SNS. Direita aproveita despacho de ministra para pressionar a favor dos privados

PSD diz que há "gestão errada" da "capacidade instalada" em Portugal no campo da saúde. CDS diz que Governo põe "a ideologia à frente da vida das pessoas".

PSD e CDS aproveitaram um despacho da ministra da Saúde para dar aos hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) a possibilidade de em novembro não atenderem situações não urgentes para pressionar o Governo no sentido de reforçar as ligações ao setor privado, potenciando a sua atuação no tratamento de doentes com covid-19.

Rui Rio falou em Miranda do Corvo (Coimbra), onde visitou um hospital privado ainda por abrir, Hospital Compaixão, propriedade de uma IPSS, dizendo que a ministra da Saúde "tem aqui um complexo qualquer contra os privados" - razão pela qual, no seu entender, a dita unidade não consegue abrir portas (por ausência de protocolos com o Estado).

Este caso, disse, serve como exemplo para demonstrar que tem havido uma "gestão errada" da "capacidade instalada" na Saúde, sendo imperioso reforçar a ligação entre o SNS e os privados para que estes ajudem a suprir as carência do sistema hospitalar público. "Não se vai deixar a pessoa sem tratamento, no limite deixar morrer", sublinhou.

Acrescentou que "compreende" o despacho da ministra, mas só "desde que depois haja uma plena utilização dos recursos". Aliás, acrescentou, "esse despacho é quase desnecessário porque a realidade empurra para que se ponha à frente o que é urgente e para trás o que não é urgente".

"O que se pede a esta ministra é que não seja apenas uma ministra do SNS, seja uma ministra da Saúde, e a saúde em Portugal tem uma resposta de âmbito alargado que complementa o SNS com o setor social e particular, que não estão a ser utilizados neste momento."

Já o presidente do CDS-PP considerou que a situação pandémica em Portugal exige que Marta Temido não seja apenas uma ministra do SNS, mas da Saúde, criticando o Governo por andar a reboque dos acontecimentos.

"O que se pede a esta ministra é que não seja apenas uma ministra do SNS, seja uma ministra da Saúde, e a saúde em Portugal tem uma resposta de âmbito alargado que complementa o SNS com o setor social e particular, que não estão a ser utilizados neste momento e que só agora, perante o colapso do sistema de saúde é que se equaciona que possam vir a ser acionados", argumentou Francisco Rodrigues dos Santos, em declarações à margem do lançamento de um livro, no Porto.

"O Governo não foi capaz de prever, planear e antecipar esta pressão sobre o SNS [...] nomeadamente contratualizando com o setor particular e social."

Para o centrista, "mais uma vez", o Governo chega "tarde e a más horas", tomando decisões "a reboque dos acontecimentos" e até dos alertas deixados pelo Tribunal de Contas, que considera que a recuperação da atividade interrompida requer cuidados adicionais na prática clínica, sob pena de a capacidade instalada ser insuficiente dado o acréscimo de procura, "sem o aumento acentuado dos tempos de espera".

"O que se pergunta é como é que o Governo não foi capaz de prever, planear e antecipar esta pressão sobre o Serviço Nacional de Saúde e, em vez de encontrar soluções, nomeadamente contratualizando com o setor particular e social para oferecer consultas, cirurgias e exames", questionou, comentando a determinação da tutela de permitir que os hospitais suspendam toda atividade assistencial não urgente durante o mês de novembro.

"O Governo, das duas uma, ou cruza os braços e fecha à porta a estes doentes que recorrem ao SNS, ou consegue, por outra via, contratualizando com o setor particular e social, criando uma Via Verde Saúde como o CDS propôs."

Francisco Rodrigues dos Santos considerou que, com esta decisão, o Governo está a "fechar a porta na cara" aos doentes, "agravando" o problema, em vez de o solucionar, numa altura em que em Portugal foram canceladas, disse, cem mil cirurgias, seis milhões de consultas presenciais nos centros de saúde e 17 milhões de exames.

"O Governo, das duas uma, ou cruza os braços e fecha à porta a estes doentes que recorrem ao SNS, ou consegue, por outra via, contratualizando com o setor particular e social, criando uma Via Verde Saúde como o CDS propôs para oferecer uma resposta a quem está doente. Em vez de procurarmos resposta que colocam ideologia à frente da vida das pessoas, devíamos utilizar o setor social e particular para dar uma resposta médica aos doentes", declarou.

Em declarações aos jornalistas, o líder centrista acusou ainda o Governo de transformar, com a sua gestão, a pandemia num pandemónio, lamentando que o Ministério da Saúde tarde em concretizar aquilo que tem vindo a ser um apelo do CDS há muito tempo e que é hoje validado pelo relatório do Tribunal de Contas.

Na terça-feira, o CDS-PP anunciou que vai propor alterações ao Orçamento para que o Estado assegure tratamentos no privado quando "ultrapassado o tempo máximo previsto", e ainda um "corredor de emergência" para recuperar as consultas atrasadas devido à pandemia.

À esquerda, o PAN preferiu salientar que "nesta fase devemos ter mais camas, mais equipamentos e mais recursos humanos nos contextos hospitalares para recebermos e cuidarmos de todos os que necessitem, mas se não conseguirmos atempadamente impedir os contágios nunca teremos camas, ventiladores ou profissionais de saúde em número suficiente".

Segundo a deputada Bebiana Cunha, "os equipamentos não trabalham sozinhos e a integração dos profissionais de saúde deve acontecer o quanto antes, assim como a formação para trabalhar com os equipamentos deveria ter ocorrido em tempo útil".

"Não nos cansamos de falar de prevenção e agora, de facto. estamos a correr atrás do prejuízo. Se para correr atrás, é preciso suspender os cuidados que não sejam urgente que se faça, mas acima de tudo é preciso tomar medidas específicas para o controlo da epidemia, mas também conseguir garantir as restantes respostas de saúde urgentes", acrescentou.

Em Portugal, morreram 2635 pessoas dos 149.443 casos de infeção confirmados, de acordo com o boletim mais recente da Direção-Geral da Saúde.

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