas à esquerda lograr responder à maioria e aos setores mais penalizados na crise".

Outras reuniões políticas

Ventura reforçado

O III congresso nacional do Chega vai realizar-se de 28 a 30 deste mês, em Coimbra. Ninguém espera outra coisa senão uma reeleição folgada de André Ventura como líder do partido. Formar uma direção pode no entanto ser um problema bicudo, como já foi no congresso de Évora (e Ventura cedeu a pressões das bases). O Chega poderá, por outro lado, iniciar um processo de suavização do seu discurso económico ultra liberal. A pandemia provou que o país não passa em SNS, por exemplo. Na visão atual do partido, o SNS não existe.

PAN: Mudança de líder

A grande mudança prevista para o próximo congresso do PAN, a 5 e 6 de junho, será a confirmação da substituição de André Silva por Inês Sousa Real na liderança do partido. O líder histórico do partido renunciou - também ao mandato parlamentar - invocando razões familiares. Internamente, o PAN divide-se entre os que acham o partido mantém a relação certa com o PS e os que acham que está demasiado próximo.

Estados gerais da direita

O MEL (Movimento Europa e Liberdade) volta a organizar, pela terceira vez, aquilo que gosta de chamar "estados gerais da Direita". Será a 25 e 26 deste mês, no Centro de Congressos de Lisboa. Ao contrário do que aconteceu nas duas primeiras edições da reunião, desta vez Rui Rio aceitou participar. André Ventura e Paulo Portas também marcarão presença. Passos Coelho, em estado de pousio político, não irá

joao.p.henriques@dn.pt

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