"As pessoas fartaram-se", a frase favorita dos lisboetas no day after da queda de Medina

Lisboa foi apanhada de surpresa pela vitória do social-democrata Carlos Moedas. E o adversário caiu em desgraça porquê? Os lisboetas falam da "irritação" com as ciclovias, o caso "russiagate", as condições dos imigrantes e a proliferação de alojamentos locais.

Azáfama era a do costume no bairro, feito de muitas nacionalidades, mas no day after das eleições que deitaram borda fora o autarca socialista da presidência da Câmara de Lisboa, era inevitável que as conversas de café, de rua ou até no pequeno comércio que circunda o Mercado de Arroios rolassem sobre a troca inesperada de Fernando Medina por Carlos Moedas.

E se todos pensavam que Medina ia ganhar, todos encontram razões para que os lisboetas tenham decidido apostar mais fichas no candidato social democrata, agora novo presidente da principal câmara do país. "As pessoas fartaram!" A frase é repetida e repetida. E não foi só em Arroios, freguesia onde a coligação "Novos Tempos" de Moedas (PSD/CDS/PPM/MPT e Aliança) conseguiu 31,93% contra os 27,86% da coligação "Mais Lisboa" de Medina.

É segunda-feira e o Mercado tem os portões de ferro fechados. "Se estivesse aberta já ia ouvir todo o desfiar de queixas e percebia porque não votaram no presidente". diz a florista Fernanda.

Ali rodeada de flores e plantas há 40 anos, conhece todos, tudo o que se passa e tudo o que se diz. "Se as eleições tivessem acontecido antes já tinha ido", sentencia e esgrime a primeira zanga dos residentes contra Medina. As "benditas" ciclovias que percorrem toda a Av. Almirante Reis até ao Areeiro e que deixaram apenas uma faixa para o trânsito fluir, incluindo as ambulâncias que servem o Hospital de São José.

"Com uma população tão envelhecida neste bairro, o Medina só pensava em ciclovias. As pessoas desesperaram", afirma Fernanda. Argumenta que as necessidades dos residentes e dos comerciantes não foi acautelada ao longo do mandato socialista, apesar de admitir que com Medina se sentiu que havia mais transportes públicos e uma renovação da frota de autocarros.

Mas nem aroma a flores torna mais doce quando aponta em direção aos enormes "murais" desenhados na rua do Largo que circunda o Mercado e que fazem parte do projeto "A Rua é sua" e que visou trazer a arte urbana ao bairro, mas também impedir o estacionamento em segunda fila. E que era como pão para a boca dos clientes daquele espaço. "Tirou-se estacionamento, onze carros de cada lado, e talvez se subir ao 7.º andar de um prédio se perceba que desenhos são aqueles e onde se gastou ainda um bom bocado de dinheiro", diz Fernanda. O resultado final desta intervenção, já feita em plena pandemia, é um frenesim da EMEL a multar carros e a bloquear outros tantos. "Essa caça à multa também irritou muita gente".

E o caso "russiagate", em que a câmara divulgou dados pessoais de ativistas para a embaixada da Rússia não irritou? "Foi prejudicial, mas foi tudo junto", assegura a florista. E no "tudo junto" inclui a presidente da junta de freguesia de Arroios, Margarida Martins, que também saiu derrotada no domingo. E nem se refere ao caso que foi divulgado pela Sábado de que a autarca se iria abastecer ao Mercado 31 de Janeiro sem pagar. "Aqui todos sabíamos, para os comerciantes que lhe dava não era novidade, só para o público".

Sentados num café nas proximidades, António Branco e a mãe Ermelinda Branco também têm uma ideia muito negativa de Margarida Martins. "Fez o Medina perder, não tem currículo nem atitude para ser presidente de junta. Essa senhora tirou-lhe 2500 votos", afirma o advogado, com 63 anos, que ali reside.

O facto de ser próximo do PS não o inibe das críticas, sobretudo por "quererem transformar Arroios numa República muçulmana". Confessa-se "aliviado" com a vitória de Moedas. "Pode ser que já não construam a Mesquita, que se for por diante vai desvalorizar muito as casas aqui no bairro".

Sublinha que é defensor dos direitos humanos, mas que a "multiculturalidade" apregoada pela ex-presidente da junta e até pelo também ex-presidente da câmara não pode ser feita a todo o custo e sem condições para os próprios imigrantes e residentes. Como o alojamento ilegal em prédios na zona e lembra o incêndio de um na Morais Soares, em que até se atiraram pessoas pela janela. "O presidente da Câmara e a da junta não sabiam de nada?" - questiona.

Ermelinda Branco, no alto dos seus 93 anos, lembra a população envelhecida da freguesia e garante que nada era feito em seu benefício. "As pessoas fartaram-se!" - a ideia volta a repetir-se.

O filho faz a análise mais fina do desfecho eleitoral. "Medina não tinha empatia com as pessoas. Esta campanha fez-me lembrar a de João Soares em 2001, quando todos achavam que ia ganhar e perdeu para Santana Lopes". António vai depois à penalização da abstenção para o candidato socialista. "Os de PS não foram às urnas, abstiveram-se porque estavam descontentes. Os do Moedas foram todos". Agora, diz, é preciso dar o benefício da dúvida ao novo autarca, que, insiste, "ganhou mais por demérito de Medina do que pelo conhecimento das suas propostas para a cidade". Seja como for, admite que se recorda que prometeu acabar com algumas ciclovias, incluindo a da Almirante Reis.

A praga do alojamento local

Do bairro para o táxi. Nuno, que até é do Barreiro e que não contribuiu para apear Medina ou dar a vitória a Moedas, sabe das queixas dos lisboetas. Também ele ouviu as embirrações com as ciclovias que nasceram como cogumelos na cidade, do lixo e sobretudo da proliferação de alojamento local para alimentar o turismo, "que tirou muitas famílias" até de bairros como Alfama. "As pessoas fartaram-se!" Uma vez mais. "E depois ia para a televisão com aquele ar sonso a prometer coisas, as pessoas não são parvas".

Já numa das transversais da Av. da República sentada numa minúscula tabacaria, mas repleta de revistas e jornais, Anabela Pereira ouvia as "queixas" dos clientes sobre o ex-presidente da Câmara de Lisboa. "Ouvia-os a dizer mal, que eu que sou da Amadora não voto aqui nem tenho opinião, e pensava "dizem mal, mas votam nele. Foi uma surpresa a vitória de Carlos Moedas!"

Mais não diz a lojista e deixa para uma cliente a palavra final sobre o descontentamento reinante na cidade. Maria Leitão admite que por ali nas Avenidas Novas "foi surpresa geral" a vitória de Carlos Moedas.

A cidade já está num rebuliço pós-pandémico e Maria Leitão, 72 anos, volta às críticas às ciclovias, que já se percebeu foi um dos calcanhares de Aquiles de Medina. "Ele devia sonhar todas as noites com ciclovias. Não há nenhum dia que não me cruze com uma bicicleta atirada para os passeios", afirma.

Tece ainda palavras críticas sobre a postura de Medina, que classifica de "arrogante". "Pensou que ia ganhar e foi a reboque do primeiro-ministro". Admite, em tom irónico, que Carlos Moedas não fez uma campanha por aí além, até porque "precisa de Centrum +50" para ter um ar mais ativo. Mas Maria Leitão rejeita a ideia de que os lisboetas tenham votado apenas como protesto. "Moedas tem um bom trabalho e é um bom gestor e as pessoas sabem disso".

Moedas ganhou 11 das 24 freguesias de Lisboa, o que bastou para apear Medina.

paulasa@dn.pt

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