Alianças pré (ou pós) eleitorais com o PSD? O que divide o CDS-PP

O cenário eleitoral interno no CDS-PP ficará hoje mais clarificado com o anúncio por Nuno Melo de que será candidato à liderança do partido contra o atual presidente

Com uma comunicação no Palácio da Bolsa, no Porto, o eurodeputado Nuno Melo irá hoje anunciar que é candidato à liderança do CDP-PP, cerca de uma semana depois de o líder do partido, Francisco Rodrigues dos Santos, ter ele próprio confirmado que é recandidato. Podem sempre, entretanto, emergir soluções de terceira via - mas o confronto do líder com o eurodeputado tenderá a bipolarizar o próximo congresso centrista, o 24º da sua história.

Amanhã, domingo, reunirá, por vídeo conferência, o Conselho Nacional - o "parlamento" do partido, para marcar a data do congresso onde a liderança será disputada (no CDS é assim, não como no PS ou no PSD, onde as eleições diretas resolvem os problemas de liderança antes de se chegar à reunião máxima).

Os conselheiros decidirão datas - mas a direção já avançou com uma proposta: congresso nos dias 27 e 28 de novembro, num sítio ainda a escolher (ver cronologia).

Esse calendário, revelado ontem pela Lusa, não agradou porém à oposição interna, por parecer demasiado apressado (dando portanto pouco tempo à campanha de Melo). Vinte e conselheiros nacionais que já tinham criticado a convocatória pela direção do próximo congresso - que será intercalar - consideraram agora que, nos calendários, se está perante uma tentativa de "cercear direitos".

Face à resposta do presidente do Conselho Nacional, Filipe Anacoreta Correia, que considerou as críticas "totalmente infundadas", os mesmos conselheiros consideraram que "essa antecipação até pode servir a atual direção do CDS, mas significaria uma tentativa evidente de cercear direitos que o CDS, como partido profundamente democrático, sempre teve por inalienáveis".

Os críticos defendem ainda que, "sem qualquer polémica e expressivo consenso", que o congresso poderia realizar-se em janeiro, evitando assim a sua antecipação. Esta não permite "a existência de um debate pleno, livre, incondicional e esclarecedor junto de militantes e estruturas locais, relativamente aos projetos de candidatos que a seu tempo pretendam disputar a presidência".

Seja como for, sejam quais forem as datas aprovadas amanhã no Conselho Nacional, Francisco Rodrigues dos Santos e Nuno Melo confrontar-se-ão no XXIV Congresso Nacional do CDS. O líder recandidato tenderá a valorizar o resultado das eleições autárquicas, Fê-lo na comunicação em que anunciou que era recandidato à liderança: "A marca da minha liderança tem sido o reforço do poder do CDS na governação do nosso território: já participávamos na governação da Madeira, passámos também a estar no Governo dos Açores pela primeira vez na história e, depois de domingo, governamos sozinhos ou em coligação cerca de 50 câmaras municipais. Um resultado verdadeiramente notável e o melhor desde há muitas décadas a esta parte."

Já Nuno Melo, pelo contrário, desvaloriza esses resultados. "Entendo que o CDS também deve saber interpretar todo o quadro do processo autárquico, sem ilusões e com racionalidade, nos aspetos positivos já referidos, mas igualmente em relação aos aspetos preocupantes, para que possamos estar à altura dos desafios futuros", escreveu, numa nota no Facebook.

Outro tema importante do congresso será a relação com o PSD.

Aparentemente, o CDS-PP divide-se entre os que - como o presidente do partido - defendem que nas próximas eleições legislativas os dois partidos se deverão apresentar numa coligação pré-eleitoral e os que, defendendo entendimentos com os sociais-democratas, acham que isso só deve acontecer depois de os dois partidos medirem forças nas urnas. Neste contexto, Francisco Rodrigues dos Santos parece estar mais próximo de Rui Rio, enquanto Nuno Melo estará mais sintonizado com o seu colega no Parlamento Europeu Paulo Rangel (que, tudo indica, irá brevemente candidatar-se a líder do PSD). Na quinta-feira da próxima semana também reunirá o Conselho Nacional do PSD para marcar o congresso. A direita portuguesa está em reconfiguração.

joao.p.henriques@dn.pt

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