Zeca Mendonça, o assessor amável que começou como segurança

O histórico assessor do PSD e atual assessor da Presidência da República morreu esta quinta-feira, aos 70 anos, vítima de cancro do pulmão. O DN partilha um texto originalmente publicado em 2007.

O taxista ignorou o gesto de quem precisava de carro, naquele dia 1 de Julho de 1978, mas o automóvel que vinha atrás encostou ao passeio. "Entre!", sugeriu a voz lá de dentro. "Oh! Não se incomode, Sr. Dr...", escusava-se o que estava apeado. "Entre lá. Eu levo-o", insistia Sá Carneiro, dirigindo-se a Zeca Mendonça.

Minutos depois, caminhando atrás do fundador ao entrar no VI Congresso do PSD, onde Sá Carneiro, após se ter afastado da liderança, seria aclamado, "toda a malta" achou que ele tinha ido almoçar com o presidente do partido. Afinal, tinha ido comer a casa dos pais, na Alameda Afonso Henriques, que era perto do Cinema Roma.

Agora, no dia em que se sabe se os militantes confirmaram Mendes ou preferiram Menezes como sucessor de Sá Carneiro, vale a pena saber quem é o homem que serviu, até hoje, 14 presidentes do PPD/PSD. Se não há nenhum jornalista político que ignore o nome de Zeca Mendonça pouca gente saberá que ele andou na mesma escola primária onde, anos antes, tinha estudado José Saramago. Depois de José Luís Mendonça Nunes fazer a primeira classe num colégio ao lado de casa, foi para a escola pública do Largo do Leão, em cujos bancos se sentara já o Nobel da Literatura.

Lisboeta genuíno, pois nasceu a 23 de Março de 1949 na freguesia de Santos-o-Velho, segundo de cinco filhos de um pequeno industrial de mobílias com fábrica em Lordelo - mas casa de família sempre na capital, que a mulher era doméstica -, o assessor de imprensa do PSD teve uma juventude que ninguém imagina quando se repara na sua pose muito british.

Durante os anos do Liceu Camões ligou-se à JOC (Juventude Operária Católica), onde também militava o futuro dirigente da CGTP/Intersindical Manuel Lopes, que era o ensaiador do teatro. Zeca Mendonça até representou em peças na paróquia ou em festas de Natal para os doentes em hospitais, lembrando-se que um dos espectáculos era baseado em As Lições do Tonecas, de José Oliveira Cosme - à época um sucesso na rádio e que, nos anos 90, teria uma versão televisiva, protagonizada por Morais e Castro e Luís Aleluia. As solicitações da mocidade foram-no afastando da Universidade, onde teria seguido Direito. Frequentou um colégio particular nos 6.º e 7.º anos (o equivalente aos actuais 10.º e 11.º), na secção de Letras, mas não completaria o último ano.

Nessa época tinha um grupo de amigos muito ligados ao meio musical, que se chamavam, por exemplo, Paulo de Carvalho e Carlos Mendes. Na Alameda Afonso Henriques, ainda Paulo de Carvalho tocava em tachos e panelas antes de ter bateria, até a polícia vir interromper a barulheira dos jovens, Zeca Mendonça assistiu aos primeiros ensaios do que viriam a ser os Sheiks (Paulo de Carvalho, Carlos Mendes, Edmundo Silva, Fernando Chaby), que, na década de 60, com temas como Missing You e Tell Me Bird, foram os "Beatles portugueses".

Também conhecia, mas vagamente, Fernando Tordo, com quem se cruzava no café Vá-Vá (ali se misturavam as tertúlias dos músicos e do cinema novo), embora frequentasse mais o Roma, onde, além dos estudantes do Técnico (e das cargas de polícia de choque, que aquela faculdade era das mais radicais entre a oposição estudantil ao regime fascista), também parava muita gente ligada aos ralis, como Mira Amaral, que viria a ser seu companheiro de partido e ministro.

Mais ainda do que com a dupla dos Sheiks, o futuro funcionário do PSD andava muito com Jorge Palma. E, a horas mais tardias, rumavam até ao (na altura ainda tasco) Pote, onde, além de clientes como Lucas Pires, entre as três e as seis da manhã apareciam fadistas. E Zeca, no meio da clientela, também cantarolava o fado mais castiço e o de Coimbra.

De tal forma aquelas melodias se lhe entranharam nos tímpanos, onde tanto tem acolhimento a voz de Johnny Hallyday como a de Luciano Pavarotti, que cantou fado em público, mas não para portugueses, "que me expulsariam da sala", em Albufeira, acompanhado ao órgão por Jorge Palma. Essa é a parte mais aventurosa deste membro de uma geração que parecia ter-se inspirado no clássico da literatura beat, On The Road (Pela Estrada Fora), de Jack Kerouac - aliás, questionado sobre preferências literárias, Zeca diz que leu sobretudo os romancistas dilectos da sua geração, como Hemingway e Jorge Amado.

No final do segundo período, olhando para as pautas nas férias da Páscoa de 1967, concluiu que o ano já estava perdido. Então, ele e o amigo Jorge Palma resolveram partir, à boleia, para o Algarve. O futuro compositor de álbuns tão emblemáticos como 'Té Já, O Lado Errado da Noite, Bairro do Amor ou Só tocava em bares de Albufeira e de Portimão. Na memória de Zeca ficaram nomes de botequins como o 1900 ou o Sete e Meio.

E recorda que telefonava aos pais e escrevia cartas para casa. Mas, se estava em Albufeira, ia ao correio a Portimão e vice-versa, para evitar que lhe fossem no encalço. Ao fim de "seis meses de praia", regressaram a Lisboa. Mas quando bateu à porta de casa, no final de Setembro, a mãe não reconheceu logo aquele rapaz magríssimo e de cabelo comprido.

Data dessa altura a colaboração no programa Eco, do Rádio Clube Português, cujo responsável era Hélder Lucas, "actualmente, um quadro importante do MPLA". Passavam jazz e blues, "mas, para a época, era um programa de esquerda, com malta ligada aos sectores da oposição" - alguns deles acabariam por aderir à UDP, outros ao MRPP.

Chamado a cumprir serviço militar - e não imitando o que faria, em 1973, o seu amigo Jorge Palma, que decidiu ser refractário e partiu para a Dinamarca -, entre 1970 e 1972 Zeca Mendonça deu instrução de obuses no RAL 1, unidade militar que seria importante no 11 de Março e no 25 de Novembro de 1975, passando, entretanto, a chamar-se RALIS.

Naquele virar de década, quando o ambiente contestatário da juventude ao regime começava a ser permanente, uns amigos que andavam em Direito desafiaram-no a ir a um manifestação. Como seria de esperar, "deu para o torto" e o militar identificado naquela contestação seria punido com duas comissões de serviço no (então) Ultramar - o 25 de Abril "poupou-lhe" a segunda. Foi colocado na Guiné, no tempo em que se falava do "corredor da morte", primeiro em Pendinglo (Teixeira Pinto), depois, na Mata do Catanês, perto de Madina do Boé, a localidade onde o PAIGC declarou unilateralmente a independência, em 1973, e que era uma zona já de tal forma controlada pelos guerrilheiros que até ali tinham hospitais e escolas.

A revolução dos cravos impôs o slogan "nem mais um soldado para as colónias" e, ao cair da noite de 26 de Agosto de 1974, Zeca Mendonça embarcava num avião em Bissau e, durante a viagem, quase só pensava na viagem que sonhava fazer. Ao aterrar em Lisboa, já o calendário marcava 27 de Agosto, um amigo que conhecia da Faculdade de Direito, João Inácio Simões de Almeida, convidou-o logo a trabalhar como segurança de um novo partido e, nesse mesmo dia, foi à sede do (então) PPD, que ficava no Largo do Rato, junto à capela onde houve a célebre vigília de 1972 contra a guerra colonial.

Passou a integrar os turnos de segurança da sede e, voluntariamente, também ia garantir a dos comícios em terrenos mais hostis, como Setúbal ou Beja. Nessa época, em que ainda se estava a criar o sistema partidário como actualmente o conhecemos, ainda recolheu umas 20 ou 30 das cinco mil assinaturas necessárias à legalização do PPD, que juntou à sua própria.

Nesses tempos de palavras inflamadas, mas em que a pólvora real não explodiu, o carro onde seguia para a Praia das Maçãs, no 11 de Março de 1974, conduzido por Luís Simões de Almeida, foi detido numa barreira de revolucionários. Alguém gritou: "Deixa passar, que é malta trabalhadora!" Ninguém reparou no porta-chaves com o emblema do partido. Se o tivessem feito, talvez descobrissem que Zeca tinha uma pistola no bolso e o porta-bagagens levava os caixotes com as fichas de militantes do PPD.

No 25 de Novembro, depois de a sede ser evacuada, quando estava sozinho num dos turnos, toca o telefone e, do outro lado do fio, perguntam se é o "Cobra" que fala. Zeca pensa que é algum provocador e não poupa nas palavras. Alguém se tinha esquecido de lhe transmitir o seu código. Uma situação digna do imaginário de Woody Allen, cujos filmes tanto aprecia - embora, se lhe pedissem para indicar qual é a película da sua vida, talvez escolhesse África Minha, que marcou o início do namoro com a mulher.

Em 1977, a segurança do PSD deixou de existir e havia três opções: o grupo de Estudos, o jornal Povo Livre ou o gabinete de relações públicas. Não hesitou. Afinal, na área da vigilância-recepção, há muito que contactava com os jornalistas. E, ao contrário da opinião generalizada, tem boa opinião dos profissionais da informação. E também se dá bem com os políticos de outros partidos, com quem se cruza na Assembleia da República. Certa vez - conta - estava alguém a chamar um táxi à entrada do Parlamento. Zeca Mendonça parou e disse-lhe que o levava. O interlocutor tentou escusar-se. "Entre, que não me custa nada levá-lo ali ao Largo do Rato", insistiu. Era o socialista Jaime Gama.

(Texto publicado a 29 de setembro de 2007)

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