Ana Gomes acusa Marcelo de desequilibrar negociação com privados "contra interesse público"

Candidata presidencial diz que Presidente da República enfraqueceu Governo e a ministra da Saúde ao dar "palco aos privados" em prejuízo do interesse público.

A candidata presidencial Ana Gomes acusou esta segunda-feira Marcelo Rebelo de Sousa de ter desequilibrado a negociação na saúde a favor dos privados "contra o interesse público", dificultando um entendimento entre as partes.

Numa visita ao centro de saúde Algueirão-Mem Martins (concelho de Sintra), que marcou o arranque da sua campanha no período oficial, a antiga eurodeputada socialista foi questionada se defende que o Governo já deveria ter avançado para a requisição civil na saúde de meios privados, sobretudo numa altura de agravamento da pandemia de covid-19.

"Suponho que o Governo está a tentar chegar a um entendimento e tem tido pressões nesse sentido, também da parte do próprio Presidente da República, que deu palco aos privados, enfraquecendo o Governo e a ministra da Saúde, quando ela precisava de ser reforçada para poder negociar o entendimento com os privados para defender o interesse público", afirmou.

Ana Gomes considerou que não será qualquer "enviesamento ideológico" que está a atrasar esse acordo do lado do Governo.

"Há uma pressão que foi favorável aos privados por parte do Presidente da República e que desequilibrou a negociação contra o interesse publico. Espero que o Governo tendo tentado todas as alternativas, se necessário for recorra à requisição civil", apelou.

A antiga dirigente socialista defendeu que, em momento de emergência, será necessário usar "toda a capacidade hospitalar instalada", mas acusou os privados de apenas quererem acolher os doentes não-covid, "que são os que dão lucro"

"Se os privados continuarem a não querer, através de um entendimento que o Governo tem tentado, aceitar tratar todos os doentes, então o Governo deve fazer uso da requisição civil e pagar aos privados, mas a preço justo e não aos preços do lucro", defendeu.

A candidata, que teve esta segunda-feira a sua primeira ação presencial no período de campanha oficial depois de no domingo ter anulado todas as iniciativas previstas, escolheu o centro de saúde Algueirão-Mem Martins - ainda em obras e com inauguração prevista para 25 de abril - para esse arranque.

"É um grande projeto da vereação socialista [Ana Gomes foi candidata autárquica derrotada em Sintra em 2009], finalmente concretiza-se para servir uma população de cerca de 70 mil pessoas, na maior freguesia do país, Algueirão Mem-Martins", explicou.

Para a candidata, esta unidade terá a vantagem de juntar cuidados primários e cuidados integrados e permitirá tratar pessoas que têm "alta hospitalar e precisam de continuar a ter cuidados médicos".

"É um exemplo do que o país precisa: a boa articulação entre a rede hospitalar, a rede de cuidados primários e de cuidados integrados", afirmou.

Já no dia 18 de janeiro, será inaugurada no local uma unidade de cuidados respiratórios que permitirá dar resposta a alguns doentes com covid-19, de acordo com um vereador presente.

A visita ao local das obras decorreu com menos de vinte pessoas, sendo a grande maioria jornalistas, com a candidata sempre de máscara, incluindo quando fez declarações à comunicação social.

A outra iniciativa de campanha prevista para esta segunda-feira, também na área da saúde, será ao final da tarde, mas através das plataformas digitais para debater com estudantes de Medicina.

As eleições presidenciais estão marcadas para 24 de janeiro e esta é a 10.ª vez que os portugueses são chamados a escolher o Presidente da República em democracia, desde 1976.

A campanha eleitoral decorre entre 10 e 22 de janeiro, com o país a viver sob medidas restritivas devido à epidemia. Concorrem às eleições sete candidatos, Marisa Matias (apoiada pelo Bloco de Esquerda), Marcelo Rebelo de Sousa (PSD e CDS/PP) Tiago Mayan Gonçalves (Iniciativa Liberal), André Ventura (Chega), Vitorino Silva, mais conhecido por Tino de Rans, João Ferreira (PCP e PEV) e a militante do PS Ana Gomes (PAN e Livre).

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