"Antes um governo de maioria de esquerda a sério do que este arranjinho"

O sociólogo diz que gestão da pandemia foi desastrosa. Mas acredita que não haverá gerações perdidas e o país recuperará se souber captar investimento.

A gestão da pandemia foi má, as decisões sobre o ensino foram tomadas aos solavancos ideológicos e o SNS não teve capacidade porque o governo não o melhorou em seis anos, diz o sociólogo. Acredita, porém, que não haverá gerações perdidas. Rejeita governos de salvação nacional, mas vê vantagem num executivo de bloco central. E antecipa legislativas em 2022.

Disse que Portugal estava de novo perante o dilema de voltar a ser o mais pobre da Europa ou recomeçar a recuperar. Já consegue descortinar o caminho que aí vem?
É muito cedo. O programa económico, o desenvolvimento económico e social são grandes desafios que vêm a seguir, depois do grande problema de saúde, de vida ou morte, que temos agora e cuja resolução tem de se sobrepor a tudo o resto. Estamos há um ano com grandes deficiências económicas, com grandes dificuldades, mas a saúde é prioritária. Daqui a seis meses, um ano ou dois, veremos se somos capazes de resolver o dilema pobreza ou desenvolvimento.

Dependemos sobretudo de nós? Ou dos outros, nomeadamente dos milhões que vêm de Bruxelas?
Sobretudo de nós e da maneira como soubermos criar riqueza, organizar-nos ou gerir a vida coletiva e aproveitar o que pode vir de fora. Não há em Portugal recursos suficientes - nem capital, nem investimento, nem técnica, nem ciência - para nos desenvolvermos. Temos de ir lá fora. Há dois pacotes: a Europa e o investimento privado. Da Europa, a bazuca - a alcunha mais estúpida que já se viu, uma bazuca serve para matar, para destruir tanques e blindados... chamar bazuca ao conjunto de ajudas e financiamento da União Europeia (UE) foi uma ideia muito infeliz. E em segundo lugar há o investimento privado. Sem ele, sem um colossal investimento privado, Portugal não conseguirá desenvolver-se. Até agora, há sinais de que podemos ter apoio europeu para uma parte, mas ainda não há sinais nenhuns de que seremos capazes de atrair investimento externo, privado, com tecnologia, ciência, abertura aos mercados, capacidade de organização, como nos tempos da EFTA, nos anos 60. O contributo dado pelo livre comércio na Europa foi colossal para aquela época e mais tarde, com um ou dois investimentos importantes - como a Autoeuropa. Sem esse contributo, Portugal não será capaz de se desenvolver económica ou socialmente.

Há risco de austeridade, como na última intervenção da troika?
É difícil prever. Bruxelas atualmente não tem a mesma ideia... a UE tem mais 20 e tal países em dificuldades parecidas. Se a Europa decidir, daqui a dois ou três anos, fazer austeridade é porque toda a Europa está em más condições. Não será a Europa a impor a um par de países, será a política de todos.

No último verão, afirmava que a gestão da pandemia tinha sido má. Entretanto enfrentámos uma segunda vaga, agora uma terceira... Os erros foram corrigidos?
Os erros não foram corrigidos. Agora há sinais, dada a gravidade da situação em que nos encontramos, de que as autoridades ficaram de repente conscientes dos erros e falhas, das insuficiências. Mas era importante que soubéssemos discutir e refletir no que foram esses erros, alguns até difíceis de confessar. Estou convencido de que um deles foi as autoridades terem dado, do ponto de vista relativo, mais importância aos problemas económicos e sociais e menos aos sanitários. O frenesim com que o governo quis retomar a vida económico e social. Aquele "não perder o Natal", que foi uma frase terrível... Houve erros estratégicos e outros puramente políticos que levaram à situação atual. Já para não falar para trás... Ouço frequentes críticas ao Serviço Nacional de Saúde (SNS), que não estava à altura, que a troika destruiu parte do SNS. É perfeitamente possível que a troika tenha contribuído para situação crítica do SNS, com desinvestimento, menos quadros, equipamentos... Simplesmente, o governo teve seis anos para corrigir, melhorar, recuperar e isso não foi feito. Quando hoje o governo ou os partidos criticam o estado do SNS é a eles próprios que estão a criticar.

E na gestão da vacinação?
A gestão da vacinação foi mais uma demonstração do que é o envolvimento da política e das hesitações técnicas, científicas e políticas. As hesitações sobre os de 50/65/80 anos, depois com doenças, de que tipo, quem entra em que fase, e depois todo este universo - não foram milhares, mas já há umas centenas - de trafulhas, aldrabões e bandidos... Houve laxismo relativamente a isso, à permissividade relativamente a certas instituições, organizações e autarquias. Talvez com pessoas mais isentas, independentes - e com mais tempo. Há muitos meses que isto devia estar feito e só foi feito agora, apesar de o governo dizer que estava tudo pronto.

O vice-almirante Gouveia e Melo pode ser essa escolha melhor?
É possível. Tenho confiança nele. Não o conheço, ouvi falar dele e gostei da primeira frase que disse em público: "Não estou habituado a falar, estou habituado a fazer". Bastou-me para ficar com boa impressão e recetividade. Poderá retificar muitos aspetos condenáveis.

No caso da educação, concorda com o encerramento das escolas? Que consequências terá para esta geração de alunos a frequentar os ensinos básico e secundário?
Consequências negativas e difíceis. Estou convencido de que, a prazo, se as coisas se resolverem neste ano e o essencial do país ficar vacinado e a pandemia for ultrapassada, é possível recuperar muito. Um ano na vida é muito, mas pode ser recuperável. No imediato, vamos ter dificuldades pedagógicas e culturais, uma parte da população vai ter mais dificuldades - é sempre assim, infelizmente. Mas tem havido muita hesitação: ora se diz que fecha tudo para todos ora não, ora se proíbe os professores de falar com alunos pelas redes sociais ou digitais... há muito barafunda.

E a polémica público vs. privado?
Nesse aspeto o Ministério da Educação foi confrangedor de hesitação, ideologia e reflexos condicionados. Sugerir que os privados tinham de ter políticas como os públicos e depois já deixava de ser... Não deu nenhum bom exemplo.

Mas não discorda do fecho.
Não tenho competência suficiente para ter uma opinião firme. Vejo que foi feito na maioria dos países, até por períodos mais longos...

E até mais cedo.
Até mais cedo. Não tenho competência para contrariar isso e não tenho filhos, por isso não tenho experiência pessoal direta, mas estou inclinado a pensar que períodos longos de encerramento de escolas podem ser necessários. Poderiam porém ter sido mais eficazmente substituídos por computadores - isso falhou. Os meios digitais falharam, a telescola e mais investimento imediato na telescola, falhou. Tudo isso aumentou o efeito negativo do encerramento das escolas.

Leia aqui a segunda parte desta entrevista a António Barreto

Para os que estão na universidade, esta é a segunda crise social e económica. Que futuro, que país espera a geração que está a caminho do mercado de trabalho?
Estou convencido de que essa geração vai recuperar. O ano passado foi o de maior número de matrículas no Ensino Superior, os fundos e recursos obtidos para bolsas foram aumentados e a minha convicção é que há força anímica, cultural e apoios para que esta não seja uma geração perdida. Era bom era que em muitos casos as autoridades estivesse sossegadas e sem invenções. Tenho enorme receio dos planos miríficos das autoridades relativamente a estas coisas. Vale mais deixar fazer, dar meios e recursos e não se envolver demasiado.

E o que está a acontecer aos mais velhos, nos lares. O Estado não esteve à altura, há razão para responsabilizá-lo na justiça?
Creio que não. Eu sou pouco partidário do recurso à justiça por tudo e nada. Relativamente aos lares, houve erros, falta de atenção, falta de meios e de eficácia e é possível que se diga que grande número de doentes ou mortos, de vítimas nos lares, foi devido à má organização e à falta de capacidade de gestão e controlo. Daí até condenar em justiça... Quem? Os ministros, o governo, mete-se tudo na cadeia? Os autarcas, as IPSS, as empresas privadas que recebem pessoas? Não vejo que a justiça possa ter eficácia.

Houve o problema de isolamento..
Houve um problema muito sério, pessoas isoladas ou mortas. E é bom que tenhamos capacidade de refletir sobre o que se fez que foi mal feito e que se tente recuperar. Em muitos casos já é tarde, mas pode repensar-se a organização, o controlo e a gestão das instituições públicas, privadas e sociais, porque se viu que havia aí enorme deficiência de controlo, de supervisão, de qualidade de apoios, etc.

E que consequências vê da mudança para teletrabalho no modo como a sociedade se organiza? Vamos ficar mais individualistas?
Há esse receio, mas não quero ser demasiado pessimista. Se o teletrabalho se transformar numa faculdade, se for possível optar em muitos casos entre as formas de trabalho e não for aproveitado, por exemplo, para explorar e dar menos compensações - horas suplementares, subsídio de refeição ou deslocação, instalações confortáveis -, se o teletrabalho não for um meio de novo parasitismo ou opressão mas algo que se abra generosamente à liberdade de escolha, pode melhorar a nossa vida simultaneamente individual, coletiva e em família. Pode dar um sopro de energia, tempo e disponibilidade para a família. É importante.

É defensor de um governo de bloco central, capaz de desbloquear as reformas de que o país precisa. Perante a crise sanitária, social e económica que Portugal enfrenta, parece-lhe que isso é urgente?
Acho que sim. A minha grande prioridade não é o bloco central em si, é a maioria parlamentar. É a minha mais profunda convicção que nada de importante se faz num país sem alguma estabilidade política, sem uma maioria parlamentar que garanta o apoio político e social, a democracia, as liberdades. É o essencial. Governar com coligações precárias, arranjos e arranjinhos, artes, manhas e artimanhas, apoios que não são bem apoios, tudo isso é condenável. Com o nosso espetro político e necessidades políticas, a hipótese de um bloco central firme, coeso, programático e sério, teria sido a melhor solução. Hoje parece-me impossível. Mas então faça-se uma maioria de esquerda, se há possibilidade de o ter, formal, com acordo, com voto de confiança no Parlamento, com programa, é preferível um governo de maioria de esquerda a sério do que este arranjinho em que andamos metidos há uns anos.

Nos últimos dias, várias personalidades vieram a público defender um governo de emergência nacional por iniciativa do Presidente da República (PR). É uma ideia que merece a sua aprovação?
De todo. Estou totalmente em desacordo, é uma fantasia, invenção. Um governo de unidade nacional com todos os partidos não seria capaz de governar sequer meses. Teria de recorrer-se a meios autoritários complicados ou redundava o laxismo completo. Teria de refazer orçamentos, empregos, cargos dirigentes, governamentais, iríamos perder seis meses a um ano só para fazer essa louca aventura. Não vejo nenhuma vantagem. Com o que temos, se for necessário melhorar, há duas hipóteses: uma é um governo de esquerda a sério, com coligação e programa; outra um de bloco central a sério. Se não resultar, terminada a pandemia, faça-se eleições. Qualquer recurso a iniciativas presidenciais é enviesado e esquisito. Quem o procura tem desejos ocultos inconfessáveis. Sou totalmente oposto a esse tipo de soluções.

O PR tem defendido a ideia de governo forte e oposição forte, dois blocos alternativos. Está errado?
Não sei se está a pensar num grande bloco de esquerda e outro de direita, é uma hipótese - mas não é a minha. Voltar a dividir países marcadamente em esquerda e direita, uma contra a outra, recomeçar a promover e estimular o combate de dois mundos irredutíveis, a luta de classes, é um recuo na vida política e democrática. Encontrar novas soluções centrais, um centro-esquerda e um centro-direita, novas modalidades, isso é, o futuro. E não voltar à polarização, que é muitíssimo negativa e não resultará.

Como antecipa que seja a relação Costa-Marcelo neste novo mandato presidencial?
É difícil prever, porque o mandato presidencial começa com este estado de pandemia, por isso não vai ser normal. E o PR não vai ter muita possibilidade de agir de modo exemplar antes de um ano ou dois. Há um fenómeno curioso: o Presidente tem hoje muito mais influência no país do que há cinco ou até três anos, tem mais reconhecimento. Ele levou uma quantidade enorme de socialistas, sociais-democratas, democratas-cristãos e até de gente mais à esquerda a votar nele, o que é facto inédito e único. Não esqueçamos que o PR não tem partido, não está muito ligado a organizações, lóbis importantes, às Forças Armadas, à Igreja ou à Maçonaria. Isto é um êxito pessoal inesquecível e inédito em Portugal. Mas apesar da influência que tem agora não tem meios para exercer o respetivo poder. Curiosamente, teve mais poder porque o PS precisava dele, o governo precisou até agora e deu-lhe mais capacidade de exercer o poder. Houve alguns casos, discretamente, de certo tipo de atuação, em que além da influência pôde exercer esses poderes. Agora, o PS já não precisa do PR e a pensar nas autárquicas e até nas legislativas vai distanciar-se de Marcelo Rebelo de Sousa. Vai ser um mandato curioso, com mais influência mas menos poder político.

Leia aqui a terceira parte desta entrevista a António Barreto

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