Arsenal do Alfeite. Cofres vazios, estratégia por aprovar e governo sem respostas

PSD, BE e PCP insistiram com João Cravinho sobre a situação do Arsenal do Alfeite, mas o Ministro ainda não tem decisões para os problemas que diz serem "complexos".

Não há nas palavras do ministro da Defesa Nacional um vislumbre concreto sobre quando o Arsenal do Alfeite, o histórico estaleiro com oito décadas, pode vir a ter o investimento de que desesperadamente necessita para garantir a sua sobrevivência.

A "curto prazo", como explicou João Gomes Cravinho na audição parlamentar desta terça-feira, está a ser aguardada luz verde do ministério das Finanças para "um empréstimo bancário" destinado a acorrer às necessidades de tesouraria "nos próximos meses".

No ano passado, pela primeira vez os trabalhadores deste histórico estaleiro receberam com atraso os subsídios de natal e o Presidente do Conselho de Administração, José Miguel Fernandes, que entretanto se demitiu, avisou sobre os cofres vazios e a dificuldade que iria haver para o pagamento de salários nos meses subsequentes.

Já a médio e longo prazo, os investimentos que o Arsenal necessita, como o da construção de uma nova doca para receber mais navios para reparação, o governante assumiu que "a bola" está do seu lado e do seu colega das Finanças, João Leão, que estão "a analisar a proposta estratégica" que lhes foi apresentada pela empresa.

"Os problemas não se resolvem no imediato, sem investimentos estruturais, este impasse só agudiza a situação"

O deputado do PSD Carlos Eduardo Reis lembrou que, quanto ao desígnio estratégico, essa já tinha sido a informação dada pelo Ministro na audição de Agosto e que "agora, passados seis meses, estava tudo na mesma". "Os problemas não se resolvem no imediato, sem investimentos estruturais, este impasse só agudiza a situação", reiterou.

O deputado da Comissão de Defesa Nacional lembrou a "falência da estratégia que o ministro da Defesa colocou em cima da mesa há cerca de um ano, quando antecipou a saída do Conselho de Administração presidido pelo contra-almirante Belo (José Garcia Belo liderou o Alfeite entre 2018 e 2020) para reorientar a estratégia".

Carlos Eduardo Reis lembrou a "grande trapalhada" que foi o desempenho da nova administração, liderada por José Miguel Fernandes, que tinha sido vogal do CA da Arsenal do Alfeite, S.A., em 2013, de onde saiu marcado por várias decisões polémicas, como despedimentos de técnicos especializados e em rutura com a Marinha, incluindo conflitos com o então comandante da base do Alfeite. "Quando o Estado não consegue salários, alguém tem de assumir responsabilidades", asseverou.

Contas corrigidas?

Garantindo que "o Alfeite tem um lugar especial nas indústrias de Defesa Nacional", o Ministro assumiu que também "tem problemas complexos", atirando a responsabilidade para o contra-almirante Belo.

"A culpa não pode ser atribuída a um só indivíduo, mas o legado que deixou não é fácil para a nova administração"

"A culpa não pode ser atribuída a um só indivíduo, mas o legado que deixou não é fácil para a nova administração", afirmou o João Gomes Cravinho, surpreendendo os deputados ao contestar as contas que têm sido noticiadas - e nunca desmentidas - da anterior administração, segundo as quais a equipa de Belo conseguira aumentar em 48% o volume de negócios e reduzir num ano o prejuízo de estaleiro de 4,5 para 1,9 milhões de euros.

"Essas contas foram retificadas, não são corretas, houve uma revisão e os resultados foram alterados", anunciou o Ministro, sem entrar em pormenores.

"Não esperem de mim respostas fáceis. O que posso garantir à Comissão de Defesa Nacional e à Comissão de Trabalhadores da Empresa Arsenal do Alfeite é que as Finanças e a Defesa estão a trabalhar para encontrar financiamento, tanto a curto prazo, como a longo", afiançou Cravinho, assegurando que "a vida do estaleiro não para, continua a haver trabalho e estão a ser angariados novos mercados, como é o caso do acordo que está a ser tratado com Marrocos para a reparação de um navio".

Conforme o DN noticiou em janeiro, depois do PSD ter visto chumbado um seu requerimento para ouvir José Miguel Fernandes, o administrador da IDD -Portugal Defense, a holding pública que integra a empresa Arsenal do Alfeite, afirmava que tudo está a ser feito para que 2021 "seja o ano de virar de página do estaleiro".

Numa narrativa que Cravinho também usou nesta audição, Marco Capitão Ferreira sublinhava que "a Arsenal, a IdD - Portugal Defense e as tutelas (Defesa e Finanças) têm vindo a trabalhar em soluções para que 2021 seja o ano de virar de página do estaleiro, designadamente soluções a curto prazo em termos de tesouraria e a médio longo prazo com um plano de investimentos".

Este responsável alegava haver "concertação na necessidade de virar a página da Arsenal para um estaleiro que cria valor, um estaleiro de excelência e do século XXI, mas orgulhoso do seu legado histórico e que valoriza a sua experiência única, sempre em parceira próxima com a Marinha, com quem existe harmonia de diagnóstico e construção conjunta de soluções".

"Isto aqui parece uma cidade fantasma. Não se ouve nada, não se ouve trabalho"

Mas do lado dos trabalhadores o desalento invadiu o estaleiro há meses. "Isto aqui parece uma cidade fantasma. Não se ouve nada, não se ouve trabalho", dizia ao DN Rui Ferreirinha, membro da Comissão de Trabalhadores do Arsenal do Alfeite, de onde nos falava.

Rui Ferreirinha teme que o estaleiro esteja "a bater no fundo" e lamentava não haver "sequer condições para cumprir compromissos assumidos, como o da reparação da fragata Vasco da Gama, "que já devia estar em manutenção", ou a construção da segunda lancha salva-vidas contratada para o Instituto de Socorros a Náufragos - a primeira ficou concluída no final de 2020 já com um atraso substancial em relação ao previsto. "Estamos de mãos atadas" e "as pessoas vivem angustiadas com o seu futuro", assinalava.

Questionado pelo BE sobre se estava previsto o recrutamento de trabalhadores, João Gomes Cravinho referiu que "o Plano Estratégico (aquele que ainda está a ser discutido com entre o Ministro e João Leão) prevê a contratação de mais 103 trabalhadores, 69 para substituir os que saíram e 34 novos, estando em curso um procedimento para recrutar 20 técnicos especialistas".

Antes de 2009, quando o Arsenal se tornou uma sociedade anónima, havia mais de 1200 trabalhadores, entre quadros técnicos e operários. Neste momento, regista a Comissão de Trabalhadores, os recursos humanos estão reduzidos a 447 .

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