PS aprovou deputados em duas horas e meia. Com polémicas nas listas e famílias de fora

Comissão Política Nacional do partido aprovou as listas de candidatos socialistas a deputados nas próximas eleições legislativas com votações entre os 80 e os 92%, com mais de 56% de mulheres entre os seus efetivos.

Em pouco mais de duas horas e meia, o PS aprovou as suas listas de candidatos a deputados. A rapidez e a relativa tranquilidade do processo não evitou polémicas, sobretudo em Braga e na Guarda, e com os sindicalistas do partido. Pedro Nuno Santos atirou à direção no caso da lista de Braga e foi o próprio António Costa quem lhe respondeu.

Já depois da meia-noite, o presidente do PS anunciou que a Comissão Política Nacional do partido aprovou as listas de candidatos socialistas a deputados nas próximas eleições legislativas com votações entre os 80 e os 92%.

"As listas que o PS apresenta têm mais de 56% de mulheres entre os seus efetivos, respeitando assim a distribuição equilibrada em termos de género. Também têm a particularidade de terem sido aprovadas por voto secreto com votações que oscilaram entre os 80 e os 92%", apontou Carlos César, tentando aqui traçar uma linha de demarcação face ao PSD.

"Já aprovámos o nosso programa [eleitoral no sábado passado] com uma participação muito vasta de quadros independentes e qualificados e com contributos da sociedade civil. Penso que este processo que agira se conclui habilita o PS, como nenhum outro partido - estando dotado de um programa baseado numa experiência de Governo bem-sucedida e na vontade de inovar e acolher novos contributos e novas pessoas - para prosseguir de forma vitoriosa com a confiança dos portugueses", declarou.

Carlos César recusa polémicas

Confrontado com o facto de as listas de candidatos a deputados do PS não terem agora representantes nem da CGTP, nem da UGT, Carlos César contrapôs que o seu partido "tem nas suas listas personalidades que são pessoas sindicalizadas, que desde logo trabalham e têm um domínio em matérias laborais".

"Nesta legislatura, discutimos um pacote sobre legislação laboral e ele não foi necessariamente discutido por sindicalistas. Foi discutido por deputados que têm uma especialidade nestas áreas. Isso aconteceu e voltará a acontecer", alegou.

Para o presidente do PS, que não entra nas listas, depois de ter anunciado o seu afastamento, mais importante do que a questão de representantes das centrais sindicais nas listas de candidatos a deputados "é saber o que se pretende para o país", designadamente nos planos "laboral, económico e social".

Já sobre as polémicas em torno das listas com as federações da Guarda e Braga, Carlos César negou a existência de "problemas específicos nessas áreas". "Em todos os círculos eleitorais há pessoas que, naturalmente, achavam que um ou outro devia ter melhor posição, ou que deviam estar presentes certas pessoas e não outras. Isso é inevitável que aconteça num partido democrático, mas o que releva é que estas votações foram extraordinariamente impressivas", sustentou o presidente do PS.

Cuidados com relações familiares

Onde os socialistas recuam é na questão de militantes familiares, depois dos vários casos suscitados no chamado familygate, que deixou mossas no partido.

António Mendonça Mendes, líder da distrital de Setúbal, secretário de Estado e irmão da secretária-geral adjunta, Ana Catarina Mendes, não surge na lista do distrito, encabeçada pela irmã e que tem em segundo o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, em segundo; e Luís Graça, até aqui deputado e presidente da federação do Algarve, está em lugar não-elegível, num distrito liderado pela agora sua mulher, Jamila Madeira.

Quem também ficou de fora, mas por motivos pessoais, é Duarte Cordeiro, o líder da distrital de Lisboa e atual secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares.

Sindicalistas descontentes com exclusão

Os representantes da UGT e da CGTP presentes na reunião da Comissão Política Nacional do PS queixaram-se de não estarem representados em lugares elegíveis nas listas de candidatos socialistas a deputados. De acordo com fontes socialistas na reunião, citadas pela agência Lusa, que decorreu na sede do partido em Lisboa, estes protestos foram transmitidos pelos dirigentes Wanda Guimarães e José Abraão, ambos da UGT, e por Carlos Trindade, da CGTP.

Em declarações à agência Lusa, Wanda Guimarães, deputada que se prepara para abandonar o Parlamento por vontade própria, confirmou este clima de insatisfação e considerou que a ausência de membros das duas centrais sindicais nas listas de candidatos a deputados "representa um empobrecimento do PS". "O PS é um partido trabalhista, de esquerda. Devia ter outro cuidado com o mundo sindical", disse a ainda deputada, que na passada sexta-feira manteve uma azeda troca de palavras com deputados à esquerda dos socialistas.

Nas listas de candidatos do PS para as legislativas de 2015, além de Wanda Guimarães, entrou em lugar considerado elegível Rui Riso, que agora não aparece.

Braga foi pedra no sapato entre Costa e Pedro Nuno

Na reunião, também o presidente da Federação socialista de Braga, Joaquim Barreto, criticou a decisão de ter sido avocada a lista que saiu da sua estrutura para a Comissão Política Nacional do PS e afirmou discordar de algumas alterações introduzidas.

O dirigente socialista Pedro Nuno Santos - e ministro das Infraestruturas - criticou a direção do seu partido pela forma como geriu o processo de escolha dos candidatos a deputados no círculo de Braga, e o secretário-geral do PS, António Costa, respondeu-lhe. De acordo com dirigentes socialistas contactados pela agência Lusa, o episódio passou-se ainda no fim da tarde de terça-feira, durante a reunião do Secretariado Nacional do PS, que antecedeu a aprovação das listas de candidatos a deputados em Comissão Política.

Na reunião do Secretariado Nacional do PS, o antigo líder da JS e ex-secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares considerou que houve uma excessiva interferência da direção na composição da lista de candidatos a deputados pelo círculo de Braga, depois de a respetiva federação a ter aprovado com mais de 80% de votos favoráveis.

Mais do que António Costa, esta crítica de Pedro Nuno Santos visou a secretária-geral adjunta do PS, Ana Catarina Mendes, que coordenou todo o processo de escolha dos candidatos socialistas a deputados nas próximas eleições legislativas.

Segundo as mesmas fontes contactadas pela agência Lusa, António Costa contrapôs que estava em causa a qualidade da lista aprovada pela Comissão Política Federativa de Braga do PS.

Sónia Fertuzinhos, cabeça de lista socialista pelo círculo eleitoral de Braga, só foi anunciada oficialmente pelo PS momentos antes de se iniciar a reunião da Comissão Política Nacional e de os membros deste órgão serem chamados a votar.

O nome de Sónia Fertuzinhos e o do secretário nacional do PS para a Organização, Hugo Pires, não constavam dos candidatos incluídos na lista aprovada pela Federação de Braga dos socialistas. Os dois, apesar de serem deste distrito, entraram na lista pela quota nacional do secretário-geral, que indica um terço do total.

Na lista final de Braga, em terceiro lugar, também entrou pela quota nacional a líder da JS, Maria Begonha, embora esta jovem socialista seja considerada próxima de Pedro Nuno Santos.

Críticas da minoria socialista

Também o líder da corrente minoritária socialista, Daniel Adrião, acusou hoje o secretário-geral do PS, António Costa, de ter feito listas de candidatos a deputados que refletem o peso do aparelho partidário, sem abertura à sociedade.

No seu discurso, ao qual a agência Lusa teve acesso, Daniel Adrião afirmou que "a responsabilidade destas escolhas é do secretário-geral, porque a proposta que vamos votar é apresentada pelo secretário-geral". E acrescentou: "São escolhas que refletem o peso e a influência do aparelho, mas que não refletem a desejável abertura à sociedade que se impunha, tendo em conta os fraquíssimos níveis de participação eleitoral que se têm vindo a registar."

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