"O que digo é: deixem o Pedro Passos Coelho em paz!"

Presidente recandidato a Cascais, Carlos Carreira promete que, vencendo, cumprirá o mandato. Quanto ao seu partido, ausenta-se do debate sobre uma eventual sucessão de Rio. E sobre Passos, diz que a a prioridade é que resolva os seus "desafios pessoais".

A CNE decidiu que tem que retirar os conteúdos de campanha eleitoral da sua página de Facebook. Como comenta?
Eles confundem: dizem que não posso publicitar nada sobre a minha atividade municipal na minha página pessoal, já que sou presidente da Câmara.

Já disse que vai recorrer e pedir opinião ao Tribunal Constitucional, à Provedoria, ao Parlamento. No fim da linha, admite cumprir a deliberação da CNE ou adotará uma prática de desobediência assumida?
A situação é, antes de mais, inaceitável, quando verificamos que os censores, ou candidatos a censores, que votaram a favor de que eu fosse objeto de censura são todos da esquerda ou do próprio Governo da República: uma senhora do PAN, outro senhor dos Verdes, um senhor do PCP, outro do Bloco de Esquerda, e mais um senhor do MAI, outro do Ministério dos Negócios Estrangeiros e dois representantes do Governo. É de realçar que se trata de partidos que concorrem a Cascais, neste caso contra mim: o PCP e os Verdes através de uma coligação que é a CDU e o Partido Socialista e PAN também coligados.

Ou seja, os representantes do PSD e do CDS não estavam presentes?
Pela informação que tive, o representante do CDS estava de férias e o do PSD estava fora em trabalho relacionado também com a entrega de candidaturas.

Então, vê isto como perseguição política?
Repare, não é só comigo, já que me chegaram entretanto informações de que outros presidentes de câmara de vários partidos a queixarem-se exatamente do mesmo. Ainda para mais, esta queixa em relação a Cascais passou à frente de tudo. Aliás, para se perceber a forma tão ligeira como tudo isto foi tratado, é importante realçar a particularidade de um dos presentes ter dito, às 17h, que não podia continuar e, portanto, a Comissão ter ficado sem quórum. Não acredito que seja algo direcionado a mim pessoalmente, é, de facto, uma parte do sistema que está completamente obsoleta.

Volto à pergunta original: no final disto tudo, admite não obedecer e, portanto, arcar com as responsabilidades?
Irei obedecer dentro da lei, mas com uma atitude subversiva, que vai ampliar ainda mais a candidatura, já que, pelos vistos, é isso que incomoda todos esses censores.

Qual será essa atitude subversiva?
Vou fazer uma chamada na página, dizendo que esta foi censurada pelo CNE, anunciando que tudo o antes que publicava na minha página, será agora publicado na página da coligação viva Cascais, entre o PSD e o CDS, pela qual vou concorrer.

Direcionando uma para a outra?
Sim, o que irá dar uma maior projeção à página da coligação.

Vamos falar de Cascais. O autódromo de Tires tem pouquíssima utilização, se não me engano é um terreno da Parpública, ou seja, do Estado, e está no concelho de que é presidente de câmara. O que vai, pode ou quer fazer com aquilo?
Só uma pequena correção: ele não tem pouca utilização, está a ter alguma utilização, mas pensamos que pode ter uma utilização que seja mais potenciadora para o próprio turismo de Cascais. A Parpública sabe que mantemos a nossa intenção de comprar o autódromo; sei que há vários privados que o querem fazer também, mas a câmara irá sempre opor-se a essa opção. A estratégia é juntarmos um conjunto de equipamentos estruturais - como é o caso, por exemplo, do aeródromo de Tires, do autódromo, da Marina, ou do Parque Natural Sintra-Cascais - termos uma capacidade hoteleira de exceção, equipamentos desportivos de grande qualidade, para além do hipódromo, isto é, todo um conjunto de equipamentos que fazem que Cascais seja único a nível da Europa. Não há outro sítio que tenha todos estes equipamentos num raio de cinco quilómetros, a vinte quilómetros de uma capital europeia.

Isso com gestão camarária ou concessões a privados?
O que queremos é ter determinação camarária na estratégia de desenvolvimento de toda a região e, depois, fazer concessões a privados, consoante cada situação. Veja, por exemplo, que falta em Portugal um grande hotel para carros, nomeadamente para carros clássicos, e existe uma procura grande a nível da Europa, e muito especialmente da Península Ibérica, para uma estrutura desse tipo. Essa era uma das funções que gostaríamos de ter dentro do próprio autódromo.

Acha possível resolver isso no próximo mandato? O que é que impede o negócio com a Parpública: uma questão de valores?
Já chegámos a valores perfeitamente comportáveis. Não ultrapassará os cinco milhões de euros.

Falou no Aeródromo de Tires. Ainda há pouco tempo houve a história de um avião que aterrou lá atestado de cocaína, com aquele senhor João Loureiro...
Não chegou, que ele foi apanhado ainda no Brasil.

Mas, entretanto, o avião voltou a Tires?
Passado um mês, descobriu-se que, afinal, no Brasil não havia sido apanhada toda a parte dos estupefacientes, pelo que aqui ainda foram apanhados mais alguns quilos.

A imagem consolidada de Tires é a de um aeródromo onde pode acontecer tudo, a nível de insegurança e nomeadamente em termos de tráfico de droga e de associação a criminalidade.
​​​​​​​Não, trata-se de uma infraestrutura aeroportuária absolutamente estratégica para Portugal e, sobretudo, para a área metropolitana de Lisboa, nomeadamente no que concerne à aviação executiva. Do que pude saber, o Aeródromo de Tires nunca tinha tido, de facto, qualquer tipo de controlo. Não vou especular sobre o que se passou para trás.

Passou-se tudo o que era possível passar-se num sítio sem controlo.
Isso aí já é a especulação de cada um, mas eu não tenho esse conhecimento efetivo, não o posso provar. O que sei é que, desde que assumi a presidência da câmara, a grande preocupação foi instalar as várias forças de segurança dentro do próprio aeródromo: a PSD, a Autoridade Fiscal, a Guarda Fiscal, o próprio SEF, que sempre lá esteve presente. Agora, implantámos novas instalações, com investimento da câmara e colaboração da Polícia Judiciária, que já vinha a trabalhar connosco há largos meses, para não dizer há largos anos, na própria supervisão do aeródromo.

Assegura que, neste momento, o Aeródromo de Tires é um sítio seguro, onde não aterram impunemente aviõezinhos atestados de cocaína ou de algo pior ainda?
Posso dizer que criámos todas as condições que as próprias forças de segurança nos disseram que eram essenciais para tornar o Aeródromo de Tires o mais seguro possível. Agora, sabemos que a mentalidade criminosa é muito criativa, logo, não consigo dar uma garantia dessas. Que está muito mais seguro do que alguma vez esteve, isso está. Que as forças de segurança garantem que têm todas as condições para poder exercer as suas funções, têm. E, agora, esperemos que, de facto, passe a ser uma infraestrutura aeroportuária segura.

Falou em soluções alternativas que ligassem Cascais a Lisboa, nomeadamente o Metro-Bus, tendo em conta uma situação de quase esgotamento da linha da CP, logo, a necessidade de uma outra utilização da autoestrada ou da Marginal. Entretanto, o ministro Pedro Nuno Santos anunciou um investimento grande na ferrovia e na Linha de Cascais, sendo que não sabemos ainda quando será concretizado.
Há duas questões fundamentais: uma é a infraestrutura propriamente dita, isto é, a linha de comboio, com todo um conjunto de problemas, entre eles os de segurança e de sinalização; a outra é ao nível do material circulante, vulgo as carruagens. Sempre disse que, a partir do momento em que se carregasse no botão, no sentido que é mesmo para fazer, uma mudança demoraria, no mínimo, dez anos. Se tivéssemos carregado no botão há oito anos, estaríamos prestes a ter tudo concluído. Como carregámos no botão agora, acredito que vai demorar no mínimo dez anos para que a situação esteja controlada. De qualquer modo, este tempo não será perdido, já que muito mais cedo ficará resolvida uma questão absolutamente fulcral que tem a ver com a parte de infraestrutura, de sinalização e segurança dos passageiros e de quem lá trabalha, e essa acredito que no próximo mandato estará concluída. Uma maior oferta de comboios demorará um pouco mais de tempo, já que é preciso adjudicá-los, fabricá-los e serem entregues pelo fornecedor.

Sendo assim, as tais terceiras vias para ligar Cascais a Lisboa perdem sentido?
Não. Isto não exclui o corredor de transporte público (bus) em espaço dedicado, aproveitando a A5 e, eventualmente depois, a própria A1 - porque então estaríamos a falar de todo um eixo da área metropolitana de Lisboa, que levaria a possibilidade até Vila Franca de Xira, passando pelos concelhos da margem norte, como, por exemplo, Odivelas ou Loures, que também tem um grave problema nesta matéria.

Esse é um compromisso para o próximo mandato?
Está na agenda. O ministro Pedro Nuno Santos está a desenvolver esse processo, que, como todos os processos, tem os seus obstáculos - neste caso a renegociação do próprio contrato de concessão à Brisa -, mas que está a andar. Não tenhamos nenhuma ilusão de que esse transporte público em espaço dedicado substitui o comboio, dada a capacidade de carga de passageiros de um e de outro. Mas cria uma grande flexibilidade e, no caso de Cascais, tem a vantagem adicional de integrar ainda mais freguesias que hoje verificam assimetrias no concelho, como é o caso de São Domingos de Rana e de Alcabideche.

Acha possível que esses autocarros dedicados circulem até daqui a quatro anos?
Sim. Já há estudos e projetos feitos, é só executá-los, para o que apenas é necessário um acordo entre o governo e a Brisa, e sei que as duas partes estão interessadas em atingi-lo, naturalmente defendendo os interesses de parte a parte.

Será preciso certamente fazer obras na autoestrada.
Sim. Existem várias variáveis: a das obras, que, no caso de Cascais, não são nenhumas, já que só será necessário fazê-las depois do limite do concelho.

A Quinta dos Ingleses é um dos problemas do concelho que se mantêm por resolver há muitos anos. A grande maioria dos terrenos são da Alves Ribeiro e creio saber que, da sua parte, já foi proposto a aquela passasse a ser uma paisagem protegida. Como é que pensa resolver esta questão, ou considera-a insolúvel?
Irá ser resolvido. Mas, para enquadrar a questão, e até porque estas matérias são um pouco confusas para o cidadão comum, há que fazer um pouco de história. Aquilo começa em 1961, com direitos adquiridos pelos proprietários. Na década de 1980, a presidente de câmara Helena Roseta, confrontada pelos proprietários e para não ter que pagar uma indemnização elevada, fez uma escritura pública em que consigna esses direitos. Depois, nas restantes presidências, de José Luís Judas e de António Capucho, são feitas tentativas para desenvolver o tal plano que permitiria que começassem, de facto, a construir, o que ficara consignado no Plano Diretor Municipal, em 1997. Quando tomei conta do processo, fui confrontado com um pedido de indemnização por incumprimento por parte da câmara, no valor de 263 milhões de euros, mais juros, o que se elevaria para mais de 300 milhões de euros. Contudo, não era isso que me preocupava: o valor era de tal forma alto que a câmara de Cascais nunca teria dinheiro para o pagar. Aliás, cheguei a dizer aos promotores que, no limite, lhes entregava as chaves do concelho e eles ficavam a gerir o concelho, já que esta não tem, nem nunca terá esse dinheiro para lhes pagar. O problema maior é que essa decisão impunha ter que cumprir os compromissos assinados em escritura pública na década de 1980, o que significaria a destruição total de Carcavelos, e não só da Quinta dos Ingleses. O presidente José Luís Judas fez uma negociação que baixou substancialmente a construção no local. António Capucho não teve uma grande redução nas negociações que fez. Quando entrei, consegui passar de dois mil fogos para novecentos fogos. E, posso dizer aqui em primeira mão, que passarão para oitocentos fogos, o que, ainda assim, é muito. Consegui também negociar um conjunto de contrapartidas para o local, nomeadamente a criação do maior parque verde urbano do concelho de Cascais, com a vantagem de ser um ativo ambiental completamente regenerado e qualificado - são dez hectares, isto é, sensivelmente a mesma área do pinhal que atualmente lá existe. Recentemente, a coligação entre o PS e o PAN em Cascais para as próximas eleições autárquicas decidiu fazer uma recomendação ao Governo para que classificasse todo o terreno (incluindo o colégio St. Julian"s) como área protegida. O próprio representante do CNF que foi lá chamado afirmou não existir ali qualquer razão ou valor ambiental que justificassem essa classificação - o PAN chegou a referir as raposas que lá existem e que nunca ninguém viu, o que, após alguma investigação, descobri serem antes uns ratos que ninguém quer ter ao pé de casa... Essa recomendação foi votada na Assembleia da República, eu fui chamado à Comissão, onde afirmei que estava de acordo, desde que ficassem claras duas coisas: não poderia ser a câmara a suportar o valor de uma eventual indemnização e tinham de ficar salvaguardadas todas as contrapartidas. que incluem, para além desse parque urbano, equipamentos sociais, religiosos e de desenvolvimento económico que teriam de ser suportados pelo Governo.

Portanto, o Governo não vai acatar essa recomendação?
Não sei. O que fiz foi suspender a emissão do alvará por seis meses, para dar tempo ao Governo para se decidir, e escrevi uma carta ao senhor Primeiro-Ministro, a expressar a disponibilidade da câmara para colaborar com o Governo nas ações que entenda por bem fazer. Aguardo resposta do senhor Primeiro-Ministro, como também os restantes partidos aguardam resposta à recomendação que fizeram ao Governo.

No âmbito do covid, a certa altura, falou na possibilidade de distribuição em Cascais da chamada "vacina russa". Não se precipitou um bocadinho, dado que a vacina não tem reconhecimento europeu?
Não. À época, havia uma escassez enorme de vacinas - e já se percebeu o quanto era importante vacinar a população. Deixei sempre salvaguardado que esta possibilidade dependia do reconhecimento pela EMA, a autoridade médica europeia. E todas as conversações foram estabelecidas com as autoridades de Moscovo, com quem temos uma relação próxima do ponto de vista cultural, e tudo estava preparado, inclusivamente, para podermos fabricar as vacinas em Portugal.

No concelho de Cascais?
Não, em Portugal. Essa emergência e urgência, existentes nos primeiros meses deste ano, dissolveram-se entretanto, apesar de tudo ter estado preparado, na altura, para avançar, caso fosse necessário. Daí para cá, como sabemos, tem havido um número substancial de vacinas e, neste momento, grande parte da população portuguesa já está vacinada - e, aqui, há que fazer um reconhecimento à task force e às autarquias e aos centros de saúde locais, cuja ação foi determinante para a ação de vacinação em Portugal.

Também instalou em Cascais uma fábrica de máscaras, concessionada a uma senhora do Taiwan. É um investimento rentável, a prazo?
É um investimento que esperamos recuperar. A Câmara Municipal da Cascais não tem necessidade nenhuma de ficar com uma fábrica de máscaras...

...A não ser que as máscaras sejam para vender e não para a câmara cumprir o compromisso de oferecer dez máscaras a todos os munícipes...
Na altura tinha a ver com duas situações que foram cumpridas no seu todo. Uma era combater a especulação que havia nos preços das máscaras. Lembro-me que as primeiras máscaras que disponibilizamos à população, através das IPSS, custavam 60 cêntimos mas no mercado custavam dois e três euros cada uma. Com isto ajudamos a regular o mercado e a pôr as máscaras a um valor bastante mais baixo - e hoje são gratuitas. A segunda questão tem a ver com a obrigação do Estado impôs do uso da máscara em diversas circunstâncias (transportes, locais fechados, etc). Se o Estado impõe isso então deve fornecer às pessoas esse equipamento de proteção individual - até porque tinha a ver também com a proteção de todos nós.

Mas a fábrica lá está. O que vai acontecer agora?
Está lá, compramos duas máquinas, a senhora empresária investiu em mais três máquinas para fazer máscaras para adultos e em mais duas máquinas para fazer máscaras para crianças. Ou seja, ela aumentou de forma substancial a capacidade de produção e eu tenho um acordo de princípio de que, terminado tudo isto, ela estará na disposição de comprar não só as próprias máquinas como as instalações que compramos propositadamente para instalar a fábrica.

No fundo, qual é o seu grande desígnio para Cascais nos próximos anos? Que grande compromisso afirma perante os eleitores?
De uma forma bastante resumida, diria que tem duas linhas fundamentais. A primeira linha é nós dotarmos o concelho de equipamentos que permitam o desenvolvimento tanto das gerações mais novas quer das gerações que, como costumo dizer, são dos jovens há mais tempo. Neste momento já está a ser feita toda a remodelação dos centros de saúde de Cascais, o que será acompanhado da construção de novos centros de saúde. Essa área é para nós prioritária. Já era antes da pandemia mas agora então com a pandemia ninguém questiona esse grau de necessidade. A segunda área tem a ver com toda a remodelação das escolas do concelho e construção de novas escolas. A escola secundária de Cascais, por exemplo, que serve a sede do município, é provisória há 45 anos e isto não é nenhum fator de desenvolvimento. A tudo isto juntamos a atração de universidades. A Nova SBE já está em Carcavelos e há um acordo com a Nova de recebermos aqui a faculdade de Direito e a de Medicina. E isto são certezas consolidadas, falta a construção. A terceira área prioritária é dotar o concelho de uma rede de transporte público rodoviário muito aumentada - e mantendo-a gratuita. Ou seja, democratizamos tudo aquilo que está no território. Será das medidas que mais irão contribuir para atenuar as assimetrias que ainda existem dentro do próprio território de Cascais.

Ou seja: ao contrário de algumas elites de Cascais, não se importa nada que a vila seja frequentada por pobres vindos do interior do concelho ou mesmo de outros concelhos, por exemplo da zona suburbana de Lisboa...Há quem fale até em "cafrealização" de Cascais...
Isso é uma atitude completamente xenófoba que não alinha em nada com aquilo que é a identidade de Cascais...

...mas este sentimento existe, nalgumas partes da sociedade cascalense...
...Existe, é errado - e nem sequer assenta em dados verdadeiros. Ou seja: Cascais, até pelas suas condições geográficas, foi sempre um porto de acolhimento. Aqui em Cascais, acreditamos nós, que a multiculturalidade e virem pessoas de várias zonas do mundo - e não só da área metropolitana -, de várias culturas, de várias formas de pensar, de várias religiões, é um fator que nos potencia e torna mais ricos e não que nos torna mais pobres. Cascais é o terceiro concelho do país com maior rendimento per capita e é esse esforço que estamos a fazer. Cascais tinha uma vocação meramente habitacional e o nosso esforço é para ter também uma vocação empresarial. O Turismo tem uma vocação importante em Cascais mas ainda assim não ultrapassa os 15 por cento do PIB municipal.

E a segunda linha fundamental nas prioridades do próximo mandato?
Tem a ver com questões de ordem ambiental. É uma questão emergente e urgente e Cascais é um concelho pioneiro em Portugal no combate às alterações climáticas e ao nível da preservação dos ecossistemas. Aumentamos em muito todo o espaço verde em Cascais, regenerando e requalificando. Preservamos e vamos continuar a preservar o património riquíssimos que é o Parque Natural de Sintra-Cascais, hoje cada vez mais vivido pelas pessoas mas em respeito pela natureza. Vamo-nos manter nisso com fortes investimentos, por exemplo recuperando todas as ribeiras do concelho, que são os principais corredores ecológicos. Genericamente, a preocupação é sempre manter uma grande coesão social e termos a possibilidade de um desenvolvimento económico, no respeito, que há cada vez mais, pelas condições ambientais.

Se for reeleito presidente da câmara, iniciará o seu terceiro e último mandato. É natural que, no dia seguinte às eleições autárquicas, companheiros seus o comecem a pressionar para não completar o mandato, de que forma a preparar o caminho para o seu sucessor...A pergunta é: levará este mandato até ao fim?
Deixe-me primeiro dizer-lhe que essa preocupação não é de companheiros meus do PSD. Isso tem sido um anátema lançado pela oposição, nomeadamente pelo PS. E sempre que eu concorri sempre disseram que eu a meio abandonaria o mandato. Em dois mandatos já ficou demonstrado que não abandonei, mesmo até tendo problemas de saúde. Do meu lado, a convicção é a mesma: assumo os compromissos e cumpro os compromissos. A minha intenção é levar o mandato até ao fim.

O que pode excecionar essa intenção - tirando obviamente razões de saúde? Pode haver razões políticas para não cumprir o mandato até ao fim?
​​​​​​​Razões políticas não acredito que existam. Não tenho nenhuma ambição do ponto de vista de política nacional. Para mim, política era autárquica e em Cascais. A lei impede-me de continuar e se não me impedisse eu continuaria.

...mas a lei permite, por exemplo, ser candidato a presidente de câmara não aqui mas noutro concelho...
...por isso é que digo que para mim, a política é autárquica e em Cascais.

...Portanto, não irá fazer como por exemplo a presidente da câmara de Setúbal que terminou lá os três mandatos e agora é candidata em Almada...
Não. Embora tenha nascido em Lisboa só tive uma relação com Lisboa de seis/sete anos, por ter lá vivido e depois feito a universidade.

Findos os próximos quatros anos - se for reeleito, claro - dá por encerrada a sua carreira política?
Continuarei a ter voz, com certeza, e alguma participação cívica. Agora, em termos de lugares executivos, claramente que dou por completado o meu contributo para a política portuguesa.

Se aqui em Cascais a sua coligação, PSD+CDS, vencer mas sem maioria absoluta, admite um acordo com o Chega, para ter maioria?
Não admito coligações com nenhum partido, exceto a coligação já constituída com entre o PSD e o CDS e muitos independentes, que nos apoiam e estão incluídos nas listas. E estou convicto de que iremos reforçar a maioria absoluta.

Mas em última instância os eleitores é que decidem. Pode ser preciso um outro partido para fazer maioria. Tem uma visão do Chega que o impede de conversar com eles e aí conversará com outros, o PS, por exemplo?
​​​​​​​Tenho uma perspetiva de desenvolvimento para Cascais que em nada coincide com a de outros partidos. E quem diz o Chega diz a Iniciativa Liberal - que no caso de Cascais é mais à direita que o Chega, de um extremismo maior.

Mas admite um acordo de governação? Não estou a falar de uma coligação mas de um acordo de governação?
Não admito. Se for assim, cada um assumirá as suas responsabilidades. Proposta a proposta, uns votarão a favor, outros contra e cada um assumirá as consequências dessas mesmas votações.

Como é que se sente num partido pelo qual um ex-líder, Pedro Santana Lopes, não consegue candidatar-se a uma câmara, avançando portanto como independente [no caso, na Figueira da Foz]? Isto é empobrecedor, do ponto de vista do partido?
Temos sempre duas visões possíveis. Uma delas, justa, é que o Pedro Santana Lopes é um combatente político, aquilo está-lhe na alma e no sangue, e há que reconhecer isso. Gosto de pessoas que se disponham a, convictamente, defender as suas posições e as suas ideias. A segunda visão é que não escondo que eu gostaria de ter o Pedro Santana Lopes no PSD. Estranho que ele apareça por outros partidos ou como independente.

Há quatro anos foi o coordenador nacional da campanha autárquica do PSD e já assumiu que o resultado foi "péssimo"...
...Não foi o pior resultado autárquico do PSD mas foi manifestamente mau...

Ou seja: a base de onde o PSD parte neste momento é muito baixa. Menos de cem presidências de câmara, contra 161 para o PS - num total de 308. É exigível a Rui Rio que o PSD tenha nestas eleições mais câmaras do que o PS?
Não tenho dúvida alguma de que há uma dificuldade grande para que o PSD volte a ser o partido com maior número de câmaras. Tenho consciência também da dificuldade que é encontrar neste momento cidadãos que se disponham a concorrer. Reconheço que o PSD fez um percurso em que tem excelentes candidatos a concorrer. Mas não basta ter excelentes candidatos, é preciso alinhar um conjunto de outras variáveis. Acredito que o PSD tem todas as condições para melhorar substancialmente o resultado das últimas eleições autárquicas, sendo que aqui a responsabilidade não a coloco ao nível do líder do partido...

Mesmo tendo sido o processo de escolha dos candidatos muito centralizado, como este aparentemente foi, no PSD?
Sim, foi muito mais centralizado do que há quatro anos. Nessa altura, o líder era Pedro Passos Coelho e ele não se envolveu nessas escolhas porque optou por cumprir os estatutos de forma escrupulosa.

O resultado autárquico pode - e deve - ter consequências na liderança nacional?
Diz-nos a experiência que isso sempre teve consequências, positivas ou negativas. Não lhe vou dizer que não tem consequências ou que é perfeitamente indiferente para o líder. E de uma coisa estou certo: sejam quais forem as consequências, positivas ou negativas, eu não estarei lá. Não serei parte da disputa que se poderá vir a fazer num futuro próximo.

Portanto: se Rui Rio sair, não apoiará nenhum candidato à sucessão, é isso?
Daquilo que neste momento se perspetiva, de todos aqueles que se falam, não apoiarei nenhum dos candidatos.

Rui Rio já disse que pode deixar a liderança se o resultado não for brilhante.
Já disse isso e já disse o seu contrário.

Qual é a condição para ele não ficar?
Isso depende da própria consciência do líder. Ele é que será o que está em melhores condições de avaliar se tem condições ou não de se poder recandidatar a um novo mandato como presidente do PSD.

Já disse mais do que uma vez que Pedro Passos Coelho é uma personalidade política que não pode ser desperdiçada. Insistirá com ele para ser, por exemplo, candidato presidencial?
O que digo é: deixem o Pedro Passos Coelho em paz! Ele tem, por motivos que são do conhecimento público, ele tem outros desafios neste momento, pessoais, que são muito mais importantes do que se estar a envolver novamente em política. Por outro lado, é um homem com uma experiência mais do que suficiente, política e governativa, para poder fazer uma avaliação, conjugada com as suas condições pessoais, para saber quando e a quê e de que modo é que pode estar disponível para ter funções novamente em Portugal.

Não o pressiona para um regresso?
Antes pelo contrário. Daí eu dizer: deixem o Pedro Passos Coelho em paz.

Voltando a uma eventual sucessão de Rio. Se o candidato for o seu vice-presidente na câmara, Miguel Pinto Luz, não o apoiará?
Pelo aquilo que sei, ele não será candidato. Se for, terei de ponderar. É a única exceção que se pode colocar mas pela informação que tenho isso não acontecerá.

joao.p.henriques@dn.pt

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